domingo, abril 12, 2009

QUEM TEM RAÇA É CACHORRO!


O Brasil é o país onde a maioria da população, ao ser perguntada sobre a sua cor, responde simplesmente:

- "Moreno".

A resposta sugere que o grosso da população brasileira não tem a certeza sobre a cor da sua pele, nem se interessa em sabê-lo, porque não considera isso muito importante; todavia, o atual governo federal esmerou-se em parir uma ideossincrasia com a criação de um órgão ministerial com o título pomposo de "Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial", para gáudio dos amigos a quem arranjou mais uns encostos empregatícios no aparelho estatal, e estupefacção ou apreensão dos opositores, e brasileiros em geral, que têm assistido à criação do racismo por via institucional num dos países menos racistas do mundo, ou, com toda a certeza, muito menos racista do que os países onde o atual governo brasileiro tem buscado inspiração para as suas desastradas medidas de "Ação Afirmativa".

Assim, o chefe do governo na sua costumeira verborragia comicieira, que encanta os seus mais diletos apaniguados, tem culpado genericamente a "elite branca" nacional pelos males do país e a "gente de pele clara e olhos azuis" dos países do norte pela recente crise econômica mundial, esquecendo que os acusados também são os principais agentes do desenvolvimento brasileiro e mundial. 

Enquanto a demagogia corre solta, a sua inútil "Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial", apenas, se destacou pelo uso indevido do cartão de crédito corporativo em compras de "Free-Shop", em aeroportos, ou no "Bar Amarelinho", no Rio de Janeiro, em benefício de uma secretária-ministra já demitida. Também, as leis aprovadas no Congresso Nacional visam objetivos exatamente contrários dos que dizem pretender atingir, isto é, criam "cotas raciais" que conferem a pretensos brasileiros negros - deixando exclusivamente a estes o direito de se definirem como tal - privilégios no mercado de trabalho, universidades e concursos públicos, em detrimento dos brasileiros que se definem como brancos ou ameríndios.

O advogado negro José Roberto Militão chegou a escrever no jornal "O Estado de S. Paulo":

"Os defensores das leis raciais ludibriam a boa fé alegando que cota racial é ação afirmativa. Ação afirmativa, de fato, é outra coisa: é a efetiva atuação da autoridade para coibir a discriminação contra minorias e multiplicar oportunidades, sem criar cotas, exigir reparações pelo passado ou restabelecer diferenças de direitos. Ao Estado cabe atuar para destruir a crença em raças. Leis raciais não servem para a redução das desigualdades entre brancos e pretos, pois atacam os efeitos, mas aprofundam as causas".

Depois do esclarecimento sábio do Dr. José Militão, um dos potenciais beneficiários das leis raciais do atual governo, concluimos que essas iniciativas induzem ao perigo de se passar da "distinção" à "divisão", o que está na contra-mão da integração harmoniosa das múltiplas origens da população brasileira.

Para concluir, nada melhor do que a frase do escritor baiano João Ubaldo Ribeiro: quem tem raça é cachorro!

Um grande abraço do Kabiá-Kabiaka. 

sábado, abril 11, 2009

DE SETE ORELHAS A MANUEL DAS CURVAS – Parte 2

O Manuel das Curvas ou “Manel das Curvas” era uma das figuras mais castiças da nossa aldeia do Katofe. Digamos que sem ele o Katofe seria uma incompletude iconográfica. Ele certamente era um dos principais responsáveis pela imagem predominante do Katofe que se gravou na mente de um camionista que parava frequentemente num dos bares para almoçar e que atirou a seguinte máxima:

-        Quando se passa durante a semana no Katofe quase não se vêem açorianos, mas no domingo ou durante as Festas do Espírito Santo, principalmente, quando há uma briga com alguém de fora, eles parece que saem do meio do capim como se fossem chineses.

Realmente, o Manel das Curvas era um daqueles que, à semelhança do Sete Orelhas, “pagava um boi para não entrar na briga e uma boiada para não sair”, sobretudo quando vislumbrava alguma oportunidade de atuar como justiceiro, todavia sem chegar ao extremo de arrancar as orelhas dos adversários, pois ele achava que pegar qualquer instrumento além dos próprios punhos para dirimir as desavenças era lutar “à falsa fé”, para usar a sua própria expressão. Outra atitude que ele designava por falsa fé era um dos contendores iniciar a luta de repente sem uma troca de palavras preparatórias ou algum ritual prévio que usava desde as lutas de escola, que era, por exemplo, passar a ponta do indicador na ponta do nariz do outro.

O Manel das Curvas recebera o nome de batismo de Manuel Vitorino Nunes, na sua freguesia do Topo, na Ilha de S. Jorge, Açores. O apelido vinha-lhe dos primeiros tempos de Angola, dado por açorianos e kimbundus, que se divertiam ao vê-lo dar as primeiras andanças de bicicleta em curvas sucessivas, para um lado e para outro, para assegurar o equilíbrio em avanço lento. Quando chovia, as poças que predominavam nas principais ruelas do Katofe, tornavam a observação do Manel da Curvas no domínio da bicicleta ainda mais divertida.  Com o tempo ele se tornou um exímio ciclista como todos os açorianos que na sua chegada ao Katofe adotaram a “chica”, como se dizia em Angola, por parceira preferida de viagem.

O Manel das Curvas tinha um nariz adunco, usava o cabelo apartado com um risco à direita e penteava para cima e para a esquerda as melenas com brilhantina ou bem molhadas e untadas levemente com sabão, para não caírem. Quando a franja secava, então, ficava solta ligeiramente para a esquerda e a encobrir parte da testa. Na frente das orelhas, o cabelo bem aparado crescia para baixo em patilhas ou suíças que certamente acertava frequentemente com o aparelho de barbear. O rosto era assimétrico e contribuía para destacar essa característica o afundamento de uma das maçãs do rosto, relativamente à outra, com certeza, como recordação de uma das suas lutas menos gloriosas. A completar a descrição dos traços mais marcantes que me pairam na memória, resta a boca ligeiramente torta, com um canto mais rebaixado, quiçá pelo hábito de manter ali um cigarro quase sempre aceso. Das suas marcas que mais me comoviam era ouvi-lo falar da sua filha mestiça que procurava proteger com muito carinho e que chegou a levar para Portugal, na sua saída de Angola, em 1975.

O Manuel gostava de recordar algumas das suas lutas e render aos adversários as homenagens que ele achava mais merecidas. Uma das descrições mais divertidas de ouvir era a que ele fazia de uma luta que teve com o Mendonça; estavam a construir uma ponte perto da chitaca do tio, António Vitorino Nunes, quando se travaram de razões, mas considerou a luta empatada porque conseguiu derrubar o adversário no chão, mas ao tentar esmurrar-lhe a cabeça, “o Mendonça driblava os murros como se fosse um melro ou um tintilhão”, os pássaros que ele mais recordava dos tempos de infância, que tremulavam a cabeça para um lado e outro, alternadamente. Disse que no mesmo local lutou com o Velho Ernesto Faustino, mas a batalha teve que ser suspensa porque conseguiu colocar o adversário dentro do riacho e este teve um princípio de “congestão”. Aliás, o Manel das Curvas gostava de afirmar à boca cheia, para quem quisesse ouvir, que não tinha medo de nenhum Pascoal (Faustino), apesar dos Pascoais serem afamados em luta desde os tempos de juventude na Ilha de S. Jorge, porque sempre que lutou com um Pascoal este sempre batia primeiro “à falsa fé”. Esta declaração valeu-lhe depois uma dura punição, como se verá mais adiante.

A luta que assisti por inteiro do Manel das Curvas foi com o Rabaça. À época o Rabaça, um rapaz beirão, chegado há pouco tempo de Portugal, trabalhava na loja nos baixos da casa do Velho Kimbaça, o Sr. Emílio Dias. A loja do meu pai ficava bem ao lado. Acontece que o Manel das Curvas estava na nossa loja e viu que o ajudante do Rabaça conseguiu persuadir uma cliente que já estava a trocar o seu milho na nossa loja a se mudar para a loja do lado. Então, o Manel das Curvas não achou essa atitude do rapaz muito elegante e avisou o Rabaça que iria ajustar as contas com o rapaz no fim do serviço, pois já era fim de tarde. Ocorreu que o ajudante do Rabaça conseguiu escapar para a sanzala no fim do serviço ou antes, sem ser visto pelo Manel das Curvas. No fim do expediente, estava montado o cenário completo para o Manel das Curvas ajustar as contas com o próprio Rabaça que foi acusado de encobrir a fuga do seu ajudante.

O Manel esperou que o Rabaça fechasse a loja e chamou-o para conversar na eira, na frente da casa do Sr. Emílio. No meio da discussão, o Manel começou a passar a ponta do indicador na ponta do nariz do Rabaça e este iniciou a luta atirando-se ao desafiante como se fosse um galo de briga. Após a troca de uns murros e rasteiras, com o Rabaça dominado debaixo do Manel, entrou em ação a turma do deixa disso e o Rabaça acabou com uns leves arranhões e um pequeno hematoma no rosto. Então, com os dois em pé, um de frente para o outro, o Manel disparou a sua sentença final:

-        Isto é só para tu saberes que um estransmontano nunca brinca com um açoriano! Ouviste Lambáça?

Quando recordo essa luta do Manel das Curvas, nunca deixo de rir, principalmente, por causa daquela declaração final que ficou gravada definitivamente na minha memória. Uns meses depois na hora da missa, no bar do Branco, onde o Rabaça foi trabalhar, o Manel fez com ele as pazes.

Em certo baile na Casa do Espírito Santo, o Manel das Curvas resolveu aparar umas arestas com um pessoal de fora da terra... A dado momento, eu vi o Velho João Faustino vir em disparada, o Manel das Curvas tentou fugir por uma das saídas do recinto que dava para um corredor, mas encontrou a porta fechada; o Velho João Faustino disparou no Manel uns canhotos certeiros, até que este se desvencilhou debaixo e conseguiu escapar para a rua, algo contundido. No domingo seguinte, vimos o Manel com o braço direito pendurado com uma faixa branca e alguém lhe disse:

-        Ó Manel, hoje, vieste á missa de gravata?!

-        Nunca nenhum Pascoal me bateu que não fosse à falsa fé – respondeu o Manel das Curvas, que continuou fiel à sua tese sobre a bravura dos Pascoais.

Na continuidade da conversa, o Manuel das Curvas resolveu filosofar como um velho que conhecera no Topo, segundo a sua habitual tirada:

-        O que interessa é acordar com os pés quentes...

A verdade é que numa das minhas visitas aos Açores, bem antes de vir para o Brasil, soube que o Manuel das Curvas abatido pela tristeza do exílio africano na sua freguesia natal, logo após a descolonização, resolveu desistir de acordar com os pés quentes e enforcou-se. Triste sina de um amante da luta que desistiu de lutar pela vida...   

A todos os que me lêem,um grande abraço do Kabiá-Kabiaka.

sexta-feira, abril 10, 2009

DE SETE ORELHAS A MANUEL DAS CURVAS – Parte 1

Quando li pela primeira vez as aventuras do “Sete Orelhas” pensei em fazer umas correlações com algum personagem do Katofe que me trouxesse à memória cenas interessantes presenciadas durante a juventude na Décima Ilha dos Açores plantada na savana do centro do Kwanza Sul-Angola. Então, me lembrei do Manuel das Curvas. Mais adiante serão discernidas as razões da relação estabelecida.

Sete Orelhas era o apelido de Januário Garcia Leal, dado por razões que já deduzirão a seguir. Todavia, antes de qualquer julgamento pré-concebido por alguém que já tenha lido sobre ele, digo que o que mais me chamou a atenção na sua história foi o seu íntimo desejo de justiça, principalmente, sempre pronto a pagar “um boi para não entrar na briga e uma boiada para não sair” – como diz o mais legítimo gaúcho dos Pampas – em defesa de alguém que considerava injustiçado, aliás, como o nosso Manuel das Curvas das baixas katofianas.

O Sete Orelhas descendia de uma laboriosa família açoriana, com raízes genealógicas mais remotas no casal Diogo Rodrigues e Bárbara Duarte das freguesias de S. Salvador e Nossa Senhora das Angústias, na Ilha do Faial, onde Bárbara faleceu em 08/08/1667. Diogo Rodrigues e Bárbara Duarte tiveram os filhos Francisco Rodrigues e Ana Garcia; por sua vez, Ana Garcia casou com Mateus Luís em 20/06/1664 na Matriz da Vila da Horta, e desse casamento nasceram vários filhos, entre os quais se contaram João Garcia Pinheiro e Diogo Garcia que na década de 1720 demandaram terras brasileiras, mais concretamente de Minas Gerais, e dos quais resultou vasta descendência nestas bandas do hemisfério sul.

O pai de Januário Garcia Leal, o “Sete Orelhas”, chamava-se Pedro Garcia Leal e foi fazendeiro e comerciante na localidade de Talhados, que hoje corresponde ao município de S. João Batista, no Estado de Minas Gerais. Januário seguiu o exemplo do pai e também se estabeleceu como pacato fazendeiro em terras herdadas na mesma localidade mineira. Em 14/11/1801, foi nomeado para o cargo de Capitão de Ordenanças do Distrito de S. José e Nossa Senhora das Dores de Minas Gerais; a Capitania de Ordenança era uma organização da população civil, de caráter militar, para a defesa local em caso de ataque inimigo. Nos anos 1800, Minas Gerais já vivia o final do ciclo do ouro com o concomitante aumento de crise social, criminalidade e outros problemas que o decadente aparato repressivo colonial não tinha eficiência para resolver.

No contexto sócio-econômico da época a ação de Januário Garcia Leal como Capitão de Ordenanças foi muito difícil e teve o teste mais difícil já no ano de 1802, ou seja, no primeiro ano do cargo. Como resultado de uma briga de terras, o seu irmão João Garcia Leal foi barbaramente assassinado na localidade de São Bento Abade por sete irmãos, filhos de um vizinho confrontante. João Garcia Leal foi amarrado nu a uma árvore pelos seus sete algozes que retiraram lentamente a pele da vítima, antes do golpe final de misericórdia. O local desse assassinato é chamado ainda hoje de “Tira Couro”.

Como ocorre ainda hoje em plagas brasileiras, as autoridades policiais e a justiça mostraram-se pouco eficazes na punição dos assassinos de João Garcia Leal. Então, Januário movido pela sede íntima de justiça decidiu associar-se ao seu irmão caçula, Salvador Garcia Leal, e ao seu tio, Mateus Luís Garcia, os três capitães de milícia, que formaram um pequeno grupo armado para vingar o assassinato do seu parente.

Januário Garcia Leal, como comandante do grupo de justiceiros, decidira decepar a orelha direita de cada criminoso caçado, antes da execução à bala. Só depois de decepada a orelha do último criminoso é que Januário Garcia Leal deu-se por satisfeito, tendo dado por vingado o assassinato do seu irmão. Reza a história que Januário juntou as sete orelhas num macabro colar que exibia triunfalmente como um troféu de caça, daí ter recebido o apelido de “Sete Orelhas”.

Nas suas andanças vingadoras, o grupo de Januário Garcia Leal foi considerado pela Corte de D. João VI, o Príncipe Regente de Portugal, como uma ameaça à Sagrada Régia Autoridade, por isso, foi ordenada a sua perseguição implacável por milicianos especialmente designados para tal fim. Contudo, Januário e o seu grupo sempre conseguiram driblar a perseguição dos milicianos e o seu paradeiro, a partir da consumação da vingança, passou a ser desconhecido pelas autoridades do Governo da Capitania de Minas Gerais.

Só muito recentemente, em 2006, pesquisas históricas realizadas no Museu Histórico do tribunal de Justiça de Santa Catarina permitiram o esclarecimento quanto ao destino e os últimos tempos da vida do temido “Sete Orelhas”. Conforme essa investigação, aos 18/05/1808, ocorreu na Vila de Lages, no Planalto Sul Catarinense, o trágico falecimento de um mercador daquelas paragens. Realmente, o temido Januário Garcia Leal, como o mais pacato dos açorianos, morreu no exercício da profissão de comerciante em terras catarinenses, onde se refugiou certamente por ter aqui alguns familiares.

O afamado Sete Orelhas morreu devido a um traumatismo – ironia do destino – na região da orelha direita e com fratura exposta do queixo. Segundo a tradição oral, o “Sete Orelhas” teria morrido devido à queda de uma porteira (viga de um portão de fazenda). O Juiz Ordinário da Villa de Nossa Senhora dos Prazeres de Lages mandou lavrar os Autos do Inventário com a seguinte ordem ao Escrivão e Alcaide do juízo local: “dirija-se ao lugar chamado Lavatudo onde consta morrera violentamente o Capitam Januário Garcia Leal que vinha vindo da Villa de Laguna com hua carregação para deixar nesta Villa e ali fara auto de corpo de delito pa servir no conhecimento a cauza da sua morte exzamiando as feridas e machucaduras que tiver e logo passara a fazer um Eventário de todos os seos bens mandando para esso ovir as pessoas que o acompanhavão para se por tudo em seguro deposito the que seos herdeiros venhao procurar seos bens, visto ser homem de diferente districto e Capitania (...)”.

Januário Garcia Leal não viajava só no dia da sua morte. Era acompanhado pelos seus capatazes Francisco Eloi de Souza e António Rodrigues, e ainda “seu fiel preto escravo da Nação Congo”, António. Conforme consta dos autos do processo, o escravo António já trazia consigo uma carta de alforria que lhe fora passada de próprio punho pelo falecido Capitão Januário Garcia Leal. Assim, à época, na Villa de Lages também foi mandada passar ao servente a Escritura de Alforria e Liberdade, uma vez que “o dito Capitam de sua livre vontade deixa forro ao negro Antonio (...) por lhe ter servido e aturado a suas empertinencias sempre com paciência e em tendo servido como bom Escravo”. Podemos dizer agora que o “Sete Orelhas” teve uma premonição do que lhe ocorreria e resolveu fazer justiça ao seu mais fiel servidor.

A todos os que me lêem,um grande abraço do Kabiá-Kabiaka.

quarta-feira, novembro 26, 2008

A ÁGUA QUE VEIO DE CIMA...

Dizem os blumenauenses que viveram as grandes enchentes de 1983 e 1984, quando o Rio Itajaí Açú se elevou 17m acima do seu nível normal, que “tirariam de letra” esta enchente de 11,54m, ocorrida na madrugada de 24/11/2008. Após, aquelas enchentes foram instalados dispositivos de telemetria em vários trechos do rio, em Blumenau e a montante, que permitem antever com uma antecedência mínima de seis horas os níveis de cheia e gerenciar gradativamente a remoção temporária de veículos, móveis e outros pertences para lugares de topografia mais elevada...

O problema é que desta vez o maior volume de água veio sob a forma de uma cachoeira que se abateu de forma imprevista e muito concentrada sobre o Médio Vale do Itajaí, e despejou a pluviometria de 426mm em dois dias – 23 e 24/11 – o que corresponde a 3 vezes o máximo já documentado no mês de novembro. Realmente, chover em apenas dois dias o triplo do que normalmente chove num mês soa como um terrível castigo dos deuses...

A terra mais superficial virou uma corrida de lama, grandes volumes de solo das encostas dos morros deslizaram e arrastaram vegetação e construções que pareciam fundadas solidamente... Resultado: um autêntico caos com ruas interrompidas, bairros e comunidades isoladas e muitas vidas soterradas... Até ao momento, foram contabilizados 21 mortos em Blumenau e cerca de 10% da população urbana desalojada... A primeira ordem é para resgatar por helicóptero os famintos, feridos e doentes que lutam isoladamente pela sobrevivência... Com o restabelecimento das comunicações terrestres vem a remoção e reconhecimento dos soterrados, cujo número não está totalmente mensurado... Ainda, há desaparecidos...

Como maior vitória tem se apresentado a solidariedade espontânea da população de Blumenau, que supera largamente a insuficiência e desorganização do poder público municipal, estadual e federal para enfrentar o desafio de fazer voltar a normalidade, o que certamente só acontecerá pelo Natal, embora o sabor da respectiva ceia não seja lamentavelmente igual para todos os que habitam esta bela cidade-jardim!

Os vídeos dão uma idéia do que as minhas palavras não conseguem descrever...

Um grande abraço do Kabiá-Kabiaka. 




segunda-feira, novembro 03, 2008

O ÓPIO DO POVO E O DOS INTELECTUAIS

Um dia Karl Marx (1818-1883) proclamou que “a religião é o ópio do povo”. Em nome dessa máxima divisa, os marxistas-leninistas cometeram imensos desvarios e atrocidades, que podem ser contabilizados em milhões de vidas e valores perdidos ingloriamente. Os angolanos que o digam, agora, que o tão decantado Poder Popular já pertence às calendas gregas, embora certo partido mostre imensa nostalgia do tempo em que dizia que ele era o povo e o povo era ele!... Slogans não enchem a barriga de ninguém, quiçá, ainda, sirvam para ganhar eleições mediante propagandas de marketing bem delineadas que soam muito bem aos ouvidos de quem ainda lê muito pouco e, por isso, não tem possibilidades de analisar criticamente todo o que ouve...

Mais perto do nosso tempo, o filósofo francês Raymond Aron (1905-1983) disse que “o marxismo é o ópio dos intelectuais”. Realmente, os intelectuais marxistas assumem uma Aura de onipotência e infalibilidade, porque ficam cônscios de deter o saber maior que orienta “o fim da história”, da suprema evolução da Humanidade que decretou a “morte de Deus”, ou melhor, de todos os deuses, exceto eles próprios – os marxistas. Eles são a personificação do Super-Homem pregado por Nietzsche, com a inigualável função de orientar a sociedade do seu elevado trono de intelectualidade com sentido redentor. Claro que uma ideologia assim exerce um fascínio irresistível sobre os intelectuais, pois hes permite assumir uma perspectiva de poder, influência e prestígio que não seria conferido pelo mero compromisso com a defesa das liberdades democráticas.

Esse fascínio por assumir o papel de Vanguarda é algo que se vislumbra facilmente no brilho dos olhares dos intelectuais marxistas, quando dissertam orgasticamente sobre as suas idéias que já se mostraram totalmente falidas na prática, pois levaram às ditaduras mais brutais que se conheceram no século XX, nos tempos gloriosos dos governos leninistas, stalinistas e maoístas, inclusive, em África.

No caso particular de Angola, a esquerda intelectual ainda defende um aparelho partidário que controle os meios estatais para mais facilmente alcançar benesses materiais individuais e de grupo e os seus fins ideológicos falidos, confundido estado com governo e partido, em desfavor de um povo cada vez mais marginalizado, socialmente, bem ao contrário da verborragia socializante que a elite dominante apregoa. Como dizia um ex-trotskista: “intelectuais que elogiam governos têm algum problema; provavelmente, querem um emprego”. Essa assertiva pode ser facilmente comprovada na nossa terra...

Um grande abraço do

Kabiá-Kabiaka.  

 

terça-feira, setembro 02, 2008

ADEUS

O adeus da tia Maria de Lourdes e do tio José Câmara, em agosto de 1975.




ADEUS




Adeus minha casinha
Onde tantas alegrias vivi...
Não te verei mais, mas sempre serás minha,
Porque os que vierem não te sentirão como eu senti...
.
Foste a minha melhor sombra ao tórrido calor,
O meu melhor aconchego em noites de paz,
E, agora, na guerra que me traz a dor,
Resta-me um breve aceno que em lágrimas se desfaz...
.
Nunca mais te verei... Isso é o que mais me dói!
Pressentindo o temor do que pela frente vem,
De uma guerra insana sem sequer um herói,
Resta-me a esperança de seres cuidada por alguém...
.
Na doce penumbra do meu sonho ido,
Nos meus Açores, entre alterosas águas,
Ao recordar o teu jardim florido,
Sonhar-te-ei sempre linda, sem mágoas!

Lúcio Huambo
Blumenau, 02/09/08

segunda-feira, setembro 01, 2008

BATUQUE

À sanzala do morro além Rio Katofe.

BATUQUE




O silêncio profundo,
Da noite,
Quebrado
Pelo tan-tan ritmado
Da batucada...

É óbito?...
É festa?...

É um canto sentido,
Da Alma expelido,
Compassado,
Que sai da sanzala,
Na montanha,
E desperta o mundo...


Lúcio Huambo
Joinville, 31/08/08.

KATOFE

Ao meu Katofe.
KATOFE



Daqui de longe
Vejo-te como te deixei,
Como sempre te vi,
Como sempre te amei...

As baixas imensas,
Imensas de vacas,
Na imensidão...
Da minha mente.

O açoriano a desbravar
O mato vasto
Para eu pastar,
Na sua vastidão,
Recordações
Que me fazem gente!
Lúcio Huambo
Blumenau, 31/08/2008

terça-feira, julho 29, 2008

PASSADO PRESENTE

Pôr-do-sol no Katofe, em julho de 2008. Fotografia gentilmente cedida por Jorge Oliveira

À terra que me viu nascer,... Angola.



Porto, 13/11/1982

Na janela, as gotas do vapor condensado...
Na retina, as imagens por ele coadas do exterior...
Sinto-me mais só, mais recolhido, mais confortado...
Lembro-me das coisas tristes e belas dum passado teimosamente presente;
Sinto no corpo as riquezas e pobrezas da minha terra distante...
A pele empolada pelo sol escaldante;
Nas veias, o sangue dos heróis duma guerra insensata;
No coração, a angústia e o ódio dos eternos escravizados;
Na mente, a desilusão dos efêmeros desterrados.
Ainda me lembro da meninice livre e despreocupada;
Nas costas do Malua, explorando a savana;
Tagarelando o “kimbundu”;
Mastigando o “salalé”;
Saboreando o “tortulho” e o “funge”;
Caçando os pássaros com fisga e visgo;
Esfolando os sapos com precisão milimétrica;
Calcorreando as “picadas” estreitas e sem fim;
Os pés saltando nas poças enlameadas;
As sandálias filtrando o pó dos “carreiros gentios”.
Vejo cair a chuva copiosa e morna,
Numa harmonia compassada pelas trovoadas ensurdecedoras,
O vapor subindo da língua alcatroada,
O asfalto derretido pelos raios abrasadores,
O pôr do sol cor de fogo,
O “cacimbo” do frio penetrante,
As colunas fumegantes das “queimadas,”
O “capim” verde das primeiras chuvadas,
As altaneiras pedras negras da “fazenda”,
As “baixas” infinitas duma terra acabada.Tudo acabou! Tudo passou! Mas tudo está presente!

segunda-feira, julho 28, 2008

KOTA KIMBAÇA

Frequentemente, a anunciar o romper da aurora na savana do Katofe, fui acordado por pelo chamamento peculiar:

- Oh Juuuustiiiiiiiiiiiiiino! Oh Juustiiiiiino! Oh Juuuusttiiiiiiiiiiiino!

Algumas vezes, os gritos eram entremeados com expressões de apelo ao aprimoramento da alma que passava essencialmente pelo suor da labuta rotineira com as vacas leiteiras, embora sem descurar alguma referência material: “o dinheiro está fundo, vamos trabalhar!”.

-
Pronto patrão! Resposta antecedida por grande assobio que só os pastores sulanos[1] sabiam dar, para conduzir o gado até à chunda[2] para a ordenha da matinal e vespertina ou em dias de vacinação e de capar garrotes.

E, logo, se ouviam os passos apressados do Justino e do filho, seguidos pela sonoridade do diálogo ameno das primeiras ordens do dia do
Kota[3] Kimbaça[4] e o tilintar de baldes e bilhas, limpos de véspera, prontos a sentirem o morno escorrer do leite esguichado das tetas amaciadas por mãos calosas.

O ritual protagonizado pelo Kota Kimbaça – o Sr. Emílio Dias, um dos três primeiros povoadores europeus da savana do Katofe – e o Justino, um esguio pastor bailundo
[5] que se estabeleceu no Katofe desde os primeiros anos da constituição da sociedade Oliveira & Dias – entre os primeiros povoadores João de Oliveira, André de Oliveira e Emílio Dias – era o relógio de despertador para quem morava por perto. Quantas vezes esses ruídos subterrâneos, de tão cedo que se manifestavam, pelas quatro horas da madrugada, geravam protestos de vizinhos mais sonolentos e mais afeitos ao quente dos lençóis, principalmente, quando o cacimbo se fazia presente com a sua neblina de frio cortante.

-
Filho da mãe desse Velho Kimbaça tem que me acordar assim tão cedo no cacimbo para ir tirar meia dúzia de litros de leite! Era o protesto do meu irmão Paga-Fogo[6], que nas férias grandes de junho a setembro ganhava os maiores elogios dos maiores amantes açorianos das vacas leiteiras que se admiravam de ver um estudante exibir as suas vocações veterinárias, tão cedo, pelas cinco horas da madrugada, com as kinamas[7] bem enfiadas em botas de borracha de cano alto, como exigia o figurino. Já, para o sono do Kabiaka os gritos do Sr. Kimbaça soavam como um breve interlúdio musical que separava o quarto do quinto sono, este, sim, fadado a terminar lá pelas oito da matina, a correr, para abrir a loja com algum atraso.

Kimbaça foi o apelido do Sr. Emílio Dias que mais se popularizou entre os
kimbundus[8], mas também me lembro de outro que tinha mais a ver com uma atividade que ele desempenhava religiosamente todos os dias, nos tempos da minha primeira infância, quando ainda não havia rede de distribuição de água no Katofe – a “água encanada”, no dizer dos açorianos. Então, o Kota Kimbaça assumia o papel de Kimbuka Mema[9] e se dirigia acompanhado por algum servente à fonte de águas cristalinas mais próximas, com um barril que rolava vagarosamente pelo caminho, puxado por um arame com as extremidades presas a dois eixos de um lado e outro do barril.

Nos primeiros tempos da colonização açoriana da savana do Katofe, o Sr. Emílio Dias era conhecido por grandes qualidades que transcendiam em muito o seu perfil corpulento ou o significado dos seus apelidos kimbundus. Era dotado de uma força que o levava sempre a executar primeiro as tarefas para mostrar aos funcionários africanos como se devia fazer. E era digno de ver os circunstantes com olhares arregalados de admiração quando o Kota Kimbaça avançava sobre uma gamela cheia de sal, feita em meio tronco de árvore, para desenterrá-la da lama, no tempo da estação das chuvas; sozinho, abraçava aquela gamela, sem deixar cair o sal, e prontamente a desenterrava e a colocava num lugar mais seco para repasto mais tranqüilo das suas vaquinhas amadas. Também, em dia de capar garrotes era vê-lo sozinho enfiar dois dedos nas ventas do bicho e com a outra mão dar uma torção nos cornos para que o animal se estatelasse no chão em mugidos sufocados. Quando chegava a vez dos kimbundus, estes rodeavam o garrote repetidamente, com incitações de
“Kwata ku mutu! Kwata ku mutu! kwata ku mutu!”[10], orientados pelos gritos de incitamento e orientações do Kota Kimbaça, já, esfalfado em sucessivas exemplificações, até que, após alguma correria, o bicho era rendido. Diziam as boas línguas que a sua força, nos seus melhores tempos, era suficiente para fazê-lo abraçar sem vacilações um tambor de duzentos litros de óleo de palma e colocá-lo sobre a carroceria de uma carrinha[11]. Quanto à superior capacidade de domar vacas e bois bravos, eu sou uma testemunha viva e fiel. Um dia, assistia à ordenha, empoleirado na cerca do curral onde mais tarde foi construído o estábulo do próprio Kota Kimbaça, resolvi descer para brincar com o vitelo de uma vaca meio gentia de nome Humpata. Em dado momento, a Humpata lá achou que eu não tratei bem a sua cria e, para minha surpresa e gritaria, resolveu pegar-me contra a cerca; valeu-me a presença do Kota Kimbaça que munido do banco da ordenha deu umas bordoadas na minha agressora. Desde esse tempo, se eu gostava pouco de vacas leiteiras, fiquei a amá-las menos, ainda, para grande desonra do aglomerado katofiano, onde vigorava a lei de que qualquer ocupação que merecesse o nome “trabalho” sempre devia passar por algum cheiro a leite e a bosta de vaca.

Figura 1 – Mapa etnográfico de Angola, conforme Ferreira Diniz.

A minha maior admiração pelo Kota Kimbaça, passava pela maneira como ele sabia dirigir como ninguém os bois que puxavam a carroça ou as alfaias agrícolas:

- Pra cá Chibante, pra lá Amante! Encosta pra canga boi!

Lá ia falando ele brandamente, de aguilhada na mão a tocar levemente o dorso dos animais. E os bois seguiam as suas ordens de imediato como se fossem conduzidos por fios elétricos.

Figura 2 – Kota Kimbaça a lidar os bois na eira, para regalo dos seus pequenos admiradores: Lúcio Matos, São Dias, Idalina Dias, José Estevam Matos, Maria Ângela Dias, Linita Dias.

Kota Kimbaça também fez alguns discípulos entre os kimbundus na nobre arte de tornar sem muito esforço os animais mais bravos inclinados ao trabalho da lavoura, quiçá, um dos que são vistos na Figura 3, correspondente a uma fotografia tirada no Katofe, em julho de 2008, durante as horas matinais de cacimbo.

Figura 3- Kimbundus do Katofe com a sua junta de bois (Foto tirada em julho de 2008 pelo nosso amigo Katofiano Jorge Oliveira, filho do maior pioneiro Katofiano João de Oliveira ou João do Katofe ).

Também, cabe aqui rever a poesia e a fotografia do nosso post MUITA BANGA, em http://kabiaka.blogspot.com, por mim escrita, em 11/06/2006, quando me deslumbrei com a criatividade evidenciada na concepção da carroça da foto:
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Oi Chibante!
Oi Amante!
Encosta pr'á canga,
Pr'á frente boi...
Oi Suzuki!
Oi Toyota!
Tempo do Kota Kimbaça já foi...
Minha carroça tem mais banga,
Pr'á canga boi,
Como no tempo do Kota,
Não sai da rota...

Figura 4 – Novo Toyota angolano com tração triplamente turbinada.

Apesar da minha grande admiração por ele, como não podia deixar de ser, o Kota Kimbaça também foi uma vítima das minhas artes de Kabiá-Kabiaka. Antes dos meus 4 a 5 anos (1957-1958) conheci a NSU do Kota Kimbaça; era uma motorizada de pedais em cima da qual se escarrapachava , para gáudio dos mais novos e dos kimbundus, a grande massa do seu dono encimada por um chapéu de abas largas. Nos últimos tempos dos anos 1960 e primeiros de 1970, ele referia-se a ela como a Velha e, muitas vezes, o ouvi pedir para o seu filho caçula:

- Oh António, traz a Velha!

E, como a Velha não pegava mais nos pedais, ele dava uma corridinha para o necessário embalo e montava rápido na garupa da cansada magrela, enquanto soltava a embreagem para ela pegar no tranco. Na chegada, desligava o motor antecipadamente e usava os pés a arrastar no chão para ajudar os travões bastante desafinados. O arranque e a chegada eram espetáculos tão dignos de ser vistos como a viagem rumo ao sul da povoação. Se a Velha falasse certamente expressaria o seu Muito Obrigado diariamente ao seu dono por tanta estima e fidelidade, pois, em vez de Velha, eu preferia designar a NSU por “Não Se Usa”.
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Figura 5- Motorizada NSU modelo Quickly Luxus, similar à Velha do Kota Kimbaça.
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Mas, quando a NSU do Kota Kimbaça, era novinha em folha, eu por duas vezes resolvi dificultar-lhe o arranque. Aproximei-me sorrateiramente dela e puxei a mangueira da gasolina, após abrir a válvula abaixo do tanque; saboreei o meu veneno a escorrer pelos cantos dos lábios, a ver o combustível a derramar-se pelo chão. Depois, da minha varanda, esperei que o Kota Kimbaça fosse dar o arranque; ele pedalava vigorosamente até cansar e nada... A certa altura, chacoalhou o tanque entre as pernas e verificou que estava vazio. Só, então, verificou que a mangueira que ligava o tanque ao carburador estava solta. Quando ele contou ao meu pai, já com suspeitas do autor da façanha, o Kilamba Vicente olhou-me de soslaio e disse:

-
Foste tu!

Não respondi, mas o olhar matreiro me denunciou.

Na segunda vez, logo após a primeira pedalada, o Kota Kimbaça já desfrutava do “saber de experiência feito”, cantado por Camões, e soltou um brado de protesto que me fez estremecer na varanda, onde o espreitava.

- Ah, Lúcio, Lúcio!...

Nunca me esqueci dos gritos, nem do puxão de orelhas que levei de um pai desiludido por ter um filho fabricado tão fora do molde da família.

A finalizar, eu sei que o Kota Kimbaça, do mundo espiritual para onde partiu, quando morava nos Estados Unidos da América, ao ver-me lembrar estas histórias, solta a sua gaitada e expressão de admiração com o seu timbre pessoal, que tantas vezes escutei no Katofe quando se sentava em ameno
sunguilar[12] numa roda de colonos Katofianos:

-
Iá-iá, ia-iá, iá-iá... Pópilas patrício!

Para ele e todos os que me lêem, envio o saudoso abraço do
Kabiá-Kabiaka.

[1] Designação dada pelos habitantes de Luanda a quem nasceu no sul de Angola.
[2] Estábulo, curral de tratamento do gado.
[3] Mais-Velho, designação dada pelos angolanos a pessoas de mais idade, mais experientes e sábias, merecedoras de admiração e respeito pelos mais novos.
[4] Gordo, pessoa de porte avantajado.
[5] Natural da região do Huambo – Angola.
[6] Apelido dado pelos indígenas ao meu irmão José Estevam da Silveira Matos.
[7] Pernas.
[8] Povos da etnia Kimbundu (ver mapa etnográfico de Angola), que ia incluía dos grupos Quibala, ao sul, a Dembos, ao norte, e de Songo, a leste, a Ngola, ao oeste.
[9] Busca-Água, por tradução literal do Kimbundu.
[10] Pega na cabeça! Pega na cabeça! Pega na cabeça!
[11] Camioneta.
[12] Conversar.