Sábado, Agosto 01, 2009

DIÁRIO DE VIAGEM

Vivem em nove belas Ilhas no meio do Oceano Atlântico.
Dizem ser o centro do Mundo, os últimos picos da Atlântida - o Continente Perdido, a terra de Neptuno.
Falam de forma diferente.
Cozinham a comida em buracos na terra, com o calor dos vulcões.
Fazem jogos com touros e perdem quase sempre.
Nadam com golfinhos.
Mergulham com baleias que antes caçavam em pequenos barcos e depois gravavam-lhes os dentes.
Há 500 anos que resistem a tremores de terra, a tempestades com ventos de 250 km por hora, a ondas do mar com 20 metros.
Pescam os maiores peixes do Mundo - espadartes e atuns.
Dividem os terrenos com flores, principalmente hortênsias.
Criam vacas e chamam-nas pelo nome próprio.
Comem comida temperada com especiarias vindas das Índias, Áfricas e Américas.
Festejam o "Espírito Santo" que dizem ser seu "Senhor".
Usam uma ave - Milhafre - como seu símbolo mas chamam-se Açorianos.
São uns estranhos e simpáticos loucos!

Texto: José Henrique Azevedo.

Domingo, Junho 14, 2009

ESPÍRITO CRIADOR

Meus Amigos e Amigas Catofianos(as) e Quibalenses, um ÓPTIMO DIA!

No apelo que fiz em artigo precedente aos catofianos e quibalenses de Espírito elevado, para darem as mãos no sentido de ser fundado um "Movimento para a Reconstrução das Igrejas do Catofe e da Quibala", realcei que esta era uma Missão para quem acredita na “força criadora” do sentimento que é essencialmente de natureza espiritual! Efetivamente, o nosso movimento só será bem sucedido se for impulsionado pela força do Espírito e não da vontade humana.

Os açorianos do Catofe são muito devotos do Divino Espírito Santo, por isso, aderi prontamente ao projecto, ao ser convidado, e fiz dele um dos meus objectivos de vida. Realmente, ELE é o Espírito do Universo, Criador do Mundo, que poderá impulsionar inexoravelmente o nosso novo projeto até à sua vitória completa. Nisso confiamos completamente. Por isso, hoje, pela manhã, tendo bem presente o nosso grande desafio comum, fiz a seguinte “mentalização” com muita fé:

Sou um com o Espírito Santo do Universo, Criador do mundo. A Mente do Universo procura expressar-se através de mim. Foi-me atribuída a missão de trabalhar na obra da criação junto com Deus. Neste momento, a minha mente está repleta de ideias e projectos, relativos às igrejas do Catofe e da Quibala . Sou um com a Sabedoria que tudo cria. A Mente do Universo me orienta sobre o que idealizar e criar. Sob a orientação do Divino Espírito Santo, consigo criar com habilidade e autenticidade. Sinto-me preenchido de nova força e capacidade. Estou repleto de novo vigor mental e físico. Minha alma está exultante de alegria e esperança. Sinto em mim a presença da Sabedoria e da Verdade divinas. Por isso, sei que a minha força criativa é perfeita. Agradeço ao Divino Espírito Santo do Universo, que é o Criador de todas as coisas boas.

Meus amigos e amigas, se vocês fizerem comigo esta mentalização todos os dias, a pensarem no nosso projecto de reconstrução no Catofe e na Quibala, todas as dificuldades serão removidas paulatinamente até à realização completa do nosso sonho. Só precisamos agir e tudo o que nos é necessário será suprido conforme as nossas necessidades. Será a manifestação da Provisão Infinita do Espírito Santo, Criador de todas as coisas do Universo!

Um grande abraço do Kabiá-Kabiaka.

Domingo, Maio 31, 2009

RECONSTRUIR É A NOSSA MISSÃO!

Meus Amigos e Amigas Catofianos(as) e Quibalenses, bom dia!

Muitos de vós já me perguntastes: por que me deixei autenticamente assaltar por esta motivação para o projeto de reconstrução das igrejas do Catofe e da Quibala? Não é uma utopia?

Eu respondo: são coisas que só a minha Alma pode explicar; efetivamente, há coisas que se sentem e não se explicam, e, quanto mais tentamos encontrar uma explicação para elas, parece que mais elas tomam conta de nós a nos pedir para parar de explicá-las, antes, tão somente, buscar senti-las. Estou vivendo esta fase da minha vida, inteiramente, movida pelo “sentimento criador”...

A verdade nua e crua é que o convite do meu Kilamba me fisgou porque eu sou, como já devem percebido no blog Kabiaka Shodo, “membro de carteirinha” do “Movimento de Iluminação da Humanidade”, fundado pelo Prof. Masaharu Taniguchi, que diz o seguinte: “Por intermédio do raciocínio ou da teoria, ninguém poderá apaixonar-se; e quem não se apaixona nem poderá ter filhos. Naturalmente, há exceções, mas a essência da força de “gerar filhos”, ou seja, da força criadora, é o sentimento e não o raciocínio ou a teoria. O que realmente move o homem é a força do sentimento. Eu que adotei três filhos no mesmo dia, entre os cinco que me possuem, antes de conhecer o Dr. Masaharu Taniguchi, dou total razão ao seu raciocínio inspirado que invoca a superioridade da força do sentimento como criadora de VIDA!

Há algum tempo encontrei uma explicação espiritual para a autodestruição de Angola. Alguns encontraram uma explicação puramente materialista e, não é por acaso, são estes que manifestam grande desesperança quanto à reconstrução da terra que mais amamos. Portanto, se a origem do problema foi espiritual, então, a cura será também espiritual. Não há escapatória!... Certamente, não será o materialismo – capitalista ou outro – a resolver ou a mitigar as dores do nosso povo angolano, porque os fervorosos seguidores do autodenominado “socialismo científico” tentaram fazer isso por muitos anos após a independência e não alcançaram os seus intentos mais altruísticos. A solução é espiritual e passa pela educação, principalmente, pelo incentivo à auto-educação e autoconhecimento no sentido de cada angolano visualizar a sua natureza divina ou espiritual. Como vocês queiram considerar isto é simultaneamente arte, filosofia, ciência e religião.

Agora é a nossa vez! Agora, SOMOS NÓS! VAMOS HOMENAGEAR OS PIONEIROS DO CATOFE E DA QUIBALA E MANIFESTEMOS A MESMA FÉ E ESPÍRITO QUE OS MOVEU!

SONHE COMIGO! Diga comigo: QUANDO EU SONHO O UNIVERSO ME RESPONDE, E SE MOVE QUANDO EU ME MOVO!

Assim, quando apelei aos catofianos e quibalenses de espírito elevado para darem as mãos no sentido de ser fundado um “Movimento para a Reconstrução das Igrejas do Catofe e da Quibala” não quis discriminar os materialistas, mas porque sei perfeitamente que esta é uma Missão para quem acredita na “força criadora” do sentimento que é essencialmente de natureza espiritual! É como fala a canção do vídeo abaixo, que até poderá constituir-se em Hino da nossa missão. Então, memorize a letra do hino e acompanhe-o pelo vídeo.

MARCHA DA MISSÃO

Esta vida que objetivo terá?
Esta humanidade que significa?
Sem conhecermos a finalidade,
Que valor tem a nossa vida?
Que valor tem a nossa vida?

De Deus nosso Senhor esta vida recebemos
Para a mais alta realização.
Nós nascemos com uma finalidade,
Que valor teremos se não a cumprirmos?
Que valor teremos se não a cumprirmos?

A caridade é o ato de nosso dever.
Deus é o amor que somente dá,
Seu ensinamento nós seguiremos,
Dedicando-nos a caridade.
Dedicando-nos a caridade.

Somente os que vivem para esta missão
Conhecem o prazer que nós recebemos.
A fé fortificando levantemos,
Purificando a alma avante.
Purificando a alma avante.


Um grande abraço do Kabiá-Kabiaka.

P.S. Peço perdão aos quibalenses por não ter postado no artigo anterior uma foto da igreja da Quibala, mas só agora tive acesso a ela por superior gentileza da primeira quibalense a aderir ao projeto. Muito obrigado!
A igreja da Quibala que aguarda obras de recuperação.

video

Domingo, Maio 24, 2009

O DESAFIO MAIOR DA RECONSTRUÇÃO

Sexta-feira e hoje, tive a oportunidade de conversar com o meu pai Kilamba Vicente, rijo colono das baixas do Catofe, agora, mais rijo ainda nos seus 89 anos. Ele me trouxe novidades sobre iniciativas para a reconstrução do Catofe, que me deixaram muito empolgado.

Efetivamente, já existe em marcha em Portugal e nos E.U.A. um movimento de colonos catofianos – açorianos e seus descendentes do Catofe – para angariação de recursos tendo em vista a reconstrução da igreja do Catofe, com conta bancária ativa. Há a possibilidade de apresentar um projecto para solicitar apoio de instituições, principalmente, do Banco Espírito Santo, em Angola.


A igreja do Catofe que aguarda a nossa reconstrução.

O primeiro passo a ser dado é o do projecto de reconstrução. Para isso fui convocado, nas funções de engenheiro civil. Eu respondi: estou dentro! A minha empolgação chegou ao ponto de propor a reconstrução concomitante da Casa do Divino Espírito Santo e  recuperação da igreja da Quibala, pois em fotografia que me enviaram recentemente a igreja quibalense tem uma grande rachadura na fachada e imagino que por dentro também necessite de melhorias significativas.

O meu pai moderou a minha motivação incendiária. Contudo, eu garanto aos que me lêem que o sonho que proponho em conjunto para catofianos e quibalenses é muito viável. Aliás, conforme eu creio firmemente e a vida me tem dado sobejas provas, “tudo o que se reconhece na mente se manifesta infalivelmente”. O grande salto que leva o sonho à realidade é a ação. Aqui, me lembro de uma frase que aqui no Brasil mandamos certa feita gravar nas camisetas dos participantes de um movimento filantrópico de que fizemos parte: “Visão sem Ação não passa de um sonho; Ação sem Visão não passa de um passatempo; Visão com Ação pode mudar o mundo”. Esta até poderia ser a frase mestra do nosso movimento de reconstrução nas planícies centrais do Kwanza Sul. Que acham?

Assim, lanço um apelo a todos os catofianos e quibalenses, claro, com as suas contas bancárias específicas, para a angariação de fundos no sentido de se conseguir em 2010 a reconstrução das igrejas do Catofe e da Quibala, em movimento conjunto que levaria alguns de nós a assentar acampamento nas terras africanas para “meter a mão na massa”. Este é verdadeiramente um movimento de iluminação das populações daqueles lugares...

Quanto aos meus conterrâneos catofianos, eu lanço um repto mais ousado. Vamos prosseguir com o movimento até à reconstrução da Casa do Divino Espírito Santo, para ali também ser instalado um Centro Açoriano de Cultura, e retomar as festas do Espírito Santo, com comissões de festas conjuntas de catofianos na diáspora e catofianos residentes em Angola. ESSE DEVE SER O NOSSO MAIOR ALVO!

A Casa do Divino Espírito Santo, o nosso maior desafio de reconstrução.

FICO A AGUARDAR A RESPOSTA POSITIVA DOS CATOFIANOS E QUIBALENSES DE ESPÍRITO ELEVADO!

No próximo mês de julho estarei em Portugal continental e Açores para ver brilhar os olhos de catofianos e quibalenses que ousam participar deste nosso sonho. Será um momento óptimo para a grande arrancada do projecto apresentado, porque um sonho individual é apenas um sonho mas um sonho coletivo já é um movimento. Aos que me derem as mãos desde já agradeço emocionado: MUITO OBRIGADO!

Este é verdadeiramente um movimento de fé, porque "a fé é a firme certeza das coisas que se esperam e a prova das coisas que não se vêem"...           

Um grande abraço do Kabiá-Kabiaka.

Segunda-feira, Maio 11, 2009

O NOSSO BERÇO

A tese de que a África é o berço da Humanidade não é novidade há muito tempo. Absorvi com especial deleite a leitura da magnífica obra “Uma Breve História do Mundo” de Geoffrey Blainey, que no capítulo 1, sob o título “Vindos da África” e os subtítulos “Um despertar” e “O Colombo Negro” me levou a uma maior identificação com a terra onde sempre me orgulhei de ter nascido e vivido os melhores anos da minha vida.

A novidade mais recente nos foi trazida agora pela maior investigação científica jamais realizada sobre a diversidade genética da África, berço da humanidade há cerca de 200.000 anos. O estudo foi realizado pela Universidade da Pensilvânia, sob a coordenação da antropóloga e geneticista Sarah Tishkoff, durou mais de dez anos, incluindo a coleta de material genético de 3194 integrantes de 113 populações da África. A conclusão mais sonante foi que o homem moderno surgiu numa região situada no sudoeste africano, precisamente, na fronteira entre Angola e a Namíbia.

É ali que vivem hoje aproximadamente 100.000 pessoas do povo San, que se sustentam essencialmente da caça e da coleta. É o povo africano de maior variedade genética, a tal ponto que os pesquisadores da Universidade da Pensilvânia foram levados a concluir que os antepassados dos Sans é que deram origem à humanidade. Outras pesquisas já mostraram que uma distância gradativamente crescente da África leva a uma sucessivamente menor diferenciação de genes das populações do nosso planeta. Portanto, isso também leva à conclusão de ser a África o berço da humanidade, pois a população original teve mais tempo para acumular variações no seu genoma, o que é denominado de "efeito fundador". Efetivamente, as populações mais distantes da África são descendentes de grupos migratórios pequenos e relativamente recentes, o que é traduzido em maior homogeneidade genética.

Sans do Sudoeste Africano (Fonte: Veja, 12/05/2009).

A pesquisa americana concluiu ainda que os antepassados dos Sans viveram a primeira diáspora pela África. Também, que um bando tribal de até 150 integrantes teria deixado a África, há 50.000 anos, cruzando o Mar Vermelho em direção à Ásia e daí conquistou o mundo. Realmente, os africanos colonizaram primeiro o hemisfério norte, bem antes de serem colonizados pelos povos brancos, os seus descendentes. Que ironia do destino!

Por fim, os pesquisadores descobriram que todos os africanos são descendentes de catorze populações. Para obterem esse resultado, eles compararam os padrões genéticos com a etnia, a cultura e a língua dos povos pesquisados. Descobriram fortes relações entre os traços genéticos e a cultura de cada povo, com poucas exceções.

A diáspora dos Sans (Fonte: Veja, 12/05/2009).

O estudo abriu também caminho para curar algumas mazelas do continente africano, com novos tratamentos para a AIDS ou SIDA, malária e tuberculose. Isto porque, segundo Sarah Tishkoff: "os africanos têm sido negligenciados nas pesquisas de mapeamento genético porque o acesso aos grupos com maior diversidade genética é difícil”.

Não é uma satisfação verificar que o Jardim do Éden se situou bem próximo da nossa abençoada terra de Angola?

O médico e artista plástico Richard Neave, da Universidade de Manchester, especializado em reconstituição facial, mostrou há dez anos como era o rosto de Luzia, o fóssil mais antigo de um brasileiro, com 11 500 anos. Recentemente, Neave reconstituiu a face do primeiro europeu, baseado em partes do crânio e da mandíbula de um Homo Sapiens de 35 000 anos encontradas em 2002, na Romênia. A semelhança entre as duas reconstituições ajuda a entender que as diversas etnias humanas provieram de uma população reduzida de seres humanos e que as feições caracteristicamente negras dessas reconstituições confirmam a tese do berço comum da humanidade. Walter Neves, arqueólogo da Universidade de São Paulo, afirma que "o processo de diferenciação que produziu brancos, negros ou japoneses começou há 10.000 anos e acrescenta que "antes desse período, todo mundo possuía rosto semelhante ao dos atuais africanos.  A semelhança entre Luzia e o primeiro europeu se deve também às técnicas de Neave, que sabe como poucos especialistas em reconstituição como os tecidos da face se amoldam a determinados tipos de osso.

O antepassado europeu e a Luzia brasileira (Fonte: Veja, 12/05/2009).

As conclusões das pesquisas genéticas têm sido um duro revés para os racistas, xenófobos e nacionalistas empedernidos, pois têm dado sustentação ao grande ideal proclamado pela frase de Mirza Hussain Ali: “a Terra é um só país e os seres humanos são os seus cidadãos”.

Um grande abraço do Kabiá-Kabiaka.

Sexta-feira, Maio 01, 2009

FOME COM DATA MARCADA OU SÓ UMA DESCOBERTA PARA PENSAR

Cientistas das Universidades do Arizona e do Texas trouxeram recentemente ao nosso conhecimento que a África Subsaariana tem experimentado, nos últimos três milênios, períodos de grandes secas, que se repetem a intervalos de 30 a 65 anos.

A última destas secas ocorreu precisamente entre 1972 e 1984, responsável por 750 mil pessoas flageladas, com 100 mil mortes, em três países onde foram registradas estatísticas confiáveis: Mali, Níger e Mauritânia. Eu lembro-me que em Angola, de 1972 a 1974, havia notícias sobre seca prolongada nas terras do sul, onde a população ainda se dedica mais à criação de gado.

A nova tragédia está prevista para 2030, aproximadamente, prevendo-se efeitos bastante devastadores, dada a situação de penúria da maioria dos povos em alguns países, onde 70% da população vivem com menos de dois dólares por dia, apesar de certa abundância de recursos naturais. Aliás, o ano de 2030, também, é profetizado como o limiar do esgotamento das jazidas de petróleo, o que será catastrófico para os países exploradores que não têm aproveitado a bênção dessa riqueza para investir no desenvolvimento auto-sustentável através de educação, saúde e segurança para todos.

Os pesquisadores americanos ainda concluíram que algumas secas subsaarianas chegaram a durar séculos, como a que ocorreu entre 1400 e 1750. Por isso, atendendo a esse dado do passado e se as previsões sobre o aquecimento global se confirmarem, os pesquisadores avaliam que a seca estimada para 2030 será mais devastadora do que nunca. O Prof. Jonathan Overpeck, da Universidade do Arizona, um dos chefes da equipe de pesquisa, chegou a dizer à imprensa: "Por causa de uma série de fatores, e um deles é o aquecimento global, não conseguimos predizer a extensão do próximo período de seca, mas sabemos que ela será muito mais severa que as anteriores".

As secas na África Subsaariana costumarem ser particularmente catastróficas porque as populações locais vivem da agricultura de subsistência, para a qual um pequeno atraso nos períodos de chuva já ser indutor de fome certa, por isso, seria bom que os governantes fossem já pensando nas medidas preventivas contra a catástrofe anunciada. Quanto à nossa querida Angola, só nos resta dizer: “depois de uma guerra de mais de 40 anos, só nos faltava esta!”.

Um grande abraço do Kabiá-Kabiaka.

Terça-feira, Abril 21, 2009

NAÇÕES AFRICANAS SEM ESTADO


De guerrilheiros da libertação a bandidos e piratas.

As últimas semanas trouxeram notícias sobre dois países africanos onde o Estado organizado – “um governo, um povo, um território” – é apenas uma quimera. Trata-se da Guiné-Bissau e da Somália.

Na Guiné-Bissau, os assassinatos do Chefe das Forças Armadas, no domingo, e do Presidente da República, em retaliação, demonstraram que a ação política se mistura frequentemente em África com a selvageria. Realmente, não houve em Bissau um golpe de estado como algumas notícias chegaram a difundir, antes, um acerto de contas entre duas quadrilhas – a do presidente e a do chefe da tropa.     

Hoje, a Guiné-Bissau é o quinto na lista dos países mais pobres do planeta. Seu principal produto oficial é a castanha-de-caju, mas a verdadeira riqueza está na utilização do país como entreposto para a cocaína que flui da América do Sul para a Europa e também para a heroína que a Ásia exporta para os Estados Unidos. O tráfico de drogas já deu à Guiné-Bissau um título inédito, revelado em relatório de 2009 do Departamento de Estado americano: o de primeiro narcoestado do planeta. Efetivamente, a Guiné-Bissau é somente uma nação ou um país sem Estado, portanto, sob o domínio completo do caos político e social, embora a imprensa portuguesa e angolana se esforce por fazer crer o contrário.

Na outra costa africana, a Somália é a primeira colocada na lista dos países falidos, uma terra miserável, sem lei, nem governo. Em sua maioria, a população é nômade e pastoril, sob a ameaça contínua da fome. Três milhões de somalis – cerca de 40% da população – dependem totalmente da ajuda humanitária internacional para sobreviver. O país tornou-se independente em 1960, bem antes da auto-proclamação da independência da Guiné-Bissau em 1973, todavia desde 1991, não conhece o que é um governo central. O território somaliano foi distribuído por clãs e grupos rivais. Agora, o sul está nas mãos de milícias islâmicas inspiradas no Talibã e duas províncias do norte se declararam estados independentes, embora não sejam reconhecidos por nenhum país. Forças da ONU e da União Africana em missão de paz não se arriscam a ultrapassar os limites da capital, Mogadíscio.

A Somália tem atualmente como sua principal atividade econômica a pirataria, podendo ser classificado como um estado pirata, à semelhança dos antigos estados piratas da costa berbere – Marrocos, Argélia e Tunísia – por três séculos, até 1830, quando a França conquistou a Argélia. O litoral da Somália é a região do mundo mais perigosa para a navegação marítima, concentrando um terço de todos os ataques de piratas efetuados no mundo. No início, os piratas somalis eram pescadores que encontraram na pilhagem ainda incipiente uma oportunidade de riqueza fácil; depois, empresários e políticos locais entraram com o dinheiro para a compra de barcos e armas em troca de uma parcela do lucro; agora, os piratas emprestam dinheiro e financiam os senhores de guerra na Somália.

Eyl e Harardere são as duas principais cidades que servem de base para as operações de pirataria somaliana; nelas, os piratas desfilam em carrões e mandam construir mansões com vista para o mar. O lucro da pirataria é altíssimo. Em 2008, os piratas somalis faturaram 150 milhões de dólares em resgates – dez vezes o total de doações internacionais recebidas pela Somália. Em suma, a ostentação pirata contrasta com a pobreza geral do país.  

A maior ironia sobre a Guiné-Bissau e a Somália é que elas são exemplos acabados das últimas consequências da aplicação do "socialismo científico" em África, com regimes pró-soviéticos que se instalaram nesses países por mais de 20 anos após a tão almejada independência dos seus colonizadores europeus.

Um grande abraço do Kabiá-Kabiaka.

Domingo, Abril 12, 2009

QUEM TEM RAÇA É CACHORRO!


O Brasil é o país onde a maioria da população, ao ser perguntada sobre a sua cor, responde simplesmente:

"Moreno".

A resposta sugere que o grosso da população brasileira não tem a certeza sobre a cor da sua pele, nem se interessa em sabê-lo, porque não considera isso muito importante; todavia, o atual governo federal esmerou-se em parir uma ideossincrasia com a criação de um órgão ministerial com o título pomposo de "Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial", para gáudio dos amigos a quem arranjou mais uns encostos empregatícios no aparelho estatal, e estupefacção ou apreensão dos opositores, e brasileiros em geral, que têm assistido à criação do racismo por via institucional num dos países menos racistas do mundo, ou, com toda a certeza, muito menos racista do que os países onde o atual governo brasileiro tem buscado inspiração para as suas desastradas medidas de "Ação Afirmativa".

Assim, o chefe do governo na sua costumeira verborragia comicieira, que encanta os seus mais diletos apaniguados, tem culpado genericamente a "elite branca" nacional pelos males do país e a "gente de pele clara e olhos azuis" dos países do norte pela recente crise econômica mundial, esquecendo que os acusados também são os principais agentes do desenvolvimento brasileiro e mundial. 

Enquanto a demagogia corre solta, a sua inútil "Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial", apenas, se destacou pelo uso indevido do cartão de crédito corporativo em compras de "Free-Shop", em aeroportos, ou no "Bar Amarelinho", no Rio de Janeiro, em benefício de uma secretária-ministra já demitida. Também, as leis aprovadas no Congresso Nacional visam objetivos exatamente contrários dos que dizem pretender atingir, isto é, criam "cotas raciais" que conferem a pretensos brasileiros negros - deixando exclusivamente a estes o direito de se definirem como tal - privilégios no mercado de trabalho, universidades e concursos públicos, em detrimento dos brasileiros que se definem como brancos ou ameríndios.

O advogado negro José Roberto Militão chegou a escrever no jornal "O Estado de S. Paulo":

"Os defensores das leis raciais ludibriam a boa fé alegando que cota racial é ação afirmativa. Ação afirmativa, de fato, é outra coisa: é a efetiva atuação da autoridade para coibir a discriminação contra minorias e multiplicar oportunidades, sem criar cotas, exigir reparações pelo passado ou restabelecer diferenças de direitos. Ao Estado cabe atuar para destruir a crença em raças. Leis raciais não servem para a redução das desigualdades entre brancos e pretos, pois atacam os efeitos, mas aprofundam as causas".

Depois do esclarecimento sábio do Dr. José Militão, um dos potenciais beneficiários das leis raciais do atual governo, concluimos que essas iniciativas induzem ao perigo de se passar da "distinção" à "divisão", o que está na contra-mão da integração harmoniosa das múltiplas origens da população brasileira.

Para concluir, nada melhor do que a frase do escritor baiano João Ubaldo Ribeiro: quem tem raça é cachorro!

Um grande abraço do Kabiá-Kabiaka

Sábado, Abril 11, 2009

DE SETE ORELHAS A MANUEL DAS CURVAS – Parte 2

O Manuel das Curvas ou “Manel das Curvas” era uma das figuras mais castiças da nossa aldeia do Katofe. Digamos que sem ele o Katofe seria uma incompletude iconográfica. Ele certamente era um dos principais responsáveis pela imagem predominante do Katofe que se gravou na mente de um camionista que parava frequentemente num dos bares para almoçar e que atirou a seguinte máxima:

-        Quando se passa durante a semana no Katofe quase não se vêem açorianos, mas no domingo ou durante as Festas do Espírito Santo, principalmente, quando há uma briga com alguém de fora, eles parece que saem do meio do capim como se fossem chineses.

Realmente, o Manel das Curvas era um daqueles que, à semelhança do Sete Orelhas, “pagava um boi para não entrar na briga e uma boiada para não sair”, sobretudo quando vislumbrava alguma oportunidade de atuar como justiceiro, todavia sem chegar ao extremo de arrancar as orelhas dos adversários, pois ele achava que pegar qualquer instrumento além dos próprios punhos para dirimir as desavenças era lutar “à falsa fé”, para usar a sua própria expressão. Outra atitude que ele designava por falsa fé era um dos contendores iniciar a luta de repente sem uma troca de palavras preparatórias ou algum ritual prévio que usava desde as lutas de escola, que era, por exemplo, passar a ponta do indicador na ponta do nariz do outro.

O Manel das Curvas recebera o nome de batismo de Manuel Vitorino Nunes, na sua freguesia do Topo, na Ilha de S. Jorge, Açores. O apelido vinha-lhe dos primeiros tempos de Angola, dado por açorianos e kimbundus, que se divertiam ao vê-lo dar as primeiras andanças de bicicleta em curvas sucessivas, para um lado e para outro, para assegurar o equilíbrio em avanço lento. Quando chovia, as poças que predominavam nas principais ruelas do Katofe, tornavam a observação do Manel da Curvas no domínio da bicicleta ainda mais divertida.  Com o tempo ele se tornou um exímio ciclista como todos os açorianos que na sua chegada ao Katofe adotaram a “chica”, como se dizia em Angola, por parceira preferida de viagem.

O Manel das Curvas tinha um nariz adunco, usava o cabelo apartado com um risco à direita e penteava para cima e para a esquerda as melenas com brilhantina ou bem molhadas e untadas levemente com sabão, para não caírem. Quando a franja secava, então, ficava solta ligeiramente para a esquerda e a encobrir parte da testa. Na frente das orelhas, o cabelo bem aparado crescia para baixo em patilhas ou suíças que certamente acertava frequentemente com o aparelho de barbear. O rosto era assimétrico e contribuía para destacar essa característica o afundamento de uma das maçãs do rosto, relativamente à outra, com certeza, como recordação de uma das suas lutas menos gloriosas. A completar a descrição dos traços mais marcantes que me pairam na memória, resta a boca ligeiramente torta, com um canto mais rebaixado, quiçá pelo hábito de manter ali um cigarro quase sempre aceso. Das suas marcas que mais me comoviam era ouvi-lo falar da sua filha mestiça que procurava proteger com muito carinho e que chegou a levar para Portugal, na sua saída de Angola, em 1975.

O Manuel gostava de recordar algumas das suas lutas e render aos adversários as homenagens que ele achava mais merecidas. Uma das descrições mais divertidas de ouvir era a que ele fazia de uma luta que teve com o Mendonça; estavam a construir uma ponte perto da chitaca do tio, António Vitorino Nunes, quando se travaram de razões, mas considerou a luta empatada porque conseguiu derrubar o adversário no chão, mas ao tentar esmurrar-lhe a cabeça, “o Mendonça driblava os murros como se fosse um melro ou um tintilhão”, os pássaros que ele mais recordava dos tempos de infância, que tremulavam a cabeça para um lado e outro, alternadamente. Disse que no mesmo local lutou com o Velho Ernesto Faustino, mas a batalha teve que ser suspensa porque conseguiu colocar o adversário dentro do riacho e este teve um princípio de “congestão”. Aliás, o Manel das Curvas gostava de afirmar à boca cheia, para quem quisesse ouvir, que não tinha medo de nenhum Pascoal (Faustino), apesar dos Pascoais serem afamados em luta desde os tempos de juventude na Ilha de S. Jorge, porque sempre que lutou com um Pascoal este sempre batia primeiro “à falsa fé”. Esta declaração valeu-lhe depois uma dura punição, como se verá mais adiante.

A luta que assisti por inteiro do Manel das Curvas foi com o Rabaça. À época o Rabaça, um rapaz beirão, chegado há pouco tempo de Portugal, trabalhava na loja nos baixos da casa do Velho Kimbaça, o Sr. Emílio Dias. A loja do meu pai ficava bem ao lado. Acontece que o Manel das Curvas estava na nossa loja e viu que o ajudante do Rabaça conseguiu persuadir uma cliente que já estava a trocar o seu milho na nossa loja a se mudar para a loja do lado. Então, o Manel das Curvas não achou essa atitude do rapaz muito elegante e avisou o Rabaça que iria ajustar as contas com o rapaz no fim do serviço, pois já era fim de tarde. Ocorreu que o ajudante do Rabaça conseguiu escapar para a sanzala no fim do serviço ou antes, sem ser visto pelo Manel das Curvas. No fim do expediente, estava montado o cenário completo para o Manel das Curvas ajustar as contas com o próprio Rabaça que foi acusado de encobrir a fuga do seu ajudante.

O Manel esperou que o Rabaça fechasse a loja e chamou-o para conversar na eira, na frente da casa do Sr. Emílio. No meio da discussão, o Manel começou a passar a ponta do indicador na ponta do nariz do Rabaça e este iniciou a luta atirando-se ao desafiante como se fosse um galo de briga. Após a troca de uns murros e rasteiras, com o Rabaça dominado debaixo do Manel, entrou em ação a turma do deixa disso e o Rabaça acabou com uns leves arranhões e um pequeno hematoma no rosto. Então, com os dois em pé, um de frente para o outro, o Manel disparou a sua sentença final:

-        Isto é só para tu saberes que um estransmontano nunca brinca com um açoriano! Ouviste Lambáça?

Quando recordo essa luta do Manel das Curvas, nunca deixo de rir, principalmente, por causa daquela declaração final que ficou gravada definitivamente na minha memória. Uns meses depois na hora da missa, no bar do Branco, onde o Rabaça foi trabalhar, o Manel fez com ele as pazes.

Em certo baile na Casa do Espírito Santo, o Manel das Curvas resolveu aparar umas arestas com um pessoal de fora da terra... A dado momento, eu vi o Velho João Faustino vir em disparada, o Manel das Curvas tentou fugir por uma das saídas do recinto que dava para um corredor, mas encontrou a porta fechada; o Velho João Faustino disparou no Manel uns canhotos certeiros, até que este se desvencilhou debaixo e conseguiu escapar para a rua, algo contundido. No domingo seguinte, vimos o Manel com o braço direito pendurado com uma faixa branca e alguém lhe disse:

-        Ó Manel, hoje, vieste á missa de gravata?!

-        Nunca nenhum Pascoal me bateu que não fosse à falsa fé – respondeu o Manel das Curvas, que continuou fiel à sua tese sobre a bravura dos Pascoais.

Na continuidade da conversa, o Manuel das Curvas resolveu filosofar como um velho que conhecera no Topo, segundo a sua habitual tirada:

-        O que interessa é acordar com os pés quentes...

A verdade é que numa das minhas visitas aos Açores, bem antes de vir para o Brasil, soube que o Manuel das Curvas abatido pela tristeza do exílio africano na sua freguesia natal, logo após a descolonização, resolveu desistir de acordar com os pés quentes e enforcou-se. Triste sina de um amante da luta que desistiu de lutar pela vida...   

A todos os que me lêem,um grande abraço do Kabiá-Kabiaka.

Sexta-feira, Abril 10, 2009

DE SETE ORELHAS A MANUEL DAS CURVAS – Parte 1

Quando li pela primeira vez as aventuras do “Sete Orelhas” pensei em fazer umas correlações com algum personagem do Katofe que me trouxesse à memória cenas interessantes presenciadas durante a juventude na Décima Ilha dos Açores plantada na savana do centro do Kwanza Sul-Angola. Então, me lembrei do Manuel das Curvas. Mais adiante serão discernidas as razões da relação estabelecida.

Sete Orelhas era o apelido de Januário Garcia Leal, dado por razões que já deduzirão a seguir. Todavia, antes de qualquer julgamento pré-concebido por alguém que já tenha lido sobre ele, digo que o que mais me chamou a atenção na sua história foi o seu íntimo desejo de justiça, principalmente, sempre pronto a pagar “um boi para não entrar na briga e uma boiada para não sair” – como diz o mais legítimo gaúcho dos Pampas – em defesa de alguém que considerava injustiçado, aliás, como o nosso Manuel das Curvas das baixas katofianas.

O Sete Orelhas descendia de uma laboriosa família açoriana, com raízes genealógicas mais remotas no casal Diogo Rodrigues e Bárbara Duarte das freguesias de S. Salvador e Nossa Senhora das Angústias, na Ilha do Faial, onde Bárbara faleceu em 08/08/1667. Diogo Rodrigues e Bárbara Duarte tiveram os filhos Francisco Rodrigues e Ana Garcia; por sua vez, Ana Garcia casou com Mateus Luís em 20/06/1664 na Matriz da Vila da Horta, e desse casamento nasceram vários filhos, entre os quais se contaram João Garcia Pinheiro e Diogo Garcia que na década de 1720 demandaram terras brasileiras, mais concretamente de Minas Gerais, e dos quais resultou vasta descendência nestas bandas do hemisfério sul.

O pai de Januário Garcia Leal, o “Sete Orelhas”, chamava-se Pedro Garcia Leal e foi fazendeiro e comerciante na localidade de Talhados, que hoje corresponde ao município de S. João Batista, no Estado de Minas Gerais. Januário seguiu o exemplo do pai e também se estabeleceu como pacato fazendeiro em terras herdadas na mesma localidade mineira. Em 14/11/1801, foi nomeado para o cargo de Capitão de Ordenanças do Distrito de S. José e Nossa Senhora das Dores de Minas Gerais; a Capitania de Ordenança era uma organização da população civil, de caráter militar, para a defesa local em caso de ataque inimigo. Nos anos 1800, Minas Gerais já vivia o final do ciclo do ouro com o concomitante aumento de crise social, criminalidade e outros problemas que o decadente aparato repressivo colonial não tinha eficiência para resolver.

No contexto sócio-econômico da época a ação de Januário Garcia Leal como Capitão de Ordenanças foi muito difícil e teve o teste mais difícil já no ano de 1802, ou seja, no primeiro ano do cargo. Como resultado de uma briga de terras, o seu irmão João Garcia Leal foi barbaramente assassinado na localidade de São Bento Abade por sete irmãos, filhos de um vizinho confrontante. João Garcia Leal foi amarrado nu a uma árvore pelos seus sete algozes que retiraram lentamente a pele da vítima, antes do golpe final de misericórdia. O local desse assassinato é chamado ainda hoje de “Tira Couro”.

Como ocorre ainda hoje em plagas brasileiras, as autoridades policiais e a justiça mostraram-se pouco eficazes na punição dos assassinos de João Garcia Leal. Então, Januário movido pela sede íntima de justiça decidiu associar-se ao seu irmão caçula, Salvador Garcia Leal, e ao seu tio, Mateus Luís Garcia, os três capitães de milícia, que formaram um pequeno grupo armado para vingar o assassinato do seu parente.

Januário Garcia Leal, como comandante do grupo de justiceiros, decidira decepar a orelha direita de cada criminoso caçado, antes da execução à bala. Só depois de decepada a orelha do último criminoso é que Januário Garcia Leal deu-se por satisfeito, tendo dado por vingado o assassinato do seu irmão. Reza a história que Januário juntou as sete orelhas num macabro colar que exibia triunfalmente como um troféu de caça, daí ter recebido o apelido de “Sete Orelhas”.

Nas suas andanças vingadoras, o grupo de Januário Garcia Leal foi considerado pela Corte de D. João VI, o Príncipe Regente de Portugal, como uma ameaça à Sagrada Régia Autoridade, por isso, foi ordenada a sua perseguição implacável por milicianos especialmente designados para tal fim. Contudo, Januário e o seu grupo sempre conseguiram driblar a perseguição dos milicianos e o seu paradeiro, a partir da consumação da vingança, passou a ser desconhecido pelas autoridades do Governo da Capitania de Minas Gerais.

Só muito recentemente, em 2006, pesquisas históricas realizadas no Museu Histórico do tribunal de Justiça de Santa Catarina permitiram o esclarecimento quanto ao destino e os últimos tempos da vida do temido “Sete Orelhas”. Conforme essa investigação, aos 18/05/1808, ocorreu na Vila de Lages, no Planalto Sul Catarinense, o trágico falecimento de um mercador daquelas paragens. Realmente, o temido Januário Garcia Leal, como o mais pacato dos açorianos, morreu no exercício da profissão de comerciante em terras catarinenses, onde se refugiou certamente por ter aqui alguns familiares.

O afamado Sete Orelhas morreu devido a um traumatismo – ironia do destino – na região da orelha direita e com fratura exposta do queixo. Segundo a tradição oral, o “Sete Orelhas” teria morrido devido à queda de uma porteira (viga de um portão de fazenda). O Juiz Ordinário da Villa de Nossa Senhora dos Prazeres de Lages mandou lavrar os Autos do Inventário com a seguinte ordem ao Escrivão e Alcaide do juízo local: “dirija-se ao lugar chamado Lavatudo onde consta morrera violentamente o Capitam Januário Garcia Leal que vinha vindo da Villa de Laguna com hua carregação para deixar nesta Villa e ali fara auto de corpo de delito pa servir no conhecimento a cauza da sua morte exzamiando as feridas e machucaduras que tiver e logo passara a fazer um Eventário de todos os seos bens mandando para esso ovir as pessoas que o acompanhavão para se por tudo em seguro deposito the que seos herdeiros venhao procurar seos bens, visto ser homem de diferente districto e Capitania (...)”.

Januário Garcia Leal não viajava só no dia da sua morte. Era acompanhado pelos seus capatazes Francisco Eloi de Souza e António Rodrigues, e ainda “seu fiel preto escravo da Nação Congo”, António. Conforme consta dos autos do processo, o escravo António já trazia consigo uma carta de alforria que lhe fora passada de próprio punho pelo falecido Capitão Januário Garcia Leal. Assim, à época, na Villa de Lages também foi mandada passar ao servente a Escritura de Alforria e Liberdade, uma vez que “o dito Capitam de sua livre vontade deixa forro ao negro Antonio (...) por lhe ter servido e aturado a suas empertinencias sempre com paciência e em tendo servido como bom Escravo”. Podemos dizer agora que o “Sete Orelhas” teve uma premonição do que lhe ocorreria e resolveu fazer justiça ao seu mais fiel servidor.

A todos os que me lêem,um grande abraço do Kabiá-Kabiaka.

Domingo, Março 22, 2009

BURACO




Entre o buraco na Terra e o buraco no firmamento, a LUZ se mostra soberana. Por isso, o renascer da esperança...

Sábado, Dezembro 06, 2008

VAZAMENTO DE GÁS VERSUS DESLIZAMENTO

Conforme relatado por alguns órgãos de informação, moradores da região do Morro do Baú refugiados em quatro abrigos de Ilhota consideram uma explosão havida no gasoduto como a principal causa dos deslizamentos de terra que mataram dezenas dos seus vizinhos, ou seja, para eles, não só a chuva foi responsável pelas mortes. Quase todos os relatos dos sobreviventes informam que um "tremor de terra" e uma "tempestade de pedra e lama" teriam começado instantes após uma explosão. Uma moradora chegou a dizer que a noite de domingo, dia 23 de novembro, era relativamente tranqüila apesar da chuva, até que ouviu um estrondo e aí veio o clarão que fez tudo virar dia e, em seguida, sentiu o terremoto e o morro todo veio abaixo. A ocorrência de explosão já foi negada por alguém interessado em defender a empresa distribuidora de gás, afirmando que só houve um afundamento do solo por causa dos movimentos no solo, o que levou ao “vazamento de gás” e a um “incêndio”. Claro, o vazamento e o incêndio foram demasiado óbvios e tangíveis, por isso, não podem ser negados.

Para o assunto não redundar em subjetividades e em debate semântico, convém refletir sobre ele com algum embasamento técnico e científico, antes dele ser esclarecido pela ferramenta de trabalho mais usada na Geologia de Engenharia, muito usada nestes casos, denominada de “MÉTODO DAS HIPÓTESES PROGRESSIVAS”, pelo qual “o caminho para se chegar a diagnósticos seguros passa por um contínuo processo de adoção de hipóteses fenomenológicas e de aferição destas, através do empenho observacional e experimental”. Enquanto o completo esclarecimento não chega, procure-se contextualizar o problema por meio de um conjunto de perguntas e respostas.

Os vazamentos em gasodutos de gás natural podem causar explosões, além de incêndios?

A Reuters fez circular pelo mundo a notícia de “uma grande explosão” (sic) que atingiu um gasoduto perto de uma zona industrial no sul da Bélgica, em 30/07/04, que produziu 14 mortos e 200 feridos, além da destruição de duas fábricas próximas. A explosão atingiu uma seção da linha subterrânea que leva gás do porto belga de Zeebrugge para o norte da França enquanto operários trabalhavam para consertar um vazamento, disse o porta-voz de uma agência de proteção civil. Christian Otto, porta-voz da empresa Fluxys, que administra a rede de gasodutos da Bélgica, confirmou a causa da explosão do seguinte modo: "houve um vazamento de gás, que provocou a explosão". A FOLHAONLINE de 07/02/2008 divulgou a notícia de que um gasoduto da empresa privada Transredes, administrada pelas companhias Ashmore e Shell, explodiu na Bolívia, conforme o secretário de hidrocarbonetos da cidade de Cochabamba, Javier Gutiérrez, que disse: "houve um acidente na zona de Bulo Bulo, onde explodiu um duto, cuja manutenção era feita por uma empresa privada; infelizmente, houve um morto e quatro feridos, três em estado grave". Também, segundo os pesquisadores JO & AHN, na sua publicação sobre a hierarquização de riscos em gasodutos de gás natural, sob o título “A method of quantitative risk assessment for transmission pipeline carrying natural gas” (Journal of Hazardous Materials, A123, 1-12, 2005), o primeiro critério é quantificar os riscos de ferimentos ou fatalidades que podem ocorrer, em maior ou menor grau, à população residente, transeunte, aos trabalhadores que realizam a operação ou manutenção do gasoduto, e às demais pessoas que estejam na área circunvizinha ao trecho em que ocorra um incêndio ou explosão decorrente de um vazamento de gás natural. Conclusão 1: vazamentos em gasodutos de gás natural tendem a provocar explosões, além de incêndios.

Explosões podem causar deslizamentos de terras?

Os manuais de Geotecnia permitem identificar o deslizamento ocorrido no Morro do Baú como “corridas de sedimentos”, que podem ser classificadas de acordo com o conteúdo da água em “corridas fluidas” (slurry flows), com 20% a 40% do volume de água, ou “corridas de material granular” (granular flows), com menos de 20% de água. Assim, respectivamente, o fluxo de solo se comporta mais como um fluido ou como uma massa mais densa, com velocidades que podem variar de 100m/h a mais de 400km/h. De qualquer modo, os estudos mostram que alguns desses movimentos de massa podem ser iniciados por vibrações ou sobre carregamento.  Esse fenômeno pode ser observado nos deslizamentos que ocorrem no desmonte das pedreiras como conseqüência não só da natureza geotécnica dos maciços rochosos, mas também das condições operacionais de exploração, designadamente a pressão da água subterrânea e os efeitos das vibrações provenientes das freqüentes detonações, conforme comprovou o grande deslizamento de taludes ocorrido na pedreira de calcário de Calhariz/Portugal, que envolveu mais de 100.000 m3 de rocha. Os pesquisadores Hoek e Bray, na sua obra de referência internacional “rock slope engineering”, indicam que maciços rochosos brandos ou rochas duras compartimentadas por detonações ou excesso de carregamento podem experimentar uma baixa significativa na sua resistência ao cisalhamento, em termos de coesão, em mais de 4 vezes, o que pode induzir a deslizamentos de massas de pedras e solos. Conclusão 2: deslizamentos de grandes massas de material geológico podem ser provocados por explosões.

Como as explosões podem causar deslizamentos?

As explosões causam no subsolo uma vibração sísmica chama pelos geotécnicos de “sismo induzido”. Para compreender porque a terra desliza sob o efeito da vibração sísmica provocada por uma explosão basta fazer um experimento muito simples: usar um plano inclinado e sobre esse plano colocar pequenos montes feitos com solo e água. A principal força em jogo atuando sobre as massas de solo+água é a componente do peso que é paralela ao plano. Quanto mais inclinado for o plano, como se fosse uma encosta de um morro ou montanha, maior é a força que solicita os pequenos montes de solo+água (ou terreno saturado) para o deslizamento. Na proximidade da inclinação limite, basta uma pequena pancada ou vibração para dar início ao deslizamento. É este o efeito da vibração sísmica que pode desencadear deslizamentos de terra. Conclusão 3: as explosões podem causar deslizamentos em encostas pela indução e propagação de ondas sísmicas no subsolo.

O acidente no gasoduto pode ter provocado ou potencializado os deslizamentos do Morro do Baú?

SIM, caso fique comprovada a seguinte hipótese: a subsidência ou recalque do solo de fundação levou a rupturas na tubulação do gasoduto, as rupturas provocaram vazamento, seguido de incêndio e explosão, com a propagação de significativa “vibração sísmica” no subsolo, indutora de deslizamentos de grandes massas de material geológico já fragilizado na sua resistência intrínseca pela precipitação pluviométrica acumulada. Conclusão 4: a menos que seja comprovado o contrário com o maior rigor científico, pode ser encarada como muito verossímil a hipótese dos grandes deslizamentos do Morro do Baú terem sido induzidos e potencializados por explosão resultante do vazamento no gasoduto, ainda mais, que esse acidente geológico foi de muito maior dimensão do que outros deslizamentos ocorridos na mesma época na Região do Médio Vale do Itajaí.

   A população ordeira e trabalhadora da nossa região merece um completo esclarecimento desta problemática, bem fundamentado técnica e cientificamente. Prevê-se que dará “panos para mangas”, em várias áreas profissionais.

Um grande abraço do Kabiá-Kabiaka.

Quinta-feira, Dezembro 04, 2008

UM OLHAR CIENTÍFICO SOBRE O TODO DA CALAMIDADE

Desde os dias 22 e 23/11/08, quando se abateu a grande calamidade sobre Blumenau e adjacências, assistimos a intervenções na mídia que enfermam de uma ou duas debilidades fundamentais, ou seja, as análises ou são muito genéricas e superficiais, apresentando falta de embasamento científico, ou são míopes, por abordarem uma única causa de uma fenomenologia bastante complexa, que não pode ser traduzida como uma função simples de uma variável, pois é uma função complexa de várias variáveis complexas.

Alguns acusam a ação irresponsável dos governos municipais que nunca se preocuparam em fiscalizar com rigor a ocupação urbana dos morros e as obras de terraplenagem, como se a fiscalização punitiva evitasse por si só o problema ocorrido. Outros atribuem culpas aos órgãos responsáveis pelo sistema de alerta das populações, que falharam em prever a situação potencial de calamidade, perante os registros de chuvas e dos níveis do Rio Itajaí Açú. A verdade é que agora pouco adianta olhar para trás, a não ser para tirar lições sobre as medidas preventivas e corretivas que urgem ser tomadas. E estas só virão com um olhar crítico sobre o todo, com base em dados técnicos e científicos que se estendem por várias vertentes ou dimensões.

   O dono de uma oficina afirmou que o seu terreno e edifício foram projetados para serem atingidos pela enchente com uma cota de 14m acima do nível normal do rio, porém a cota registrada de 11,5m já levou ao alagamento das instalações e deslizamentos no terreno da sua propriedade. Isto prova que o aporte de sedimentos e lixo para a rede de drenagem natural e construída na cidade de Blumenau já ultrapassou valores admissíveis. Também, a previsão de enxurrada e enchente baseada em dados exclusivamente de telemetria do nível do rio ou de pluviometria instantânea é insuficiente.

Assim, urge realizar estudos e tomar ações em várias frentes que visem, essencialmente: 1) reduzir os riscos existentes; 2) eliminar a criação de novas situações de risco; 3) aperfeiçoar a previsão de situações climáticas críticas; 4) reduzir o aporte de sedimentos e lixo para a rede de drenagem natural e construída; 5) aperfeiçoar o sistema de fiscalização preventiva da construção. Nos parágrafos abaixo são abordados cada uma das vertentes do problema.

Reduzir os riscos existentes. Pela experiência de outras cidades que ultrapassaram com êxito situações problemáticas similares, está mais que comprovado que em Blumenau o convívio com a ocupação de encostas em situações de riscos de escorregamentos perdurará ao clímax da tragédia. Logo, é necessário diagnosticar criteriosamente as situações de riscos que permanecerão e minimizar esses riscos através da implantação de obras de estabilização e contenção de encostas.

Eliminar a criação de novas situações de risco. Isto se faz com o estabelecimento de critérios técnicos para a expansão e adensamento da ocupação urbana do ambiente construído, por meio da pesquisa científica que levará ao mapeamento geotécnico completo do município de Blumenau. É insuficiente fazer um mapeamento geotécnico parcial, pela identificação de áreas de risco com base somente na análise observacional, baseada em critérios topográficos, geomorfológicos ou feições da cobertura vegetal. O mapeamento geotécnico dos morros de S. Vicente e Santos é paradigmático, pois eliminou os escorregamentos catastróficos ou com vítimas fatais em mais de vinte anos, desde a sua elaboração. É necessário proceder metodologicamente pela investigação profunda de todos os fatores potencialmente relacionados aos escorregamentos nas encostas de Blumenau, levando à produção de uma série de mapas básicos atualizados, que incluam: topografia, clinometria, geologia, geomorfologia, geologia estrutural, resistência ao cisalhamento dos solos, cadastramento e classificação quantitativa e qualitativa dos escorregamentos ocorridos, vegetação e uso do solo. O cruzamento das cartas básicas deve levar a uma Carta Geotécnica do Município de Blumenau que apresente o zoneamento das encostas em Unidades Geotécnicas uniformes, em termos de potencialidade ao escorregamento. O mapeamento geotécnico completo será indubitavelmente o principal subsídio norteador de uma redefinição consistente do Plano Diretor da Cidade.

 Aperfeiçoar a previsão de situações climáticas críticas. A partir de pesquisas relacionadas no trecho paulista de Serra do Mar, sobre a correlação quantitativa entre chuvas e escorregamentos, sabe-se que os escorregamentos são deflagrados não só quando a pluviosidade atinge certa intensidade em mm/h, mas principalmente quando é atingido determinado limite do Coeficiente de Precipitação Crítica (CPC) que é função simultaneamente da Intensidade Pluviométrica Horária (mm/h) e da Precipitação Volumétrica Acumulada em 72 ou 84 horas, além de um Fator dependente da suscetibilidade dos solos ao escorregamento na região de estudo. Em suma, verificou-se que quanto maior era a pluviosidade registrada em um período de 3 a 4 dias, menor era a intensidade de chuva horária subseqüente necessária para induzir os escorregamentos. Por exemplo, pelos 500mm de chuva registrados em Blumenau em 3 dias, de acordo com o modelo matemático deduzido para as encostas da Serra do Mar, após esse período de precipitação acumulada, seria suficiente uma precipitação horária de 6 a 7mm/h para a ocorrência de escorregamentos generalizados. Portanto, não há como restringir a análise da tragédia à costumeira caça dos culpados, sejam eles os habitantes das encostas ou os gestores públicos, quando urge é aperfeiçoar o sistema de alerta do Plano Preventivo de Defesa Civil com base em pesquisas científicas mais elaboradas.

Reduzir o aporte de sedimentos e lixo para a rede de drenagem natural e construída. É necessário, neste campo, à semelhança do que foi feito em outras cidades, produzir um Pano de Redução do Aporte de Sedimentos e Lixo para a rede de drenagem natural e construída, através de pesquisa científica e tecnológica sobre os processos de erosão e assoreamento na Região de Blumenau. Estes estudos devem contemplar: a compartimentação fisiográfica em unidades territoriais homogêneas frente aos processos erosivos; a compartimentação e hierarquização de sub-bacias hidrográficas, quanto à capacidade de fornecimento de sedimentos; a análise das formas e tendências de crescimento do ambiente urbano construído, segundo a potencialidade de expor os terrenos à erosão; a análise da dinâmica dos processos erosivos e assoreadores, com a quantificação da erodibilidade dos diversos tipos de solos; e, a classificação do material de assoreamento produzido na Bacia do rio Itajaí Açú. Em conclusão, os estudos devem levar à adoção de uma série de medidas preventivas e corretivas redutoras do assoreamento das redes de drenagem.

Aperfeiçoar o sistema de fiscalização preventiva da construção. É incompreensível que os órgãos públicos ainda administrem de costas uns para os outros uma cidade como Blumenau. Assim, como se explica que alguém consiga a ligação da água pelo SAMAE para construir sem alvará de construção emitido pela Prefeitura Municipal? Como alguém consegue a ligação definitiva da energia elétrica para habitar uma casa cuja instalação elétrica não obedeceu a qualquer projeto elétrico orientado por um engenheiro eletricista ou aprovado pela CELESC, que também faz a ligação provisória para construir sem a apresentação do alvará de construção? Como pode ser feita uma obra de terraplenagem que pode levar a processos de erosão, assoreamento e escorregamentos de encostas, sem se submeter a uma regulamentação mais rigorosa de aprovação pelo órgão público fiscalizador? Lamentavelmente, neste campo de implantação de um sistema de fiscalização preventiva da construção, a vontade dos engenheiros conta pouco.

Como conclusão final, apenas, se pode dizer que importa mais olhar para frente, tirando as devidas lições do passado, para que o desenvolvimento de Blumenau seja feito sobre fundamentos sólidos e com sustentabilidade, isto é, de modo a viabilizar a recuperação e melhoria da qualidade de vida da sua população muito ordeira e trabalhadora.

Um grande abraço do Kabiá-Kabiaka.

Quarta-feira, Novembro 26, 2008

A ÁGUA QUE VEIO DE CIMA...

Dizem os blumenauenses que viveram as grandes enchentes de 1983 e 1984, quando o Rio Itajaí Açú se elevou 17m acima do seu nível normal, que “tirariam de letra” esta enchente de 11,54m, ocorrida na madrugada de 24/11/2008. Após, aquelas enchentes foram instalados dispositivos de telemetria em vários trechos do rio, em Blumenau e a montante, que permitem antever com uma antecedência mínima de seis horas os níveis de cheia e gerenciar gradativamente a remoção temporária de veículos, móveis e outros pertences para lugares de topografia mais elevada...

O problema é que desta vez o maior volume de água veio sob a forma de uma cachoeira que se abateu de forma imprevista e muito concentrada sobre o Médio Vale do Itajaí, e despejou a pluviometria de 426mm em dois dias – 23 e 24/11 – o que corresponde a 3 vezes o máximo já documentado no mês de novembro. Realmente, chover em apenas dois dias o triplo do que normalmente chove num mês soa como um terrível castigo dos deuses...

A terra mais superficial virou uma corrida de lama, grandes volumes de solo das encostas dos morros deslizaram e arrastaram vegetação e construções que pareciam fundadas solidamente... Resultado: um autêntico caos com ruas interrompidas, bairros e comunidades isoladas e muitas vidas soterradas... Até ao momento, foram contabilizados 21 mortos em Blumenau e cerca de 10% da população urbana desalojada... A primeira ordem é para resgatar por helicóptero os famintos, feridos e doentes que lutam isoladamente pela sobrevivência... Com o restabelecimento das comunicações terrestres vem a remoção e reconhecimento dos soterrados, cujo número não está totalmente mensurado... Ainda, há desaparecidos...

Como maior vitória tem se apresentado a solidariedade espontânea da população de Blumenau, que supera largamente a insuficiência e desorganização do poder público municipal, estadual e federal para enfrentar o desafio de fazer voltar a normalidade, o que certamente só acontecerá pelo Natal, embora o sabor da respectiva ceia não seja lamentavelmente igual para todos os que habitam esta bela cidade-jardim!

Os vídeos dão uma idéia do que as minhas palavras não conseguem descrever...

Um grande abraço do Kabiá-Kabiaka

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Domingo, Novembro 23, 2008

CALAMIDADE PÚBLICA EM BLUMENAU

















Ontem, sábado, pelas 21h00, regressava a casa depois de ter freqüentado um curso e apercebi-me da gravidade da situação. Quando me dirigia ao hotel onde seria ministrado o curso, pelas 13h30, ao passar a pé sobre uma ponte do Ribeirão Garcia, afluente do Rio Itajaí Açú, sob chuva intensa, quando observei o nível e a força das águas, tive o pressentimento da calamidade que atingiria a nossa cidade-jardim do Médio Vale do Itajaí. Quando saí hoje, pela manhã, para voltar ao curso verifiquei que seria impossível chegar de carro ao centro da cidade e tive que percorrer algumas ruas em contra-mão para me recolher a casa sob chuvas intensas...

Na rodovia BR-470, que passa ao norte de Blumenau, houve o rompimento de uma tubulação de gás natural, que provocou uma explosão e uma cratera de pelo menos 20 metros de profundidade por 100 metros de comprimento.

O número de pessoas afetadas pelas chuvas é de mais de 1 milhão em todo o Estado de Santa Catarina, sendo a situação mais grave em Blumenau; foram registradas 12 mortes até às 12h30min deste domingo em Santa Catarina, oito delas em Blumenau, principalmente, por causa de deslizamentos de terras. O número de desabrigados em Blumenau supera cinco mil.

Por causa da chuva forte dos últimos dias, o nível do rio Itajaí-Açu se elevou a 9,48 metros acima do nível normal, por volta das 7h de hoje. Considera-se enchente na cidade quando o rio sobe oito metros acima do seu nível normal. Foi atingido o nível de 10,52m às 14h00 e de 10,80m às 15h30. Prevê-se 11,00m às 20h00. Portanto, certamente, hoje se atingiu a pior situação de enchente, aguardando-se melhores condições amanhã. Durante a tarde de sábado e início da noite, houve deslizamentos, interdição de ruas por causa da água e quedas de árvores em várias cidades da região.

A população blumenauense vive um momento de tensão porque metade dos domicílios está sem luz e todas as rádios, exceto a Atlântida e a Furb FM, saíram do ar. Os grandes supermercados fecharam e os pequenos estabelecimentos não têm mais leite, pão e outros artigos de primeira necessidade.   A prefeitura disponibilizou 27 abrigos para receber quem teve de abandonar ou perdeu a casa de moradia.

Nas cabeceiras do rio as chuvas praticamente cessaram, o que prenuncia o abaixamento da onda de enchente; mas, na Região de Blumenau, elas persistem para desespero de quem mora em encostas sob risco de escorregamento de terras, a maior causa de perdas materiais e humanas verificadas até ao momento.

Finalmente, para tranqüilidade dos amigos que me lêem, tenho que concordar com o meu pai que diz que eu fui lavado na água da Graça, por isso, estou confortavelmente em casa, com água, luz, alimentação, embora um pouco enfadado porque amanhã não poderei ir trabalhar, pois as aulas na universidade (FURB) serão canceladas...

Um grande abraço do Kabiá-Kabiaka. 

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Sábado, Novembro 15, 2008

A NOVA DIÁSPORA

Em 20 de setembro de 2008, Thabo Mbeki renunciou à Presidência da África do Sul, que exerceu desde 14 de junho de 1999, em sucessão a Nelson Mandela. Mbeki desistiu porque lhe faltou o apoio da maioria do Parlamento, onde o seu partido ANC – Congresso Nacional Africano – pontifica desde a queda do apartheid, em maio de 1994. Apesar das conquistas econômicas que a África do Sul conheceu durante o governo de Mbeki, este não foi reconhecido como um bom governante pela maioria dos seus próprios correligionários do ANC... Quais foram as razões da queda de Mbeki? Fui investigar na mídia e encontrei fatos que podem ajudar a uma explicação...

Em 2000, no início do governo Mbeki, após seis anos de transição com Nelson Mandela, não só a esmagadora maioria dos negros continuava em estado de manifesta pobreza como parte da população branca começava já a ser arrastada para esse fosso. Nesse período, a taxa de desemprego entre os brancos pulou de 3% para 7%, e começaram a aparecer mendigos loiros de olhos azuis nas ruas das grandes cidades e acampamentos para brancos sem teto nos arredores da capital econômica e industrial da África do Sul - Johanesburgo. O sentimento de escassez das chances de prosperidade e um brutal aumento da criminalidade fizeram com que 233.000 sul-africanos brancos abandonassem a África do Sul, entre 1989 e 1997.    O fluxo migratório privou a África do Sul de mão-de-obra qualificada, principalmente no setor de saúde e educação. Portanto, a herança recebida por Thabo Mbeki, no que concerne à situação socioeconômica, principalmente, dos que foram mais discriminados pela política segregacionista do apartheid não foi nada invejável, o que exalta as conquistas econômicas conseguidas pelo governo Mbeki de 1999 a 2008.   

O governo Mbeki teve dois calcanhares de Aquiles: a insatisfação dos negros mais pobres, induzida pela continuidade da sua penúria, e o sentimento de insegurança dos brancos de melhores posses.  Efetivamente, a população negra mais carente que constitui a maioria viu que as suas expectativas de melhoria econômica só seriam satisfeitas muito lentamente, contrariamente às esperanças trazidas com o fim do apartheid, quando da ascensão de Nelson Mandela ao cargo de presidente em 1994. Também, os brancos remanescentes se isolaram em condomínios fechados ao estilo do Rio de Janeiro, com muros e cercas elétricas, para não ser um acréscimo à taxa de assassinatos que atingiu a assustadora cifra de 38 pessoas por 100.000 habitantes, igual a cinco vezes a dos países europeus mais desenvolvidos e superando a do Brasil, onde um índice de 28 por 100.000 já é considerado insustentável. De cada 100.000 sul-africanas, 75 são estupradas por ano, o dobro da França. Legiões de vendedores ambulantes, imigrantes ilegais e desocupados conquistam desordenada e paulatinamente as ruas da região central de Johanesburgo, que hoje não é mais uma capital econômica modelo. Em conclusão, atualmente, ser branco na África do Sul não garante como outrora um bom emprego, casa própria, bom carro e vida tranqüila, como em alguns países europeus ou nos dias da discriminação racial do desenvolvimento separado, quer dizer, apartheid. Hoje, ainda menos, é uma garantia de segurança física.

A sucessão de Thabo Mbeki não augura melhores dias para os sul-africanos. O mais provável sucessor de Mbeki, nas eleições gerais de 2009, será Jacob Zuma, considerado um retorno às trevas do populismo africano mais rasteiro, pois a sua instrução formal não incluiu sequer a conclusão da escola primária, é abertamente polígamo – tem vinte filhos de nove mulheres – e responde a dezesseis processos por corrupção. Num julgamento pelo estupro de uma amiga da família, Jacob Zuma alegou em sua defesa que a tradição de sua etnia zulu não permitia que negasse fogo a uma mini-saia provocante. O tribunal foi cercado por uma turba de correligionários e há quem afirme que o juiz só absolveu o réu devido às pressões sofridas. O arcebispo sul-africano Desmond Tutu, Nobel da Paz de 1984, disse que o seu “país ficará envergonhado de ter Zuma como presidente”. Tutu sempre me pareceu um homem de bom senso, por isso, eu pressinto que o tempo lhe dará inteira razão, pois não se vislumbra no horizonte qualquer alternativa mais otimista, visto Zuma dominar a máquina do ANC que é mandatário de 70% do eleitorado sul-africano.

Em 16/09/2008, quatro dias antes da queda de Mbeki, numa reunião com representantes das comunidades de imigrantes de italianos, gregos e portugueses, em Johanesburgo, Zuma seguiu à risca a receita do bolo chamado Poder Popular, tão do agrado de outros populistas africanos que já comprovaram a sua ineficácia em outras paragens, mais a norte: a) atribuir aos colonos brancos todas as culpas pela criminalidade agora existente, dizendo que o país vive sob uma pesada herança do regime do apartheid, que dedicou vastos recursos a reprimir aqueles que lutavam pelos seus direitos políticos e aspirações em vez de os utilizar no combate ao crime”; b) limitou-se a rejeitar liminarmente a percepção generalizada que o cidadão sul-africano trabalhador e honesto tem hoje  de que os criminosos gozam de mais direitos do que as vítimas do crime, sem se preocupar com a análise das razões dessa percepção; c) declarou bombasticamente que o seu ANC tem “estratégias definidas para esse combate”, que passam pela adoção de novas ferramentas contra o crime, como os “comitês de rua” e os “fóruns de cidadãos”; d) apelou a todos os presentes a ficarem no país para ajudar “a construir uma África do Sul melhor para todos”, sublinhando que o seu partido se mantém fiel aos princípios estabelecidos na Carta da Liberdade (Freedom Charter), aprovada em 1955, que estabelece o programa político do movimento de libertação, segundo os quais "a África do Sul pertence a todos os que nela vivem, sejam eles brancos ou negros". Bonito, não é? Como é idealista e bem intencionado esse Zuma!... Os analistas políticos dizem que ele é conhecido pelas suas qualidades de tribuno sedutor de massas e se situa bem nos antípodas da personalidade discreta de Thabo Mbeki.  Eu já vivi todo esse filme antes em outro lugar e o resultado não foi o que me contaram antes dele começar!...  

Enquanto isso, a revista Veja de 28/10/2008 destaca que o êxodo da elite branca que já foi 9% da população da África do Sul é incessante, tendo já atingido a marca de 800.000 desde 1995. O mesmo periódico destaca ainda que 41% dos brancos pensam em emigrar, alegando como principal motivo a falta de segurança. Agora, só posso perguntar: onde é que eu já vi esse filme?...

A finalizar, tenho que recordar uma conversa que tive com o meu amigo Pina da Economia (onde estará ele, agora?), na residência universitária onde morei em Luanda, em 1975. Dizia ele: “se eu tiver que sair de Angola, então, passo a acreditar na profecia do Lobsang Rampa”. Quando lhe perguntei que profecia era essa, ele que era um leitor contumaz dos livros de Lobsang Rampa me explicou que esse escritor previu já na década de 1960 que os brancos seriam completamente varridos do continente africano, que a África mergulharia no caos político e social e que os brancos seriam gradativamente convidados a regressar para cooperar harmoniosamente com os negros e fazer desse belo continente um dos melhores para se viver na face da Terra. Pelos vistos, vamos ter que esperar um pouquinho mais, ou melhor, algumas gerações, para que a profecia de Lobsang Rampa se cumpra completamente... Uma vez que a parte otimista da profecia, certamente, só se cumprirá no tempo dos nossos netos, deixemos os vários Zumas fazer o seu serviço demagógico de “vendedores de banha da cobra” para todo aquele que “gosta de capinar sentado” e “pensa que dinheiro dá em árvore”!

Um grande abraço do Kabiá-Kabiaka.  

Segunda-feira, Novembro 03, 2008

O ÓPIO DO POVO E O DOS INTELECTUAIS

Um dia Karl Marx (1818-1883) proclamou que “a religião é o ópio do povo”. Em nome dessa máxima divisa, os marxistas-leninistas cometeram imensos desvarios e atrocidades, que podem ser contabilizados em milhões de vidas e valores perdidos ingloriamente. Os angolanos que o digam, agora, que o tão decantado Poder Popular já pertence às calendas gregas, embora certo partido mostre imensa nostalgia do tempo em que dizia que ele era o povo e o povo era ele!... Slogans não enchem a barriga de ninguém, quiçá, ainda, sirvam para ganhar eleições mediante propagandas de marketing bem delineadas que soam muito bem aos ouvidos de quem ainda lê muito pouco e, por isso, não tem possibilidades de analisar criticamente todo o que ouve...

Mais perto do nosso tempo, o filósofo francês Raymond Aron (1905-1983) disse que “o marxismo é o ópio dos intelectuais”. Realmente, os intelectuais marxistas assumem uma Aura de onipotência e infalibilidade, porque ficam cônscios de deter o saber maior que orienta “o fim da história”, da suprema evolução da Humanidade que decretou a “morte de Deus”, ou melhor, de todos os deuses, exceto eles próprios – os marxistas. Eles são a personificação do Super-Homem pregado por Nietzsche, com a inigualável função de orientar a sociedade do seu elevado trono de intelectualidade com sentido redentor. Claro que uma ideologia assim exerce um fascínio irresistível sobre os intelectuais, pois hes permite assumir uma perspectiva de poder, influência e prestígio que não seria conferido pelo mero compromisso com a defesa das liberdades democráticas.

Esse fascínio por assumir o papel de Vanguarda é algo que se vislumbra facilmente no brilho dos olhares dos intelectuais marxistas, quando dissertam orgasticamente sobre as suas idéias que já se mostraram totalmente falidas na prática, pois levaram às ditaduras mais brutais que se conheceram no século XX, nos tempos gloriosos dos governos leninistas, stalinistas e maoístas, inclusive, em África.

No caso particular de Angola, a esquerda intelectual ainda defende um aparelho partidário que controle os meios estatais para mais facilmente alcançar benesses materiais individuais e de grupo e os seus fins ideológicos falidos, confundido estado com governo e partido, em desfavor de um povo cada vez mais marginalizado, socialmente, bem ao contrário da verborragia socializante que a elite dominante apregoa. Como dizia um ex-trotskista: “intelectuais que elogiam governos têm algum problema; provavelmente, querem um emprego”. Essa assertiva pode ser facilmente comprovada na nossa terra...

Um grande abraço do

Kabiá-Kabiaka.  

 

Terça-feira, Setembro 02, 2008

ADEUS

O adeus da tia Maria de Lourdes e do tio José Câmara, em agosto de 1975.




ADEUS




Adeus minha casinha
Onde tantas alegrias vivi...
Não te verei mais, mas sempre serás minha,
Porque os que vierem não te sentirão como eu senti...
.
Foste a minha melhor sombra ao tórrido calor,
O meu melhor aconchego em noites de paz,
E, agora, na guerra que me traz a dor,
Resta-me um breve aceno que em lágrimas se desfaz...
.
Nunca mais te verei... Isso é o que mais me dói!
Pressentindo o temor do que pela frente vem,
De uma guerra insana sem sequer um herói,
Resta-me a esperança de seres cuidada por alguém...
.
Na doce penumbra do meu sonho ido,
Nos meus Açores, entre alterosas águas,
Ao recordar o teu jardim florido,
Sonhar-te-ei sempre linda, sem mágoas!

Lúcio Huambo
Blumenau, 02/09/08

Segunda-feira, Setembro 01, 2008

BATUQUE

À sanzala do morro além Rio Katofe.

BATUQUE




O silêncio profundo,
Da noite,
Quebrado
Pelo tan-tan ritmado
Da batucada...

É óbito?...
É festa?...

É um canto sentido,
Da Alma expelido,
Compassado,
Que sai da sanzala,
Na montanha,
E desperta o mundo...


Lúcio Huambo
Joinville, 31/08/08.

KATOFE

Ao meu Katofe.
KATOFE



Daqui de longe
Vejo-te como te deixei,
Como sempre te vi,
Como sempre te amei...

As baixas imensas,
Imensas de vacas,
Na imensidão...
Da minha mente.

O açoriano a desbravar
O mato vasto
Para eu pastar,
Na sua vastidão,
Recordações
Que me fazem gente!
Lúcio Huambo
Blumenau, 31/08/2008

Terça-feira, Julho 29, 2008

PASSADO PRESENTE

Pôr-do-sol no Katofe, em julho de 2008. Fotografia gentilmente cedida por Jorge Oliveira

À terra que me viu nascer,... Angola.



Porto, 13/11/1982

Na janela, as gotas do vapor condensado...
Na retina, as imagens por ele coadas do exterior...
Sinto-me mais só, mais recolhido, mais confortado...
Lembro-me das coisas tristes e belas dum passado teimosamente presente;
Sinto no corpo as riquezas e pobrezas da minha terra distante...
A pele empolada pelo sol escaldante;
Nas veias, o sangue dos heróis duma guerra insensata;
No coração, a angústia e o ódio dos eternos escravizados;
Na mente, a desilusão dos efêmeros desterrados.
Ainda me lembro da meninice livre e despreocupada;
Nas costas do Malua, explorando a savana;
Tagarelando o “kimbundu”;
Mastigando o “salalé”;
Saboreando o “tortulho” e o “funge”;
Caçando os pássaros com fisga e visgo;
Esfolando os sapos com precisão milimétrica;
Calcorreando as “picadas” estreitas e sem fim;
Os pés saltando nas poças enlameadas;
As sandálias filtrando o pó dos “carreiros gentios”.
Vejo cair a chuva copiosa e morna,
Numa harmonia compassada pelas trovoadas ensurdecedoras,
O vapor subindo da língua alcatroada,
O asfalto derretido pelos raios abrasadores,
O pôr do sol cor de fogo,
O “cacimbo” do frio penetrante,
As colunas fumegantes das “queimadas,”
O “capim” verde das primeiras chuvadas,
As altaneiras pedras negras da “fazenda”,
As “baixas” infinitas duma terra acabada.Tudo acabou! Tudo passou! Mas tudo está presente!

Segunda-feira, Julho 28, 2008

KOTA KIMBAÇA

Frequentemente, a anunciar o romper da aurora na savana do Katofe, fui acordado por pelo chamamento peculiar:

- Oh Juuuustiiiiiiiiiiiiiino! Oh Juustiiiiiino! Oh Juuuusttiiiiiiiiiiiino!

Algumas vezes, os gritos eram entremeados com expressões de apelo ao aprimoramento da alma que passava essencialmente pelo suor da labuta rotineira com as vacas leiteiras, embora sem descurar alguma referência material: “o dinheiro está fundo, vamos trabalhar!”.

-
Pronto patrão! Resposta antecedida por grande assobio que só os pastores sulanos[1] sabiam dar, para conduzir o gado até à chunda[2] para a ordenha da matinal e vespertina ou em dias de vacinação e de capar garrotes.

E, logo, se ouviam os passos apressados do Justino e do filho, seguidos pela sonoridade do diálogo ameno das primeiras ordens do dia do
Kota[3] Kimbaça[4] e o tilintar de baldes e bilhas, limpos de véspera, prontos a sentirem o morno escorrer do leite esguichado das tetas amaciadas por mãos calosas.

O ritual protagonizado pelo Kota Kimbaça – o Sr. Emílio Dias, um dos três primeiros povoadores europeus da savana do Katofe – e o Justino, um esguio pastor bailundo
[5] que se estabeleceu no Katofe desde os primeiros anos da constituição da sociedade Oliveira & Dias – entre os primeiros povoadores João de Oliveira, André de Oliveira e Emílio Dias – era o relógio de despertador para quem morava por perto. Quantas vezes esses ruídos subterrâneos, de tão cedo que se manifestavam, pelas quatro horas da madrugada, geravam protestos de vizinhos mais sonolentos e mais afeitos ao quente dos lençóis, principalmente, quando o cacimbo se fazia presente com a sua neblina de frio cortante.

-
Filho da mãe desse Velho Kimbaça tem que me acordar assim tão cedo no cacimbo para ir tirar meia dúzia de litros de leite! Era o protesto do meu irmão Paga-Fogo[6], que nas férias grandes de junho a setembro ganhava os maiores elogios dos maiores amantes açorianos das vacas leiteiras que se admiravam de ver um estudante exibir as suas vocações veterinárias, tão cedo, pelas cinco horas da madrugada, com as kinamas[7] bem enfiadas em botas de borracha de cano alto, como exigia o figurino. Já, para o sono do Kabiaka os gritos do Sr. Kimbaça soavam como um breve interlúdio musical que separava o quarto do quinto sono, este, sim, fadado a terminar lá pelas oito da matina, a correr, para abrir a loja com algum atraso.

Kimbaça foi o apelido do Sr. Emílio Dias que mais se popularizou entre os
kimbundus[8], mas também me lembro de outro que tinha mais a ver com uma atividade que ele desempenhava religiosamente todos os dias, nos tempos da minha primeira infância, quando ainda não havia rede de distribuição de água no Katofe – a “água encanada”, no dizer dos açorianos. Então, o Kota Kimbaça assumia o papel de Kimbuka Mema[9] e se dirigia acompanhado por algum servente à fonte de águas cristalinas mais próximas, com um barril que rolava vagarosamente pelo caminho, puxado por um arame com as extremidades presas a dois eixos de um lado e outro do barril.

Nos primeiros tempos da colonização açoriana da savana do Katofe, o Sr. Emílio Dias era conhecido por grandes qualidades que transcendiam em muito o seu perfil corpulento ou o significado dos seus apelidos kimbundus. Era dotado de uma força que o levava sempre a executar primeiro as tarefas para mostrar aos funcionários africanos como se devia fazer. E era digno de ver os circunstantes com olhares arregalados de admiração quando o Kota Kimbaça avançava sobre uma gamela cheia de sal, feita em meio tronco de árvore, para desenterrá-la da lama, no tempo da estação das chuvas; sozinho, abraçava aquela gamela, sem deixar cair o sal, e prontamente a desenterrava e a colocava num lugar mais seco para repasto mais tranqüilo das suas vaquinhas amadas. Também, em dia de capar garrotes era vê-lo sozinho enfiar dois dedos nas ventas do bicho e com a outra mão dar uma torção nos cornos para que o animal se estatelasse no chão em mugidos sufocados. Quando chegava a vez dos kimbundus, estes rodeavam o garrote repetidamente, com incitações de
“Kwata ku mutu! Kwata ku mutu! kwata ku mutu!”[10], orientados pelos gritos de incitamento e orientações do Kota Kimbaça, já, esfalfado em sucessivas exemplificações, até que, após alguma correria, o bicho era rendido. Diziam as boas línguas que a sua força, nos seus melhores tempos, era suficiente para fazê-lo abraçar sem vacilações um tambor de duzentos litros de óleo de palma e colocá-lo sobre a carroceria de uma carrinha[11]. Quanto à superior capacidade de domar vacas e bois bravos, eu sou uma testemunha viva e fiel. Um dia, assistia à ordenha, empoleirado na cerca do curral onde mais tarde foi construído o estábulo do próprio Kota Kimbaça, resolvi descer para brincar com o vitelo de uma vaca meio gentia de nome Humpata. Em dado momento, a Humpata lá achou que eu não tratei bem a sua cria e, para minha surpresa e gritaria, resolveu pegar-me contra a cerca; valeu-me a presença do Kota Kimbaça que munido do banco da ordenha deu umas bordoadas na minha agressora. Desde esse tempo, se eu gostava pouco de vacas leiteiras, fiquei a amá-las menos, ainda, para grande desonra do aglomerado katofiano, onde vigorava a lei de que qualquer ocupação que merecesse o nome “trabalho” sempre devia passar por algum cheiro a leite e a bosta de vaca.

Figura 1 – Mapa etnográfico de Angola, conforme Ferreira Diniz.

A minha maior admiração pelo Kota Kimbaça, passava pela maneira como ele sabia dirigir como ninguém os bois que puxavam a carroça ou as alfaias agrícolas:

- Pra cá Chibante, pra lá Amante! Encosta pra canga boi!

Lá ia falando ele brandamente, de aguilhada na mão a tocar levemente o dorso dos animais. E os bois seguiam as suas ordens de imediato como se fossem conduzidos por fios elétricos.

Figura 2 – Kota Kimbaça a lidar os bois na eira, para regalo dos seus pequenos admiradores: Lúcio Matos, São Dias, Idalina Dias, José Estevam Matos, Maria Ângela Dias, Linita Dias.

Kota Kimbaça também fez alguns discípulos entre os kimbundus na nobre arte de tornar sem muito esforço os animais mais bravos inclinados ao trabalho da lavoura, quiçá, um dos que são vistos na Figura 3, correspondente a uma fotografia tirada no Katofe, em julho de 2008, durante as horas matinais de cacimbo.

Figura 3- Kimbundus do Katofe com a sua junta de bois (Foto tirada em julho de 2008 pelo nosso amigo Katofiano Jorge Oliveira, filho do maior pioneiro Katofiano João de Oliveira ou João do Katofe ).

Também, cabe aqui rever a poesia e a fotografia do nosso post MUITA BANGA, em http://kabiaka.blogspot.com, por mim escrita, em 11/06/2006, quando me deslumbrei com a criatividade evidenciada na concepção da carroça da foto:
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Oi Chibante!
Oi Amante!
Encosta pr'á canga,
Pr'á frente boi...
Oi Suzuki!
Oi Toyota!
Tempo do Kota Kimbaça já foi...
Minha carroça tem mais banga,
Pr'á canga boi,
Como no tempo do Kota,
Não sai da rota...

Figura 4 – Novo Toyota angolano com tração triplamente turbinada.

Apesar da minha grande admiração por ele, como não podia deixar de ser, o Kota Kimbaça também foi uma vítima das minhas artes de Kabiá-Kabiaka. Antes dos meus 4 a 5 anos (1957-1958) conheci a NSU do Kota Kimbaça; era uma motorizada de pedais em cima da qual se escarrapachava , para gáudio dos mais novos e dos kimbundus, a grande massa do seu dono encimada por um chapéu de abas largas. Nos últimos tempos dos anos 1960 e primeiros de 1970, ele referia-se a ela como a Velha e, muitas vezes, o ouvi pedir para o seu filho caçula:

- Oh António, traz a Velha!

E, como a Velha não pegava mais nos pedais, ele dava uma corridinha para o necessário embalo e montava rápido na garupa da cansada magrela, enquanto soltava a embreagem para ela pegar no tranco. Na chegada, desligava o motor antecipadamente e usava os pés a arrastar no chão para ajudar os travões bastante desafinados. O arranque e a chegada eram espetáculos tão dignos de ser vistos como a viagem rumo ao sul da povoação. Se a Velha falasse certamente expressaria o seu Muito Obrigado diariamente ao seu dono por tanta estima e fidelidade, pois, em vez de Velha, eu preferia designar a NSU por “Não Se Usa”.
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Figura 5- Motorizada NSU modelo Quickly Luxus, similar à Velha do Kota Kimbaça.
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Mas, quando a NSU do Kota Kimbaça, era novinha em folha, eu por duas vezes resolvi dificultar-lhe o arranque. Aproximei-me sorrateiramente dela e puxei a mangueira da gasolina, após abrir a válvula abaixo do tanque; saboreei o meu veneno a escorrer pelos cantos dos lábios, a ver o combustível a derramar-se pelo chão. Depois, da minha varanda, esperei que o Kota Kimbaça fosse dar o arranque; ele pedalava vigorosamente até cansar e nada... A certa altura, chacoalhou o tanque entre as pernas e verificou que estava vazio. Só, então, verificou que a mangueira que ligava o tanque ao carburador estava solta. Quando ele contou ao meu pai, já com suspeitas do autor da façanha, o Kilamba Vicente olhou-me de soslaio e disse:

-
Foste tu!

Não respondi, mas o olhar matreiro me denunciou.

Na segunda vez, logo após a primeira pedalada, o Kota Kimbaça já desfrutava do “saber de experiência feito”, cantado por Camões, e soltou um brado de protesto que me fez estremecer na varanda, onde o espreitava.

- Ah, Lúcio, Lúcio!...

Nunca me esqueci dos gritos, nem do puxão de orelhas que levei de um pai desiludido por ter um filho fabricado tão fora do molde da família.

A finalizar, eu sei que o Kota Kimbaça, do mundo espiritual para onde partiu, quando morava nos Estados Unidos da América, ao ver-me lembrar estas histórias, solta a sua gaitada e expressão de admiração com o seu timbre pessoal, que tantas vezes escutei no Katofe quando se sentava em ameno
sunguilar[12] numa roda de colonos Katofianos:

-
Iá-iá, ia-iá, iá-iá... Pópilas patrício!

Para ele e todos os que me lêem, envio o saudoso abraço do
Kabiá-Kabiaka.

[1] Designação dada pelos habitantes de Luanda a quem nasceu no sul de Angola.
[2] Estábulo, curral de tratamento do gado.
[3] Mais-Velho, designação dada pelos angolanos a pessoas de mais idade, mais experientes e sábias, merecedoras de admiração e respeito pelos mais novos.
[4] Gordo, pessoa de porte avantajado.
[5] Natural da região do Huambo – Angola.
[6] Apelido dado pelos indígenas ao meu irmão José Estevam da Silveira Matos.
[7] Pernas.
[8] Povos da etnia Kimbundu (ver mapa etnográfico de Angola), que ia incluía dos grupos Quibala, ao sul, a Dembos, ao norte, e de Songo, a leste, a Ngola, ao oeste.
[9] Busca-Água, por tradução literal do Kimbundu.
[10] Pega na cabeça! Pega na cabeça! Pega na cabeça!
[11] Camioneta.
[12] Conversar.

Sexta-feira, Julho 25, 2008

GALERIA NEVES E SOUSA

Moça da Gabela

Menino de Luanda

Feiticeiro Chipalanca

Pastor Mucubal

Soba de Malanje

Moça da Huíla

Moça de Angola

Moça de Angola

Moça de Angola


Moça Mucubal

QUEM SOU EU?

video

Domingo, Julho 20, 2008

PENDÊNCIAS KATOFIANAS

Você já ouviu falar em “detrator”? Esse vocábulo provém da palavra latina “detractore” e se refere a quem detrai, do verbo “detrair”. E o que é detrair? É abater o crédito de alguém, depreciar o seu mérito, a sua reputação ou a fama, difamar, infamar, detratar.

Eu nunca me preocupei que a minha imagem passasse pela unanimidade da aprovação de quem me conhece, até porque, como dizia Nelson Rodrigues: “toda a unanimidade é burra”. Contudo, nunca pensei que passados mais de 30 anos da minha saída da savana do Katofe, agora, com quase 55 anos, com cinco filhos, e a residir numa recôndita cidade do Sul do Brasil, a centenas de quilômetros do Katofiano mais próximo, houvesse algum Katofiano interessado em detrair a minha imagem pública, com base em percepções por ele colhidas no passado. Assim é, realmente, prezado leitor!... Alguém, recentemente, me transmitiu que na boca de um ou outro Katofiano eu sou visto com muitas reticências, a ponto de um deles me chamar de “louco” por ter adotado três filhos no mesmo dia, o que já ocorreu em 1996. Vem a propósito lembrar o que escreveu Saulo de Tarso: “Para envergonhar os sábios, Deus escolheu aquilo que o mundo acha que é loucura; e, para envergonhar os poderosos, ele escolheu o que o mundo acha fraco” (1 Coríntios 1:27).

Eu encarei a notícia com uma risada salutar. Poderia até ter deixado por isso mesmo, mas como “quem não deve não teme”, resolvo voltar aqui ao assunto para contribuir positivamente para que o nosso mundo se torne sempre um lugar melhor para se viver. Aliás, quem me lê já deve ter notado que os meus escritos se pautam essencialmente pela positividade; recordo um passado na savana do Katofe com o objetivo de lançar luz no presente, reforçando a identidade e auto-estima de quem por lá passou, e não com melancolia ou revolta por algo que poderia ter ocorrido de forma diferente, quanto à descolonização, como vejo em outros blogs; também, não procuro escrever sobre coisas negativas do presente africano, embora quando falo de vicissitudes o faço sempre a apontar esperançosamente para dias bem melhores.
Assim, quando escrevo sobre o assunto dos meus detratores katofianos, o faço com o único objetivo de desatar os nós que porventura entre nós existam, pois só desatando os nós que aparecem na nossa vida é que podemos ser livres. Portanto, meus detratores katofianos, vocês desejam ser livres? Então, venham comigo aqui desatar os nós. Resolvam aqui as pendências que têm comigo. Livrem-se das coisas mal resolvidas, dos sentimentos amarrados e, aos poucos, vocês se libertarão...

Eu acho que posso dar uma grande ajuda nas reflexões que escrevo a seguir.

O VALOR DA CRÍTICA

Por que é que eu ri ao tomar conhecimento das ressalvas e críticas negativas de alguns katofianos a meu respeito?

Em primeiro lugar, porque eu não aceito todos os presentes que me querem dar, principalmente, se os identifico com o célebre “presente de grego”. Se alguém me dá um presente, e eu não aceito, então, com quem fica o presente? Resposta óbvia: com quem quer dar o presente; o presente não sai da procedência. Realmente, hoje, eu sou “macaco velho”, e nunca tomo para mim os sentimentos de outrem que vêm carregados de lixo emocional. Há pessoas que não conseguem controlar as suas emoções negativas e, por isso, acreditam poder sentir um alívio se as transferirem para outros, isto é, acreditam poder controlar o universo emocional dos outros, elegendo alvos ou vítimas e fazendo aliados para atingir os alvos eleitos. Como diz o brasileiro: “comigo o buraco é mais em cima”.

A segunda razão da minha satisfação, ao ouvir as críticas, é que, no presente, eu encaro todos que encontro na minha caminhada da vida terrena, dos mais humildes aos mais poderosos, como verdadeiros mestres, então só tenho a aprender algo de bom com quem encontro. Realmente, quando identifico a crítica como sincera, ela se torna para mim num saudável sinal de alerta para a correção dos meus defeitos, que não são poucos. Às vezes, os elogios muito entusiasmados são venenos que criam ilusões e debilitam o meu espírito, principalmente, quando são desprovidos de sinceridade, ou seja, pura bajulação.

O que eu menos desejo é que quem aqui me lê encare esta minha mensagem como uma censura ou julgamento dos meus detratores katofianos. Embora só me esforce por recordar e escrever sobre as boas ocorrências que vivenciei no Katofe, por lá não era tudo rosas. Então, era muito natural que lá também rolassem intrigas e traições, como em todo o lugar debaixo do sol. Portanto, é absolutamente natural que de lá me tenham sobrado alguns dos meus detratores atuais.

Tenho como norma de conduta não julgar os outros. Eu não sou capaz de saber ou de sentir o que cada Katofiano sabe ou sente. Quiçá, os meus detratores katofianos tenham justificativa para sentirem o que sentem por mim. Assim, também, ninguém mais é capaz de saber ou sentir o que só eu sei e sinto, ou soube e senti, quando assumo ou assumi certas ações e reações. Numa coisa vamos concordar agora, como estamos sempre em busca da sabedoria para melhor viver, devemos lembrar o pensamento: “o sábio não julga, apenas observa e aceita, se possível”.

COMO AVALIAR O CERTO E O ERRADO

Prezado conterrâneo Katofiano: quem sou eu para lhe dizer o que é certo e errado? Quem é você para me dizer o que é certo e errado? Antes, vamos nos empenhar em descobrir realmente quem somos nós além do certo e do errado.

Quando percebermos muitos defeitos num indivíduo, principalmente, se for outro patrício katofiano, a melhor estratégia a seguir para a nossa própria saúde mental é começar a procurar nele qualidades virtuosas para elogiar. Não basta imaginar elogios que poderíamos fazer àquela pessoa. É melhor agirmos com muita sinceridade e persistir na busca de qualidades positivas, aliás, que qualquer ser humano tem. A tendência natural é que à medida que formos descobrindo pontos fortes na pessoa examinada nos surpreendermos com a nova pessoa que surgirá na nossa frente. Essa pessoa ainda terá defeitos; mas também qualidades. Você já tentou fazer isso a meu respeito, meu detrator Katofiano? E já tentou fazer esse exame consigo mesmo? Faça e a sua auto-estima se elevará muito!

Na há solução, temos que compreender e aceitar os outros katofianos como eles são. Evitemos magoá-los ferindo o seu amor-próprio. Cada um tem as suas razões para agir ou ter agido deste ou daquele jeito. Você tem ou teve as suas e eu tenho ou tive as minhas. Além disso, o que há de mais valioso nesta vida é a experiência. Já dizia o maior dos Lusíadas, entre os quais nos orgulhamos de pertencer: “Não há como o saber de experiência feito” (Luís de Camões). E a experiência não é só acumular conhecimento; é muito mais, é essencialmente errar e aprender; e errar novamente. Não seja tão reprimido e repressor! Experimente! Aprenda também errando! Se você jogar esse jogo, você nunca se dará mal, porque a vida é um jogo em que não há ganhador nem perdedor. Quem ganha é o jogo.

Agora, se você é um perfeccionista, só tem um jeito de se curar dessa doença, que é colocar na sua cabeça o seguinte conceito: “a perfeição é o melhor que você pode fazer naturalmente”. Portanto, tudo o que eu fiz no Katofe, quer encaixe ou não no seu código de crenças e valores, meu amigo katofiano, eu fiz tudo com absoluta perfeição porque o fiz tudo o que pude e muito naturalmente. Não tenho que me arrepender de nada. Eu nunca errei, só aprendi! Ainda mais, eu começo cada dia de vida perdoando a mim mesmo pelas eventuais besteiras que vou realizar durante o dia, pois só erro por inexperiência e não por ser portador de um mau caráter, seja herdado ou cultivado. As pessoas de mau caráter não conseguiam se criar no nosso Katofe; e eu me criei lá!

Quem vive com a pretensão ou soberba de ser o “certinho” da família, de sempre acertar e nunca errar, um dia cai estrondosamente do cavalo da sua perfeição. Nesta vida somos meros equilibristas. O equilibrista só consegue se equilibrar porque seu andar é desequilibrado. Ele anda de acordo com a tensão da corda e parece sempre que vai cair. Se ele seguisse duro e direito, com certeza cairia, porque a corda é bamba. Você, meu detrator katofiano, chegou aonde chegou na vida porque não andou sempre duro e direito, então, por que tem a veleidade de exigir que eu fosse sempre duro e direito, principalmente, nos meus tempos de liberdade da meninice e juventude do Katofe? Não seja tão rígido, seja mais maleável em suas opiniões e exigências! Lembre-se que o bambu verga, mas não quebra, porque é flexível e não rígido.

O SER HUMANO É DINÂMICO

Meu amigo Katofiano, você sabe o que é preconceito? O preconceito é o dogma da mente. É você ser dominado por idéias que você não sabe nem se são suas. Se você não quer ser preconceituoso e, sobretudo não julgar os outros com preconceito, então, esvazie-se um pouco, torne a sua carga mental e emocional mais leve, jogue fora velhas idéias e velhos conceitos que apenas turvam a visão e não o deixam enxergar o novo. Na savana do Katofe, aprendemos juntos que as folhas caídas da mulemba na frente da igreja jamais retornavam à árvore. Portanto, desprenda-se do passado e não viva de más lembranças. Recorde apenas as boas lembranças porque essas, sim, podem ajudar você a viver mais intensamente o presente, o agora. Viva o agora!

Eu não sou o que você pensa de mim. Ainda, não sou mesmo o que eu penso de mim. Então, quem sou eu? O que menos interessa é pensar nisso. Você é o que é, e isso lhe basta! Eu sou o que sou, e isso me basta! Cada um é o resultado das suas ações. Examinando o meu estado atual, pelos vistos, as minhas ações passadas foram muito boas! Não tenha dúvida! Mas, uma coisa é certa: nunca sou todos os dias a mesma coisa, portanto não posso ser quem você conheceu no Katofe...

Alguém disse: “A vida é um eterno ensaio. Repetimos todos os dias as mesmas coisas. Mas nunca é a mesma coisa”. O dia é claro e a noite é escura. Mas há o amanhecer e há o escurecer. Tudo é um processo e tudo se transforma. Tudo na vida é movimento. O dinheiro está em movimento, o ar está em movimento, o sangue está em movimento. Então, não se prenda aos sentimentos negativos. Isso é mesquinharia. Deixe o sentimento negativo chegar, observe-o e deixe-o afastar-se de você. Não fique se remoendo ou agarrado a um sentimento negativo que já deveria ter passado, antes, deveria ter ficado lá no tempo da sua vida no Katofe.

Gosto muito de recordar a experiência de vida dum pintor japonês que pintou apenas um quadro em toda a sua vida. Quer dizer, ele pintou o mesmo tema inúmeras vezes, durante toda a vida. Ele mostrou que também nós podemos pintar o mesmo quadro todos os dias, mas nunca um quadro será igual a outro. Assim, ocorre comigo – o Lúcio de hoje não é o mesmo de ontem e, muito menos, o Lúcio do Katofe!
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Um grande abraço do Kabiá-Kabiaka.

Sábado, Julho 19, 2008

PEDRAS KATOFIANAS


Pedras das baixas do Katofe, na Kianza. Foto tirada por Armando Enes.

Pode um homem amar a pedra dura?
Claro, várias eu amei
com Alma pura...
.
A algumas não sei
como tanta ternura dediquei.
Eram de carne feita pedra,
tão frias,
tão inertes,
mas, mesmo assim, amei.
Como, não sei?!
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Outras eram mesmo pedra,
dura e duradoura,
como dura o amor
que é eterno enquanto dura...
.
Madeira feita pedra
na cidade chamada Mata,
a Cidade da Pedra que foi madeira
da mata brasileira.
.
Terra feita pedra,
tão altaneira,
que se fez humana
na Alma Açoriana
plantada na savana:
a Alma Katofiana!
.

Madeira transformada pela natureza em pedra, na cidade da Mata, a Cidade da Pedra que foi madeira, Rio Grande do Sul, Brasil.

PEDRA:
POEMA PARA HENRY MOORE

Emanuel Félix
Poeta Açoriano

Um homem pode amar uma pedra

uma pedra amada por um homem não é uma pedra

mas uma pedra amada por um homem

O amor não pode modificar uma pedra

uma pedra é um objecto duro e inanimado

uma pedra é uma pedra e pronto

Um homem pode amar o espaço sagrado que vai de um homem a uma pedra

uma pedra onde comece qualquer coisa ou acabe

onde pouse a cabeça por uma noite

ou sobre a qual edifique uma escada para o alto

Uma pedra é uma pedra

(não pode o amor modificá-la nem o ódio)

Mas se a um homem lhe der para amar uma pedra

não seja uma pedra e mais nada

mas uma pedra amada por um homem

Ame o homem a pedra

e pronto

Terça-feira, Julho 15, 2008

FILOSOFIA DAS BAIXAS DO KATOFE

Orquídea da savana do Katofe (Foto tirada e gentilmente cedida por Albano Faustino)
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A minha primeira lição de filosofia eu tive – melhor, vivi – nas baixas do meu Katofe...

Era nos tempos em que, bastas vezes, fugi à vigilância do “Capitão da Malta” – precisamente, a minha mãe – para ir tomar banho na vala que tinha servido à rega do arroz em escassos anos de experimentação agrária de açorianos que fugiram à teimosia da sua vocação pecuária de domar vacas leiteiras, ainda, muito gentias. A vala ficava no fundo da baixa, é mesmo, aquela bem na frente da igreja e da Casa do Divino Espírito Santo, do outro lado da estrada alcatroada Nova Lisboa – Luanda, a uns 2 ou 3 km da minha casa, que as minhas pernas curtas e lestas galgavam velozmente, para chegar bem perto do rio Katofe, onde também havia uma fonte de água cristalina que abastecia continuamente a vala que ia escoando lentamente para o rio. Ali me banhava nos meus cinco a sete anos, desde o início da tarde até que a trovoada me alertava sobre a chegada célere da chuva em cascata, esta sim a única que me enxotava rapidamente para catar as roupas pousadas na primeira touça de capim e divergir numa carreira até, a uns quinhentos metros, às kubatas da família do Velho Kibuba, de quem um dia vos falarei em maiores detalhes, o alfaiate mulato da firma Oliveira & Dias e, mais tarde, do comércio do Kilamba Vicente. Por vezes, a trovoada e a chuva só davam uma folga ao cair da noite, que naquelas paragens tropicais chegava cedo, pelas 18 horas e pouco. Quando isso acontecia, geralmente, era conduzido de volta à morada paterna pelos filhos do Velho Kibuba, o Carlos e o Moreira, que eram meus professores do pouco kimbundu que aprendi e companheiros inseparáveis de aventuras no desbravar da savana, principalmente, na meticulosa arte de esfolar sapos, com lâmina Nacet, e encher as respectivas tripas com areia para comercializar como chouriço (se na propaganda de rádio dos adultos a lâmina Nacet cortava até jacaré, por que não poderia ser utilizada para esfolar sapos?); ao chegar a casa, geralmente, era recebido pelo Mais-Velho com um olhar que eu só identifiquei mais tarde como misto de sebastianista, por esperar ansiosamente “O Desejado”, e de pai do fadado desde o berço a eterno filho pródigo...

Naquelas baixas, o flutuar das nuvens, o farfalhar das folhas, o sibilar do vento, o dançar do capim, o refrescar da chuva, o escaldar do calor, o tiritar do cacimbo, o rumorejar do rio, o fumegar das queimadas, o coaxar dos sapos, o cantar do cuco, o esvoaçar das andorinhas,..., ensinaram-me a quintessência do Dharma do Buddha: “Todas as coisas são impermanentes”, ou seja, o que aqui encontramos de mais permanente é a impermanência; e, também, do Evangelho do Cristo: “Vejam os passarinhos que voam pelo céu: eles não semeiam, não colhem, nem guardam comida em depósitos. No entanto, o vosso Pai , que está no céu, dá de comer a eles. Será que vocês não valem muito mais do que os passarinhos? E por que vocês se preocupam com roupas? Vejam como crescem as flores do campo: elas não trabalham, nem fazem roupas para si mesmas. Mas eu afirmo a vocês que nem mesmo Salomão, sendo tão rico, usava roupas tão bonitas como essas flores. É Deus quem veste a erva do campo, que hoje dá flor e amanhã desaparece, queimada no forno”.

Entre o Buddha e o Cristo, veio Heráclito de Éfeso (540 a.C. – 470 a.C.) a proclamar: “Tudo flui, nada permanece”. E, bem depois, Cecília Meireles (1901-1964) com “O sou e não sou no que estou sendo”. E, Rubem Alves (1933-) com a incontestável sentença: “Todo ser é um permanente deixar de ser”.

E é assim que eu rememoro a savana do Katofe. Sou Katofiano – gosto mais que de katofense, porque Katofiano rima com Açoriano – num permanente deixar de ser. Sou Katofiano e não sou no que estou sendo. A cada hoje brotam da minha mente flores katofianas que em cada amanhã fenecem. Tudo flui e nada permanece e me lembro que todas as coisas são impermanentes...

Realmente, a morte faz parte da essência da vida, porque a nossa vida acontece a morrer continuamente. É como o rio Amazonas que se desvanece no infinito do oceano, apesar da sua extensão gigantesca de 6.992 km das cabeceiras do rio Apurimac, no Peru, à foz no litoral brasileiro, que supera o comprimento do rio Nilo, contrariamente ao que aprendi no Colégio Alexandre Herculano, em Nova Lisboa; apesar da sua profundidade de 100 metros, maior que a altura do orgulho americano simbolizado pela Estátua da Liberdade; apesar da sua maior largura que é de 50 km, bem próxima do comprimento do Canal da Mancha; apesar dos 100 milhões de toneladas de sedimentos despejados mensalmente no mar, o que é só um volume bem similar ao do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro; apesar do seu caudal de 200 mil metros cúbicos por segundo, que daria para encher a Baía da Guanabara em apenas 4 horas. Apesar de toda essa grandeza, que as mais potentes imagens de satélite ainda não conseguem divisar e detalhar inteiramente, o principal objetivo do Amazonas é perder-se no oceano, este, tantas vezes, usado como símbolo da Grande Vida, nosso maior alvo.

Em suma, por mais produtivo e intenso que seja o percurso da minha vida, assumo tranquilamente que ela é como a chama da vela que se vai queimando. E vivo a feliz certeza que a cera que me resta é algo menor, mas melhor, do que a cera que se queimou!
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Depois disto, me lembrei de algo que escrevi há quinze anos, já a residir em Blumenau-SC, na grande curva do rio Itajaí Açu, em 19/03/1993, juntamente com um pensamento de Emily Brontë:
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O SER
Onde achar o norte,
Se desnorteado procuro
Fora de mim
Um rumo,
Um sentido,
Uma resposta,
Um Fim?...
Olhei para o EU profundo,
Bem no fundo, o Infinito
Da interioridade do meu SER:
Eis o manancial de águas a sorver,
O espelho em que me reflito,
Enfim,... O meu Mundo!
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“Tudo o que importa é que em torno
Pairam perigos, dores e trevas,
Se na amplidão do nosso SER
Não há um céu límpido e claro”.

Emily Brontë (1818-1849).
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Um grande abraço do Kabiá-Kabiaka.

Domingo, Abril 27, 2008

SOMOS TODOS AFRICANOS

Apartheid de Aldemir Martins
A Genética trouxe a grande revolução das técnicas de manipulação do DNA há pouco mais de 20 anos. Atualmente, estão identificados 35 tipos de DNA mitocondrial que derivaram dos 3 originais da população base de toda a humanidade. É isso mesmo, apesar da imensa diversidade do gênero humano com múltiplos grupos e etnias, estes derivaram de uma população base – com as características do Homo Erectus – com apenas três tipos principais de DNA.

As conclusões proporcionadas pelos estudos do DNA deram maior razão e consistência à Teoria Monocêntrica que explica a origem dos vários grupos humanos. Esta teoria afirma que o homem atual teve a sua remota origem num único território, entre a Ásia Central/Meridional e o Nordeste Africano, com maior tendência para a gênese africana.

Já, a Teoria Policêntrica defende que a formação do homem atual se deu em várias regiões independentes e isoladas entre si, pois afirmam que existem semelhanças entre as características dos vários grupos humanos atuais e dos grupos humanos que existiram no passado, tais como o Homem de Java, o Homem de Pequim, o Homem da Rodésia e o Homem de Neanderthal. Portanto, a Teoria Policêntrica diz que os grupos humanos são diferentes uns dos outros e têm um passado evolutivo diferente, em territórios diferentes.

Efetivamente, a partir da descoberta do DNA, só a Teoria Monocêntrica se apresenta cientificamente consistente e credível.

Noah Rosemberg e Jonathan Pritchard realizaram pesquisas de DNA, na Universidade de Stanford, com 52 grupos étnicos da África, Europa, Ásia, e Américas e concluíram basicamente o seguinte: 1) os 52 grupos podem ser organizados em cinco grupos cujos ancestrais estiveram isolados por desertos extensos, oceanos ou montanhas de muito difícil transposição durante milhares de anos; 2) os cinco maiores grupos da espécie humana são os africanos da região subsariana, os asiáticos orientais, os europeus e asiáticos a leste do Himalaia, os povos da Nova Guiné e Melanésia e os indígenas das Américas; 3) os habitantes do sul da Índia têm características comuns tanto a europeus como a asiáticos como resultado da miscigenação de habitantes dessas duas origens; 4) só é possível identificar indivíduos com grande similaridade genética quando descendentes de povos que se mantiveram circunscritos a certa região por barreiras geográficas que impediram a miscigenação em milhares de anos. Realmente, os estudos recentes de Rosemberg e Pritchard só dão razão à frase de Robert Clarke: “somos todos mestiços e sê-lo-emos cada vez mais”.

Ainda, antes das técnicas do DNA, há cerca de trinta anos, o geneticista Luca Cavalli-Sforza realizou uma investigação científica com centenas de grupos étnicos espalhados pelo mundo e, com base em estudos genéticos e paleontológicos, concluiu que os nossos antepassados comuns emigraram da África para a Europa há escassos cem mil anos. Esses primeiros Homo Sapiens Sapiens só atingiram o norte gelado da Europa há cerca de 40 mil anos.

Para o cientista Diop, a raça branca – leucodérmica – representada na sua origem pela população de Cro-Magnon surgiu somente num período que se situa entre 15 e 25 mil anos atrás, tendo se restringido inicialmente à Europa. No que se refere à raça amarela dos ancestrais dos asiáticos sino-nipônico-mongóis, e representada pela população de Chancelade, teria surgido ainda mais recentemente: 12 a 20 mil anos atrás. Nesse caso, a cor negra teria sido, de maneira concreta, a “cor-referente” a partir da qual se estruturariam as variações de pigmentação entre humanos. Ou seja, o isolamento da espécie humana permitiu o desenvolvimento de acentuadas diferenciações conforme a necessidade de adaptação imposta pelas mais variadas condições geográficas.

Assim, hoje, o mundo científico tem quase a certeza absoluta de que: a) o gênero humano surgiu somente no continente africano, há cerca de 3 milhões de anos; b) a humanidade anatomicamente mais evoluída surgiu, também, exclusivamente no continente africano, entre 150 e 200 mil anos atrás; c) o Homo Sapiens Sapiens migrou para fora do continente africano, pela primeira vez, para povoar o resto do planeta, entre 80 e 100 mil anos atrás; d) embora sem comprovação definitiva, a pigmentação dos primeiros Homo Sapiens Sapiens dificilmente pudesse ter sido outra senão melanodérmica (pele escura).

A maior descoberta sobre as alterações da pigmentação da espécie humana ocorreu precisamente no ano de 2007. Foi identificado o gene SLC24A5 que foi provavelmente o responsável pelo aparecimento e transmissão da pele branca européia. O grupo de pesquisa de Keith Cheng estudou também a seqüência do referido gene em europeus, asiáticos, africanos e indígenas americanos; ao tomar por base o número e a periodicidade das mutações ocorridas, concluíram que as condições genéticas responsáveis pelo clareamento da pele se estabeleceram nos povos europeus num período que se situa somente entre 6 mil e 12 mil anos, atrás.

Para você que me lê, se julga ter alguma vantagem ou direito adicional pela cor da sua pele, em relação a pessoas que comungam do seu convívio ou do seu país, então, só posso dizer: “você é um cabeça de teta!”

Finalmente, haverá porventura razão para expressões como “angolano genuíno”, “branco de segunda” e “raça superior”? O amor que alguém dedica à sua Pátria poderá ainda ser relacionado com a melanina que exibe? Como isso é possível, se a melanina não é incorporada ao cérebro?

Um grande abraço do

Kabiá-Kabiaka, a quem o meu pai no meio dos seus devaneios com vacas leiteiras resolveu colocar o pomposo nome de Lúcio Flávio da Silveira Matos.

Sábado, Abril 12, 2008

O ENGENHEIRO-ARQUITETO SALALÉ

Lembro-me que nas poucas e raras vezes que embarquei em caçadas noctívagas de farolim, devidamente, comandadas pelo meu irmão ou o meu tio de dois metros de comprido, de vez em quando, o carreiro gentio que percorria pelo meio do mato se tornava estreito ou de pavimentação irregular por um tropeço num morro de salalé. Claro, aproveitava para excomungar o que me viesse na cabeça, principalmente, a maldita idéia de me ter deixado arrastar para mais uma atividade que simplesmente detestava; eu sempre considerei muito mais inteligente e vantajoso ficar no quentinho do vale dos lençóis e depois caçar o bife de nunce no prato do mata-bicho, o que levava o meu irmão “Paga-Fogo” a espumar de raiva por ter lhe recusado a minha companhia na caçada da noite anterior. Era uma satisfação vê-lo furioso quando ele se levantava de um sono curto e mal dormido e me via na mesa já a saborear o bife que ele tinha caçado e cortado. Quando ele me recriminava por não ter ido à caça, mas ser ligeiro na deglutição dos bifes, eu sempre respondia: “Eu prefiro caçar no prato... É muito mais fácil e inteligente!” A verdade é que nunca tive atração por manejar armas de fogo. Mas, voltemos à vaca fria, o que me traz aqui é o Sr. Salalé.

Magníficas fotografias de morros de salalé da savana do Catofe tiradas pelo nosso amigo Abano Faustino, residente na América do Norte, na sua viagem a Angola no início da estação das chuvas de 2006.

Comecei a apreciar o Salalé (Macrotermes Natalensis) já nos primeiros anos da minha mais tenra infância, quando ele aparecia em grandes nuvens esvoaçantes no início da estação das chuvas e eu corria com os meus amigos kimbundus para apanhar o mais que podia; então, desde cedo, aprendi que essas formigas aladas poderiam ser um repasto muito útil como reforço das refeições dos bifes suculentos de nunce, sob o olhar arrepiado dos meus pais e avós. Mais tarde, em Luanda, pelos meus dezassete anos de idade, ouvi da boca do etnólogo Dr. José Redinha que o salalé depois de seco e temperado poderia ser o melhor aperitivo para o whisky, segundo ele tinha aprendido com um engenheiro estrangeiro ao serviço da Diamang.
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Quando entrei no curso de engenharia civil, aprendi mais a admirar o salalé pela maneira como essa formiga branca construía os seus morros. Realmente, o morro de salalé é uma obra de engenharia estrutural e de arquitetura. Os montes de salalé podem atingir até nove metros de altura. São feitos de uma pasta de terra, fragmentos de madeira, excrementos e saliva mastigada pelas próprias térmitas. O salalé executa os seus ninhos de parede muito resistente em duas frentes de trabalho que no fim da obra se encontram no meio, isto é, no topo do morro. Este talento inato do salalé para a engenharia e arquitetura foi muito bem cantado pelo angolano Maurício Gomes em certo trecho do poema Exortação:

Olhai o senhor arquitecto Salalé,
tão pequenino, tão teimoso e diligente...
Como ele projecta e constrói castelos,
milhões de vezes maiores que ele é,
para vergonha nossa,
que pouco fazemos,presos de fútil, preguiçoso dandismo...

Foto de morro gigante de salalé, certamente com nove metros ou mais, que circula pela internet (autoria desconhecida).

Quiçá, foi após a leitura do poema de Maurício Gomes que o pai do concreto (ou betão) armado brasileiro Engenheiro Emílio Baumgart, nascido aqui, na minha cidade de Blumenau-SC, se sentiu desafiado a criar o sistema de construção de pontes por balanços sucessivos, bem à moda do engenheiro Salalé. A execução desse tipo de pontes ocorre dos apoios para o meio do vão, em duas frentes de trabalho que se encontram no centro; a vantagem desse sistema construtivo de pontes de concreto protendido (ou betão pré-esforçado) é dispensar o cimbramento, ou seja, as armações para o molde em arco. Também, são utilizados elementos pré-moldados, que vão sendo incorporados sucessivamente ao corpo da ponte de ambos os lados denominados de aduelas.

Ilustração da ponte Eusébio Matoso em São Paulo, projetada por Ernani Dias e executada pelo processo de balanços sucessivos e moldada “in-loco”.

Este paralelismo entre as obras do salalé e as obras humanas de construção civil não é de todo descabido se atentarmos na soberba descrição que o escritor angolano Castro Soromenho (1910-1968) faz sobre as habitações dos calambas, na novela “Calenga e a lenda dos rios de amor e morte” (in Calenga, 1945), que narra a história de Calenga, o menino que cresceu para ser soba dos calambas, e o seu encontro com os cassongos:

“A aldeia dos calambas não tinha palhotas. As suas habitações tinham sido abertas em pequenos morros de salalé. Habitavam dentro desses morros duros como pedra, que legiões de térmitas construíram em longos anos, onde elas viviam em extensas e delgadas galerias, cruzando-se em todos os sentidos. Quando uma dessas galerias se abria dentro do buraco onde se deitava o calamba, estabelecia-se pavor, e o homem matava as térmitas para não ser por elas devorado. Só em presença desse perigo é que o homem matava as térmitas. De resto, deixava-as trabalhar à vontade para aumentarem o morro, onde ele, depois do tempo o endurecer, alargava a casa. Então, o calamba podia arranjar mais uma mulher e agasalhá-la sob a sua vista”.

Efetivamente, o salalé (em Angola), ou cupim (no Brasil), ou térmita (em Portugal), ou muchém (em Moçambique), ou ainda simplesmente formiga-branca, é um inseto eusocial – por ter três características: uma sobreposição de gerações num mesmo ninho, o cuidado cooperativo com a prole, e uma divisão de tarefas (reprodutores e operárias) – da ordem Isoptera, que contém cerca de 2.800 espécies catalogadas no mundo. Mais conhecidos por sua importância econômica como pragas xilófagas, pois causam grandes prejuízos nas construções de madeira que ele vai devorando para grande desespero dos proprietários. A maioria das espécies dessas formigas vive nas regiões tropicais e subtropicais, raramente além da latitude 40 graus, norte ou sul. Segundo estudos científicos, mais espécies dessas formigas podem ser encontradas num único hectare de floresta ou savana tropical do que em toda a América do Norte e Europa.

Os soldados e operários são as castas estéreis entre o salalé. Uma colónia típica é constituída de um casal reprodutor, rei e rainha, que se ocupa apenas de produzir ovos; de inúmeros operários, que executam todo o trabalho e alimentam as outras castas; e de soldados, que são responsáveis pela defesa da colônia. Existem também reprodutores secundários (neotênicos, formados a partir de ninfas cujos órgãos sexuais amadurecem sem que o desenvolvimento geral se complete), que podem substituir rei e rainha quando esses morrem, e às vezes ocorrem em grande número numa mesma colónia.

A dispersão e fundação de novas colónias geralmente ocorre num determinado período do ano, coincidindo com o início da estação chuvosa. Nessa época ocorrem as revoadas de alados, dos quais alguns poucos conseguem se acasalar e fundar uma nova colónia. É o que Manuel Rui expressa de forma tão poética na frase: “a chuva anunciada pelo salalé que, de alegria, se camicaza deixando cair suas asas para morrer feliz, por elogio às gotas de água caídas do céu” ( no livro de Sócrates Dáskalos “Do Huambo ao Huambo - um testemunho para a História de Angola”). Eu acrescento que ele deixa ainda mais felizes os seres que o conseguem comer para desespero e arrepio dos que se enojam com tal alimentação.
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A finalizar, algo que os seres humanos muito poderiam melhorar por imitar o engenheiro-arquiteto Salalé seria na imitação da sua organização social, principalmente, para o trabalho cooperativo.
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Um grande abraço do
Kabiá-Kabiaka.

Quarta-feira, Janeiro 30, 2008

SER O QUE SE É


Andorinhas como as que aparecem no meu Catofe. Em cima, andorinhas Hirundo Rustica; em baixo, andorinhas dos beirais.

Uma das mais deliciosas recordações do meu tempo de infância no Catofe refere-se à faina incessante das andorinhas.
Ao sair da primeira casa do meu Kilamba, a casa velha de adobe com a frondosa varanda frontal a todo o comprimento, convidativa ao repouso e múltiplas brincadeiras criativas de kandengue pelas tardes ensolaradas, bem fresquinha sob a cobertura de telhas cerâmicas tipo Marselha, desembocava num pequeno largo limitado à direita pelo armazém onde o meu velho criava pintainhos acabados de sair das chocadeiras a petróleo (querosene), sempre em funcionamento, e, na frente, pela casa de dois pisos do Sr. Emílio, a quem os Kimbundus preferiam chamar de Kimbaça.

Muitas vezes, já pela manhã, até aos seis anos, quando ainda não ia à escola, logo após o costumeiro matabicho, me dirigia à frente da casa do Sr. Emílio, onde funcionava a loja comercial da firma Oliveira & Dias, no rés-do-chão. Ali, havia um passeio de pedras irregulares de granito com acabamento superficial bem plano, onde as mulheres provenientes das sanzalas em volta colocavam as quindas de milho, mandioca e massambala, para trocar quilo a quilo por mercadorias que o Aníbal ia aviando pacientemente, em metros de panos de pintado, canecas de óleo de palma, pacotinhos de açúcar, etc.

Sentado no passeio de pedra, de olhar ao alto, driblando sob a pala do boné os raios solares que me agrediam a leste bem de frente, contemplativo, admirava as andorinhas no seu trabalho incansável de construção dos ninhos no beiral da casa de primeiro andar. Elas não se importavam com o meu olhar indagador, com os meus pensamentos questionadores e simplesmente trabalhavam com afinco quase imutável. Traziam o barro úmido no bico e construiam cada ninho grão a grão, com muita determinação até ao fim. Não imitavam com inveja outros pássaros que construiam ninhos mais macios de gravetos e capins nas árvores próximas. Portanto, não buscavam a minha admiração ou aprovação. Muito naturalmente, as andorinhas eram o que eram e não queriam ser pombas, ou canários, ou bicos-de-lacre. Elas eram muito felizes em ser o que eram: andorinhas, pássaros engenheiros e construtores.
Assim é que nós humanos deveríamos ser. Ser o que se é. Construir o nosso auto-aperfeiçoamento sem importar-se com o que os outros pensam, se estamos devagar ou depressa, se manifestamos ainda muitos defeitos e poucas virtudes no que fazemos. Estar sempre concentrados em viver e trabalhar de cabeça erguida, de acordo com os nossos melhores valores, sem distrair-se com coisas pouco importantes. Construir em obediência ao nosso plano ou Grande Projeto de Vida. Construir a casa, a vida, a família, a empresa, a sociedade, a nação, o país, o caráter e a personalidade, investindo sempre na autenticidade de SER O QUE SE É.
Um grande abraço do Kabiá-Kabiaka.

Terça-feira, Janeiro 29, 2008

ANO NOVO, VIDA NOVA

O título desta reflexão é o que muitas pessoas colocam como divisa ao passar de um ano para outro. Mas, afinal, o que é a Passagem do Ano celebrada com a tradicional festa do révaillon?
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Se pensarmos que só agora os chineses se preparam para a sua Passagem do Ano lunar, que ocorrerá a 7 de fevereiro, então, concluimos que a contagem do tempo é mais uma invenção humana como tantas outras cujo significado mais profundo nos lembra a transitoriedade da vida terrena.
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O mestre zen Dogen alerta-nos que "as pessoas só reparam no tempo que passa e não enxergam que a realidade do tempo reside em cada momento". Na realidade, o que é o passado? O que é o futuro? NADA!
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Há pessoas que vivem o momento presente a recordar os momentos felizes ou tristes do passado. Mas, uma vez que passaram, o que restou deles? Apenas, resta a consciência que se dissolveram no ar como um sonho. Pela sua própria natureza intrínseca de transitoriedade, os momentos precisam passar, autenticamente, devem passar, porque só a passagem dos instantes já vividos permite a chegada dos novos, que precisam ser experimentados à exaustão no presente. Quem vive no passado manifesta um apego que traz sofrimento, porque não deixa o melhor do presente acontecer...
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Também, quem vive no futuro, à espera de um ditoso momento chegar, vive na ilusão. O momento não chega nunca e a crescente ansiedade transforma-se em sofrimento.
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Em vez disso, deveriamos perceber a nossa presença no universo no preciso momento que é o agora. Agora é o que é. Agora é o quando. Nós estamos aqui na hora certa. Estejamos inteiros neste momento. Comecemos agora a realização das metas traçadas na Passagem do Ano, nem que seja só através da poderosa técnica da visualização criativa. Agora, eu estou sempre na hora certa.
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Quando eu eliminar a separação dualística em relação ao tempo, em termos de passado-presente-futuro, dominarei o segredo da eterna juventude que é estar constantemente envolvido e compremetido com a vida que é una. O segredo da longevidade é a plena atenção com o fluxo da vida instantâneo. Sem essa plena atenção, nós estamos mortos para o momento que ocorre e morremos aos poucos. Se ficarmos desatentos e distraídos para a nossa própria vida e a dos que nos rodeiam, então, simplesmente não vivemos. Estamos mortos em algum tempo do passado ou do futuro.
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Um grande abraço do
Kabiá-Kabiaka.

Sexta-feira, Outubro 19, 2007

Quinta-feira, Outubro 11, 2007

MUDAM OS TEMPOS...

Antes...

E depois!...

Tirando a montanha e o céu límpido, o resto só reflete as obras dos libertadores em contraste às obras deixadas pelos colonizadores da Kibala - não colonialistas!
É caso para recitar a canção açoriana:

Mudam os tempos
E as vontades...
Mudam os ventos, pensamentos e vaidades.
Tudo passou,
Quase esqueceu,
E o que ficou
marcas deixou
Do que morreu!

Um grande abraço do Kabiá-Kabiaka.

Domingo, Setembro 30, 2007

ACORDO ORTOGRÁFICO

Recentemente, ressuscitou a temática do decantado Acordo Ortográfico entre os países lusófonos, visando tornar a Língua Portuguesa – a minha Pátria é a Língua Portuguesa, como já disseram Guerra Junqueira e Fernando Pessoa – uniforme, pelo menos na escrita, em todo o mundo, uma vez que ela assume diversos matizes quanto à fala e significado de certas expressões, como adiante elucidarei.
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Eu penso que existe mais unidade na diversidade linguística popular do que na unicidade imposta por meia dúzia de iluminados, todavia existem – como sempre – grandes interesses econômicos, aquém e além Atlântico, que tornam conveniente esse acordo, basta lembrar as possibilidades de venda dos livros didáticos brasileiros nas escolas dos PALOP ou o velho sonho português de ver a língua lusíada ser adotada como uma das línguas oficiais de trabalho da ONU.

Lembro que a tentativa de celebração do Acordo Ortográfico, entre Portugal, Brasil e PALOP, já é anterior a fevereiro de 1987, quando eu demandei definitivamente plagas tupiniquins. Nessa época, o dito acordo foi muito atacado pelos puristas lusos, a tal ponto que a sugestão de abolir o acento na antepenúltima sílaba das palavras proparoxítonas recebeu um texto num jornal, mais ou menos assim, quanto a um diálogo em que um amigo perguntava a outro se tinha “cágado” em casa:

- Você tem cagado no jardim?
- Não, eu tenho cagado em casa.
- Onde você tem cagado?
- Eu tenho cagado na banheira.


Claro, imagino que esses equívocos foram saneados, ao fim de mais de vinte anos de estudo e debate, do acordo que dizem ser agora para valer. Porém, o Acordo Ortográfico continua ter os seus detratores em todos os países lusófonos com a principal argumentação de que o português que se fala e vive em Portugal, Brasil e Angola, por exemplo, não é o mesmo.

Efetivamente, assim é, sobretudo, para expressões e interpretações de uso popular. Já nos primeiros anos de escola aprendi que havia palavras de português que eram de origem popular e outras de origem erudita. Por que é que a origem popular de certas palavras da nossa língua só pode ser válida se ocorrer no “jardim à beira-mar plantado”, onde só habitam 10 (3,33%) dos mais de 300 milhões de lusófonos? Então, por que é que os angolanos já adotam a palavra “muambeiro” como sinônimo de “candongueiro”, sendo esta a única palavra que se usava em 1975, quando saí da minha terra natal? Certamente, por influência das novelas brasileiras, também, muito apreciadas em Portugal... Por que é que os portugueses adotam atualmente o termo “carrinha”? Certamente, por pura influência dos exilados de Angola que foram acolhidos em Portugal... Portanto, a língua é uma entidade viva e se molda mais pelo amplo convívio dos povos e não por acordos políticos e técnicos. Uma coisa é certa: muitas regras do acordo ortográfico levarão muitos anos até serem absorvidas pelos diversos povos lusófonos e algumas nunca vingarão. Quem viver, verá!

Malgrado o esforço dos especialistas dum lado e outro do Atlântico, certas palavras assumirão sempre significados bastante diferenciados em várias regiões e povos, por exemplo, analise-se alguns sentidos para a palavra “liso”:
  1. Franco, lhano, sincero, leal (sentido figurado).
  2. Pessoa esperta, difícil de ser apanhada, escorregadia (Florianópolis, Santa Catarina, Brasil).
  3. Sem dinheiro (uso popular em Portugal e no Nordeste do Brasil).
Em 1988, ao vir morar em Santa Catarina, ao dizer que estava “liso”, para significar a minha penúria financeira, alguém me respondia: “Ai é, tu és liso?”. Então, entendi que liso é alguém muito “vaselina”, pessoa pouco afeita a se comprometer e com um discurso dúbio ou bem agradável aos ouvidos de toda a gente. Então, me esclareceram que ficar sem dinheiro é ficar “duro”, o que em Portugal e Angola daria origem a interpretações bem maliciosas. Como dizia repetidamente a minha avó Laudelinda: “cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso”.

Cabe aqui recordar o trecho de uma poesia de gaúcho (o povo que se considera “o mais macho do Brasil” ou “machucado”, como dizem os “Catarinas”), numa veia bem “gaudéria” (malandra), que elucida o uso do termo “liso” no Sul do Brasil:

C... de lombo liso
É como um jundiá fora d’água
Que a china olha com mágoa
E agarra com devoção
É mais liso que sabão
Cruza matos e espinhos
No meio da escuridão

Recorde-se que o jundiá é um tipo de bagre, praticamente, sem escamas; quanto ao termo C..., você interpreta como quiser – dê asas à sua imaginação – porque é escrito e usado com o mesmo sentido em todos os países lusófonos.

Como o Acordo Ortográfico é mais obra de políticos do que dos povos lusíadas, então, não poderíamos deixar de fazer aqui uma referência à “lisura” de quem nos governa, quando entra num estado de eminente “dureza”, conforme um blog brasileiro:

O blog do Noblat e o ex-blog de César Maia esquentam a chapa de Okamotto. O prefeito do Rio divulga os números das contas do amigão de Lula. E Noblat conta que, "no segundo semestre do ano passado, um destacado senador da CPI dos Correios foi procurado pelo empresário mineiro Marcos Valério, um dos principais operadores do mensalão. - Estou duro de dinheiro. Diga isso a Okamotto - pediu Valério."

Finalmente, quero destacar a criatividade popular brasileira na recriação da língua portuguesa. Ao chegar ao Brasil e ao concluir o meu mestrado na Escola de Engenharia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, expressei a minha concordância com um Professor Orientador argentino que disse a uma mestranda para retirar da dissertação a palavra “graficar”, pois ele dizia com razão que essa palavra não existia em Português. Perante os meus comentários, um colega me disse: “Lúcio, você vai ver muitas vezes que aqui, no Brasil, qualquer substantivo vira verbo”. Então,
“bloga-se” o Acordo Ortográfico! Viva a flexibilidade da Língua Portuguesa, a nossa Pátria!

Um grande abraço do Kabiá-Kabiaka.

Quarta-feira, Setembro 19, 2007

DESTINO DO BRASIL

Certamente, todos já topamos em alguma ocasião com um pensamento que diz, mais ou menos, o seguinte: semeia um pensamento, colherás uma palavra; semeia uma palavra, colherás uma ação; semeia uma ação, colherás um hábito; semeia um hábito, colherás um caráter; semeia um caráter, colherás um destino. Efetivamente, em primeira instância, os nossos pensamentos determinam quem nós somos... “Nós somos o que pensamos”, dizia Buddha.

Vivemos aqui, no nosso mui amado Brasil, no meio da gritaria contra a impunidade da grande quantidade de políticos corruptos, que têm sido flagrados na apropriação do erário público em seu benefício pessoal e dos seus grupos de influência. Aliás, este é um mal que grassa, em menor ou maior grau, em todos os países lusíadas. Ainda, hoje, disse para os meus alunos do sétimo semestre de engenharia civil que eles deveriam se revoltar mais contra certos “pequenos” hábitos que eles mesmos praticam ou desculpam e não contra os hábitos dos políticos que nos (des)governam. Isto porque esses políticos são o resultado e não a causa do que nós mesmos somos. Eles são os frutos e não a árvore. A qualidade dos políticos que governam uma nação é fruto da cultura do povo – a árvore – que os apóia e elege. Jesus disse que “a árvore má não pode produzir bons frutos, assim como a árvore boa não produz maus frutos”. Realmente, como sempre acreditei, “cada povo tem o governo que merece”.

Assim, para aperfeiçoar o governo e o destino de um país, então, deve haver um crescimento do seu povo em termos de cultura, educação e conhecimento, pois como disse Confúcio a respeito dum seu discípulo muito afeito a hábitos pouco corretos: “madeira podre não pode ser esculpida, uma parede de esterco não pode ser caiada”. (Anacletos 5:10).

Em suma, se queremos mudar o governo do país em que vivemos, vamos dar melhores exemplos de ética e cidadania e iniciemos um novo movimento de idéias que resultem em novas visões da realidade, traduzidas em palavras, ações, hábitos e caráter individual e coletivo.
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Um grande abraço do Kabiá-Kabiaka.

Sábado, Setembro 08, 2007

A LEI DA AÇÃO E REAÇÃO EM ANGOLA

Dois membros do bureau político da UNITA embarcaram no vôo da TAAG de Luanda para Londres.

Um deles sentou-se à janela e o outro no assento ao lado, portanto, no meio. No momento da decolagem, um camarada do MPLA pegou o assento do corredor, vizinho dos dois maninhos da UNITA. O emepelista tirou os sapatos, mexeu os dedos dos pés e estava se ajeitando quando o kwacha da janela disse:

- Acho que vou levantar-me e pegar uma Coca-Cola.

- Sem problemas, disse o emepelista. Eu pego pra você.

Um dos kwachas pegou o sapato do emepelista, enquanto este pegava a Coca-Cola, e cuspiu dentro. Quando veio a bebida, o kwacha que viajava no assento do meio disse:

- Parece boa. Acho que eu vou querer uma também.

Novamente, o emepelista gentilmente levantou-se para buscar outra Coca-Cola e, enquanto ele o fazia, o outro kwacha pegou o outro sapato do político rival e cuspiu dentro. O camarada retornou e todos se sentaram e apreciaram o resto do vôo.

No momento de pousar em Londres, ao calçar novamente os sapatos, o emepelista logo descobriu o que havia acontecido e disse:

- Até quando isto vai durar? Esta briga entre os nossos partidos? Este ódio? Esta animosidade? Estas cusparadas nos sapatos e mijadelas dentro de Coca-Colas?
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Conto a piada com adaptações, depois de lê-la no blog "desbafosangolanos".
Um grande abraço do
Kabiá-Kabiaka.

Sexta-feira, Setembro 07, 2007

ANIVERSÁRIOS

Um Aniversário Feito Esperança

Hoje é o 185º. aniversário da Independência do nosso Brasil. Digo nosso porque, apesar de eu ter a nacionalidade portuguesa, me sinto essencialmente um Lusíada e, como Guerra Junqueira e Fernando Pessoa, gosto de dizer que “a minha Pátria é a Língua Portuguesa” cuja obra literária maior é “Os Lusíadas” de Luís Vaz de Camões. E, sem dúvida, a maior obra sócio-político-geográfica dos povos Lusíadas foi o nosso Brasil, ao qual um escritor estrangeiro chamou em 1941 de “Um País do Futuro”.

Quis também a Divina Providência que eu nascesse neste dia, precisamente, há 54 anos. Porém, sou eternamente grato ao meu pai que entrou na igreja para me pôr o nome de Mário Orlando e, no momento decisivo de transmitir o nome ao padre, resolveu sentenciar que eu seria Lúcio Flávio, aliás, um nome muito mais brasileiro. Imaginem que no meio de toda essa criatividade e improvisação do meu Mais-Velho eu fosse chamado de “Setembrino do Sete de Setembro”, como já ouvi existirem alguns no Brasil, em homenagem ao dia do seu nascimento na maior data da “Pátria amada, idolatrada...” (trecho do hino brasileiro). Seria de “chorar em alemão”, como soe dizer-se aqui em Blumenau-SC.

Dois eventos recentes me deixam bastante esperançoso quanto ao futuro do país que me adotou como filho e onde, em retribuição, eu resolvi ter e criar dois filhos biológicos e três adotivos.

O ex-corredor de Fórmula 1 Nelson Piquet teve a sua habilitação de motorista comum apreendida e viu-se obrigado a fazer um curso de reciclagem em direção/condução defensiva, para ser reabilitado. Ele explicou à imprensa que em Brasília, onde ele mora, existe muita variabilidade dos limites de velocidade, às vezes numa mesma rua, o que induz o motorista ao erro de ultrapassar frequentemente a velocidade máxima especificada, porém assumiu humildemente os seus erros e acrescentou que precisava de “criar vergonha na cara”.

Ainda, na semana pretérita, saiu uma primeira condenação pelo Supremo Tribunal Federal dos políticos mensaleiros, ligados ao partido no poder, que montaram um esquemão de corrupção para se apropriar do erário público em benefício pessoal e partidário. Caso nunca visto na História do Brasil! É obra!...

Assim, posso ter esperança em dias melhores para o nosso Brasil, quiçá, até que ele se torne a breve prazo o “país do futuro”, como profetizou o escritor austríaco Stefen Zweig em 1941, quando viveu no Rio de Janeiro com a sua segunda mulher Lotte, para fugir das atrocidades ocorridas na Europa durante a Segunda Guerra Mundial.

A concluir, contudo, como diz o velho provérbio, “cuidados e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém”, por isso, é bom também atentar para as reflexões dos mais pessimistas: “Estamos tão no fundo do poço, em matéria de práticas políticas, que, mesmo diante de uma decisão histórica como a do Supremo Tribunal Federal, é duro acreditar que as coisas venham, mesmo, a mudar” (Roberto Pompeu de Toledo, in Veja, 4/9/2007).

Muda Brasil, MUDA!

Um Aniversário Feito Certeza

A data do nosso aniversário é o dia ideal para marcarmos encontro com os nossos maiores desafios de auto-superação pessoal.

É o dia ideal para o reencontro especial com a saga da nossa própria Vida.

É o dia ideal para descobrir as respostas para as grandes interrogações da nossa Vida.

É o dia ideal para romper mais uma fronteira no universo do autoconhecimento e verificar que este é mais vasto do que possam pensar as mentes vãs e comuns que muito injustamente nos costumam avaliar.

É o dia ideal para recordar quantas vezes já transformamos adversidades em vitórias, demos a “volta por cima”, indicando à nossa mente e espírito que, mais à frente, só poderá existir uma VIDA MAIOR E MELHOR...

Por tudo o que atrás escrevi, eu comprei no dia de hoje um livro com o título “O Líder do Seu Destino: respostas para a vida” e nele escrevi a seguinte dedicatória:

A você,
Meu melhor Amigo,
A quem mais estimo,
A quem dedico o melhor do meu respeito.
Nesta fase tão difícil de uma vida
Que brilhantemente completa mais um ano
De porfia,
Luta abnegada,
Pautada por crenças e valores superiores,
Pelo Grande Espírito abençoados...
A você,
Dedico esta obra inspiradora,
Regeneradora,
De um novo Recomeço,
De uma nova Sina...
A você, meu melhor Amigo,
Que abaixo se assina:
Lúcio Flávio da Silveira Matos.
Blumenau, 07 de setembro de 2007.


PS. Há um provérbio que diz: “setembro, ou seca as fontes ou leva as pontes”. Como no setembro em que eu nasci, no planalto do Huambo-Angola, já tinha passado a estação do Cacimbo e as fontes não estavam mais secas, no início da estação das Chuvas, então, só podem jorrar de mim águas caudalosas que exigem a construção de sólidas pontes, para não serem arrastadas na minha correnteza da Vida para o Oceano Infinito...

Um grande abraço do Kabiá-Kabiaka.

Segunda-feira, Agosto 27, 2007

CORAÇÃO DE CRIANÇA



O meu coração de criança
É o rio profundo
Feito esperança
Em que afundo...
O meu coração
Balança,
Dança
E mergulha na vida feita criança!...

Lúcio Huambo
Blumenau, 27/08/2007.

Sábado, Agosto 25, 2007

O BARULHÃO DO ARRANCADÃO

Hoje, também, curti o barulhão do Segundo Arrancadão de Blumenau. Então, curta comigo nos vídeos!
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Quantas vezes precisamos de um "arrancadão" que nos acorde da letargia em que a rotina nos faz esquecer de nós mesmos e do propósito maior da nossa existência?

Quantas vezes precisamos de um "arrancadão" que nos tire da visão pessimista e negativa que a propaganda de certos sistemas ideológicos nos quer impingir sobre o nosso passado com o intuito exclusivo de nos minar a auto-estima e o auto-respeito?

Quantas vezes precisamos de um "arrancadão" para renovar a esperança do dia-a-dia no futuro promissor que nos está reservado?

Pense nisso!

Um grande abraço do Kabiá-Kabiaka.

A PARÁBOLA DAS FORMIGAS

Rainha e obreiras (In http://pt.wikipedia.org).

O holandês Franz de Waal, de 59 anos, é considerado atualmente o maior dos primatologistas e, como tal, também, é um estudioso das relações sociais de diversas espécies e ordens de bichos, tendo em vista compreender melhor o comportamento do mais notável dos primatas – o ser humano. Em entrevista que li recentemente ele diz o seguinte sobre o péssimo hábito que o bicho-homem tem de se envolver em guerras fratricidas: “As formigas são os bichos que mais se devotam à guerra no planeta. Possuem exércitos regulares, com tarefas bem definidas para cada pelotão, e promovem matanças de grupos rivais. Mas nem entre elas existe algo equivalente ao genocídio, o assassinato maciço de outro grupo da mesma espécie. Só mesmo o homem é capaz disso em todo o mundo animal.” (in Veja, 22/08/2007, grifado nosso).

O trecho da entrevista acima transcrito trouxe à minha mente uma avalanche de recordações e idéias que me têm ferido a sensibilidade há muito tempo e que resolvi verter na parábola que vou passar a contar.

Num tempo em que o planeta Terra era só habitado por formigas, estourou uma grande guerra entre dois grupos rivais dum determinado país.

Muitas formigas guerreiras não sabiam bem por que estavam tão dispostas a dar a própria vida no campo de batalha, apenas percebiam que as suas comandantes eram suficientemente persuasivas para levá-las a odiar as irmãs do grupo político rival. Cada uma só pensava em apagar completamente qualquer rival que lhe aparecesse pela frente.

Aquela guerra terrível entre formigas compatriotas durou mais de vinte e sete anos e só terminou porque a formiga-rainha de um dos grupos foi morta, após ter sido atraiçoada por algumas das suas operárias guerreiras e por aliadas estrangeiras que forneceram ao grupo inimigo a exata localização da sua comandante-em-chefe.

Que bom, acabou a guerra! – disse o povão formigueiro que aproveitou para dançar nas ruas durante quase 24 horas ininterruptamente, até ao nascer do sol do dia seguinte; toda a festa do Zé Povão era justificável, após o longo cansaço de ter sido usado e aniquilado pelo fogo entre os dois grupos conterrâneos, como o “o mexilhão que sempre leva a pior quando o mar bate na rocha”.

O pior é que feitas as contas da mortandade, chegou-se à triste conclusão que os 27 anos de guerra tinham dizimado mais de 3 milhões de formigas daquele país, um verdadeiro genocídio antes nunca visto em todo o planeta dominado pelas formigas. Será que as formigas desse país já estavam um degrau acima das restantes, no caminho para se transformarem em formigas-humanas? Não era possível, mas era uma questão a ser investigada cientificamente...

Outra conseqüência trágica daquela guerra fratricida tinha sido a quantidade de formigas mutiladas pelas minas terrestres. Falava-se em cerca de um milhão, sem pernas, braços ou algo mais. Uma verdadeira tragédia que parecia não conhecer fim, pois se dizia que o terreno estava cheio de minas perigosíssimas prontas a matar e mutilar uma quantidade infindável de formigas que porventura ousassem voltar à vida pacífica e normal no meio rural, onde teriam forçosamente de percorrer os seus antigos caminhos de trabalho organizado e próspero.

Calma! Eis que surge uma luz no fim do túnel! Outro país de formigas laboriosas e pouco afeitas à guerra, nas margens ocidentais do Atlântico Sul, tinha inventado um helicóptero que fazia a desminagem de modo bem acelerado. Uma lobista representante da fábrica de tais helicópteros deslocou-se ao país minado para fazer a proposta de venda pela módica quantia de 450 mil dólares por unidade, dentro de um programa a fundo perdido da OFU – Organização das Formigas Unidas, que estava muito interessada em que tudo voltasse o mais rapidamente possível à normalidade no país das formigas que tinham cessado recentemente as hostilidades. Algumas formigas-ministras manifestaram o grande interesse do seu governo na aquisição dos helicópteros para a desminagem e fizeram uma proposta – muito estranha para a lobista e muito familiar para elas, ministras – o preço de cada helicóptero deveria ser aumentado para 3 milhões e 200 mil dólares, devendo reverter a diferença de preços totalmente em benefício de alguns membros daquele governo, pois tinham feito grandes sacrifícios pessoais para conseguir derrotar o grupo rival e achavam-se merecedoras desse prêmio. Como a OFU não aceitou o preço incrementado, por ter sido considerado exagerado ao ser comparado ao de outro helicóptero similar fabricado por outro país de formigas que habitavam para os lados do extremo oriental do Mediterrâneo, e com o qual não era possível haver “esquema”, então, o magnífico negócio dos helicópteros-sapadores simplesmente não aconteceu... A maioria da população nacional que tinha se acumulado durante a guerra em grandes aglomerados urbanos, sem grande qualidade de vida, teve medo de regressar ao campo porque os trabalhos de desminagem continuaram a se processar em passo de caracol e não de formiga...

Não sei por que é que resolvi escrever esta Parábola das Formigas (?)... Talvez, porque eu sou um fã incondicional do Grande Mestre que tinha o hábito saudável de falar desse modo às pessoas que o seguiam, como atesta a declaração: “E não lhes falava nada a não ser em parábolas” (Marcos 4:34). Eu resolvi imitá-lo por saber que seria muito mal compreendido por alguns dos meus leitores, se resolvesse desabafar muito abertamente sobre as tais coisas que me têm ferido a sensibilidade há muito tempo. Realmente, como o Grande Mestre nos ensinou, cada pessoa só compreende as coisas do mundo a partir da sua própria perspectiva. Por isso, Ele ensinou muito por parábolas.

Como ocorreu com as pessoas do tempo de Jesus, as parábolas não mudam em nada os eventos da nossa vida, mas podem nos ajudar a vê-los com outros olhos. A Parábola das Formigas não terá o poder de mudar o que acontece, mas pode mudar as nossas crenças sobre determinados acontecimentos do nosso mundo, sem abrir mais algumas feridas que têm demorado a cicatrizar.

Uma coisa é certa: qualquer semelhança entre o país das formigas assassinas e um país de humanos, eventualmente existente, é a mais pura coincidência! A menos que humanos tenham a possibilidade de se transformar em formigas... Cada um dos leitores é responsável pela proposição dessa possibilidade!

Um grande abraço do
Kabiá-Kabiaka.

Domingo, Agosto 19, 2007

MAPA DA REGIÃO CENTRAL DO KATOFE

Obs.: clicar sobre o mapa para visualizar uma ampliação.

DUZENTOS E FEITIÇARIAS

Estava um dia na frente da loja do Kilamba[1] Vicente, cerca das seis da tarde, a contemplar o infinito das baixas que se vergavam à mística do pôr-do-sol divinal e iam além do rio a desfazer-se, para a esquerda, no morro da Sanzala[2] do Hombo, e, para a direita, a esparramarem-se pelo vale fluvial que serpenteava entre os morros de granito, quando vi vir na minha direção no seu passo seguro e cadenciado o Kimbanda[3] Duzentos, detentor de um porte de sékulu[4] respeitável, apesar de atarracado nos seus 1,60m, coroados majestosamente por um chapéu de feltro de abas cortadas, barba varonil grisalha como convém a um régulo africano, bem calçado por botas de cano de borracha, próprias para o trabalho na chunda[5], cajado numa mão a marcar sobre o chão endurecido pelo cacimbo[6] a passada calma, mas firme, e a catana na outra, instrumento de trabalho e defesa no caminho de casa, esta isolada junto às Pedras do Quiquerengue, a cerca de 5km da povoação dos brancos (clicar sobre o mapa da Região Central do Katofe, acima).
O Kimbanda Duzentos era uma personalidade bastante popular nas paragens mais recônditas da savana do Katofe, quer entre os mbundu[7], quer entre os kindele[8]. Ele era um funcionário dedicado no serviço do gado do Sr. Kimbaça – Emílio Dias – desde que chegara à savana catofeira, proveniente da Sanga, um Posto Administrativo próximo do Katofe, uns 60 km ao sul, indo pela estrada velha de terra batida para Nova Lisboa - Huambo, que passava pelo Bailundo e não pelo Alto Hama, como a estrada nova alcatroada.

Um esboço do Kimbanda Duzentos.

O Mais-Velho Duzentos, como eu gostava de chamá-lo, era muito respeitador de todos e sempre achei que as suas artes de Kimbanda passavam mais pela elaboração de milongos[9] e evocação dos espíritos dos antepassados para curar as pessoas que o consultavam e não tanto por feitiçarias que trouxessem desgraça a alguém. Eu gostava muito de questioná-lo, quando já era estudante do Liceu General Norton de Matos, em Nova Lisboa, e ficava a trabalhar na loja durante as férias, onde ele entrava no final do serviço para tomar uns tragos de vinho tinto do Puto[10], de vez em quando, já que na loja do patrão Vicente era puro da uva, sim senhor, não era bacaxis[11] nem Bangasumo baptizado[12].
A conversa discorria, mais ou menos, assim:
- Oh, Duzentos nunca mais és promovido, quando é que passas a Duzentos e Cinquenta? - provocava eu.
- Não, minino. Eu vou morrer mesmo Duzentos, senão dá muita confusão, não é bom trocar de nome, pode dar azar - respondia o Kimbanda.
- O que é isso de azar? É feitiço? Feitiço não existe... Só pessoa que não estuda é que acredita em feitiço. Já viste algum branco que acredita em feitiço? - eu provocava, novamente.
- Ele ripostava: Aka
[13], minino! Branco é que tem mais feitiço! Branco tem feitiço demais, yá vika[14]! Vê só, carro tem muito feitiço, se vai no estrada na frente de carro é capaz de perder a vida! Aqui, a catana[15] ele passava suavemente a ponta do polegar sobre o fio da catana que trazia sempre com ele – a catana, vê só, tem muito feitiço. Quem fez isso tudo que pode tirar a vida co dipressa? Foi o branco! É mesmo, também tem muito feitiço, mesmo, branco é quem tem mais feitiço do que preto... Tudo que pode tirar a vida tem feitiço! Carro tem feitiço... Tractor tem feitiço... Catana tem feitiço... Espingarda tem feitiço...
- Então, quer dizer que quando tu fazes feitiço é para tirar a vida de alguém? É por isso que nunca mais vais chegar a Duzentos e Cinqüenta! - instiguei assim ele a falar mais.
- Aka, minino, não fala isso... Minino tem muito esperto... Eu quer dizer que feitiço é vida, eu não quer tirar vida de ninguém, não, mesmo. - retornou ele, rindo muito.
- Toma cuidado com esses teus feitiços e milongos, porque se tu me colocares feitiço e eu ficar mal, então, eu vou te queixar no Soba da Banza, o Soba Sebastião, e ele vai te levar preso lá na Administração da Quibala. - eu acrescentava uma nova provocação.
- Não, minino Lúcio, preto não pode fazer feitiço para branco. É branco só que faz feitiço para branco. - disse ele, para término de conversa.
Naquele dia, eu fiquei a entender que para o Mais-Velho Duzentos a feitiçaria era um sinônimo de tecnologia e que os feitiços que ele fazia eram racistas, não podiam atingir os brancos. Se ele não me convenceu muito quanto à sua definição de feitiço, pelo menos, deixou-me bem tranqüilo quanto às conseqüências dos seus trabalhos esotéricos.


O autor nos tempos das divagações filosóficas com o Kimbanda Duzentos.

Um outro dia na loja, após uma amigável parceria de copos de tintol do Puto, o Mais-Velho Duzentos travou-se de razões com o José Lucas Candeeiro. O José Lucas Candeeiro era um funcionário bailundo[16], dos Serviços Veterinários de Angola, nascido no Longonjo, na Serra do Lépi, no Huambo, que auxiliava o Ajudante de Pecuária, ou seja, o técnico que vivia na povoação para manter o gado devidamente vacinado. O Candeeiro gostava de se abastecer diariamente de petróleo de uva, ao terminar a sua faina de vacinação, a tal ponto que nós sempre lhe perguntávamos:
- Como está o Candeeiro, já está aceso, ou apagado?
Quase sempre ele respondia: está apagado, está apagado! Vamos encher mais petróleo no Candeeiro!
Mas, voltando à discussão dos parceiros de fim de tarde, a páginas tantas, depois de terem discutido bastante em kimbundu
[17], o Candeeiro resolveu encostar à parede o velho Kimbandeiro com esta:
- Olha cá senhor Duzentos, não adianta o senhor Duzentos querer me meter medo, não, eu não tenho medo do seu feitiço; o seu feitiço não pega em mim, eu não sou do teu povo! Feitiço de Kimbundu não pega em Ovimbundu!
Só nesse dia é que eu entendi que os espíritos e os feitiços africanos, além de racistas, eram também tribalistas.


[1] Kilamba – pessoa sábia.
[2] Sanzala – aldeia africana.
[3] Kimbanda – feiticeiro e curandeiro.
[4] Sékulu – velho.
[5] Chunda – curral do gado, estábulo.
[6] Cacimbo – estação seca de Angola, quando o frio se faz sentir com muita neblina durante a noite.
[7] Mbundu – homem negro.
[8] Kindele – homem branco.
[9] Milongo – remédio feito com ervas do mato.
[10] Puto – Portugal.
[11] Bacaxis – vinho de abacaxi.
[12] Bangasumo batizado – marca de vinho angolano de abacaxi, geralmente, adulterado com mistura de água.
[13] Aka – interjeição de admiração, como “puxa”.
[14] Yá vika – muito.
[15] Catana – facão de lâmina larga bastante usado em Angola para cortar mato.
[16] Bailundo – nativo de Angola da etnia Ovimbundu.
[17] Kimbundu – etnia e língua de Angola.

Sábado, Agosto 18, 2007

MENINICE NA SAVANA

Só o Malua tinha toda a paciência para proporcionar ao seu Kabiaka um passeio tão confortável como este pelas picadas da savana, enquanto o menino Paga-Fogo exercitava as kinamas.


PASSADO PRESENTE

Porto, 13/11/1982

Na janela, as gotas do vapor condensado...
Na retina, as imagens por ele coadas do exterior...
Sinto-me mais só, mais recolhido, mais confortado...
Lembro-me das coisas tristes e belas dum passado teimosamente presente;
Sinto no corpo as riquezas e pobrezas da minha terra distante...
A pele empolada pelo sol escaldante;
Nas veias, o sangue dos heróis duma guerra insensata;
No coração, a angústia e o ódio dos eternos escravizados;
Na mente, a desilusão dos efêmeros desterrados.
Ainda me lembro da meninice livre e despreocupada;
Nas costas do Malua, explorando a savana;
Tagarelando o “kimbundu”;
Mastigando o “salalé”;
Saboreando o “tortulho” e o “funge”;
Caçando os pássaros com fisga e visgo;
Esfolando os sapos com precisão milimétrica;
Calcorreando as “picadas” estreitas e sem fim;
Os pés saltando nas poças enlameadas;
As sandálias filtrando o pó dos “carreiros gentios”.
Vejo cair a chuva copiosa e morna,
Numa harmonia compassada pelas trovoadas ensurdecedoras,
O vapor subindo da língua alcatroada,
O asfalto derretido pelos raios abrasadores,
O pôr do sol cor de fogo,
O “cacimbo” do frio penetrante,
As colunas fumegantes das “queimadas,”
O “capim” verde das primeiras chuvadas,
As altaneiras pedras negras da “fazenda”,
As “baixas” infinitas duma terra acabada.
Tudo acabou! Tudo passou! Mas tudo está presente!

Quinta-feira, Agosto 16, 2007

A DÉCIMA ILHA VISTA DO SATÉLITE

Obs.: por favor, clicar sobre o mapa para visualizar uma ampliação.