quarta-feira, janeiro 27, 2010

ENQUANTO...

Obs.: Clique e leia o poema em vídeo.

Um grande abraço do Kabiá-Kabiaka.

MEU POEMA

Obs.: Clique e leia o poema em vídeo.

Um grande abraço do Kabiá-Kabiaka.

quinta-feira, janeiro 21, 2010

BELÉM DAS NAVEGAÇÕES

Obs.: Clique e delicie-se com o filme do passeio pelos lugares míticos de partida e chegada dos navegadores portugueses que deram novos mundos ao mundo, nos séculos XV e XVI.

Um grande abraço do Kabiá-Kabiaka.

RETORNAR

Retornar à Mãe-Pátria e aos lugares que me moldaram a Alma Lusa é o tema do poema em vídeo que vos apresento.

Um grande abraço do Kabiá-Kabiaka.

GOSTO DE TI...

Assista o vídeo realizado por mim com o fado "Gosto de ti porque gosto" na voz da fadista Maria Emília da Casa de Fados Caldo Verde, no Bairro Alto, Lisboa.

Um grande abraço do Kabiá-Kabiaka.

POETAS E FADISTAS

Após a inspiração nos cafés mais frequentados pelos poetas maiores Bocage e Fernando Pessoa, rumámos ao Largo Camões e às ruelas do Bairro Alto, onde na Casa de Fados "Caldo Verde" sorvemos as delícias do fado e da culinária portuguesa. Acompanhe as imagens do filme ao sabor do fado. Resta-nos repetir o fadista:

Bairro Alto com seus amores tão delicados

quis um dia dar nas vistas

e saiu com os trovadores mais os fados

para fazer suas conquistas...

Um grande abraço do Kabiá-Kabiaka.

sábado, janeiro 16, 2010

MORTE E RESSURREIÇÃO DO PONTO G

A confusão começou há sessenta anos quando o médico alemão Ernst Grafenberg teve a ideia luminosa de abrir a caixa de Pandora da anatomia feminina mais sensual; descreveu uma zona erógena ou um “pontinho” mágico que seria o eldorado do prazer feminino, batizado com a inicial do seu próprio sobrenome, isso mesmo: Ponto G.
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No início deste nosso Janeiro de 2010, de esperanças tão renovadas para a libertação sexual em Portugal – com a aprovação do casamento homossexual na Assembleia da República – eis que rebenta a notícia surpreendente: o Ponto G simplesmente não existe; ele não passa de “um produto da imaginação das mulheres influenciado pelas revistas femininas e por terapeutas sexuais”.
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O “Esquadrão da Morte do Ponto G” é formado por cientistas do King’s College, em Londres. De acordo com o respeitado periódico científico The Journal of Sexual Medicine, após elaborados estudos que envolveram 1800 mulheres, com idades entre os 23 e os 83 anos, todas gémeas, eles decretaram a morte e sepultamento do Ponto G. Foram analisadas gémeas visando a obtenção de respostas parecidas. Contudo, as respostas foram diversas: enquanto algumas mulheres afirmam ter ponto G, as suas irmãs idênticas garantem que não têm. Assim, os cientistas chegaram à brilhante conclusão de que o ponto G é apenas um mito. Tim Spector, um dos autores do estudo, chegou mesmo a afirmar: “é irresponsável alegar a existência de algo que nunca se provou existir”. Enfatizou o estudioso que algumas mulheres podem alegar ter encontrado o Ponto G, “mas a verdade é que não pode ser comprovado”. Foi assim, meus amigos e amigas leitores, que foi anunciada a “Morte do Ponto G” para alívio de muitos e muitas!
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Logo, começaram as reações. Alguns vieram dizer que certas mulheres confundem prazer sexual em geral com o propalado ponto G. Outros disseram que separar as mulheres em duas classes – com e sem Ponto G – é a mesma coisa com o que foi feito quando elas eram discriminadas em virgens e não virgens, um conceito ridículo e ultrapassado próprio do tempo em que se reduzia o cerne da questão à integridade observada a partir só da soleira da porta da entrada. Outros acrescentaram que o fato de um novo parceiro proporcionar a uma mulher mais prazer é que a levava a dizer que tinha localizado o Ponto G, o que não tinha atingido com outros, antes. Outros, ainda, se perguntavam se o Ponto G era encontrado fisicamente pela própria mulher ou com a ajuda de um parceiro. Outros apimentavam que se fossem mulheres tentariam encontrar o Ponto G a todo custo, mesmo que fosse só psicológico, mas que se fosse físico, então, por uns milésimos de segundo de uma fricção ou toque procurariam sentir esse ponto pelo menos uma vez na vida. Alguns homens ficaram muito confusos, pois garantem que estiveram lá e que regressaram; agora, se perguntam: O que foi aquilo que eu senti? Onde estive afinal de contas? Aquele não era o lugar assinalado no mapa do livro que li? Como assim, o GPS dela não explodiu em milhões de luzinhas como o fogo de artifício na passagem do ano na Praia de Copacabana? Será que ela me enganou quando revirou os “oínhos” e fartou-se de gemer?
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Não tardou a vir o contra-ataque dos defensores indefectíveis do Ponto G. Eles constituem os adeptos de carteirinha do “Fã Club do Ponto G”… Mulheres que disseram ter o seu G muito bem cuidado e acarinhado e que não o abandonariam de jeito nenhum só por causa de um estudo de cientistas loucos. Cirurgiões que vivem de “construir” pontos G artificiais. Terapeutas sexuais que morrem de medo de perder a clientela de mulheres que ainda não descobriram o ponto G. Escritores e editores que ganham um dinheirão com a temática do Ponto G.
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O “Esquadrão da Ressurreição do Ponto G” foi comandado por Beverly Whipple. Ela é uma especialista em Ponto G, professora na Universidade de Rutgers e tem um livro sobre o decantado Ponto G que já vendeu mais de um milhão de cópias. Esta expert decretou: o Ponto G existe, sim, e o problema das gémeas não está nelas, mas, sim, nos parceiros delas!
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Eu sabia que ia sobrar para nós homens porque temos as costas mais largas… Afinal, somos o “sexo forte”, apesar de ser o mais frágil, pois a problemática não se resume para nós a um abrir de pernas… Homens que me lêem, prestem atenção! Nós somos os únicos responsáveis por algumas mulheres não terem encontrado ainda o Ponto G! O “pontinho do prazer” continua lá, até nas gémeas analisadas! A culpa é da qualidade dos amantes. Há uns que conseguem descobri-lo e outros são simplesmente uns patetas que não descobrem nada… E as acérrimas defensoras do seu Ponto G nos desafiam: “Meu Querido… nós temos mesmo um ‘interruptor mágico’; cabe-te a ti a tarefa de descobri-lo… agora vai… sem pressão, queridinho!”. As mulheres geralmente são muito sábias, porque sabem perfeitamente que o homem é o sexo frágil que não funciona sob pressão; aliás, há uma relação binária inversa entre pressão e sexualidade nos homens, ou seja, quanto mais pressão menos sexo. E, aí, quando o homem se mostra exausto e frustrado por não encontrar o ponto G, a sua parceira ameniza: “O nosso órgão sexual, em nós mulheres, é ultracomplexo, queridinho; é o nosso cérebro,…, por isso, é tão enigmático!”. E eu que o diga!!!
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Uma coisa é certa, o estudo dos cientistas ingleses, embora não tivesse encerrado a polémica sobre a existência/ inexistência do Ponto G, deixou mais descansadas as mulheres sinceras perante as que querem sempre mostrar-se como as fatais e possuidoras de aptidões sexuais superiores. Afinal, o prazer sexual da mulher não se resume a um ponto...
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Outra razão para sermos o sexo forte: os cientistas ingleses não decretaram a inexistência do Ponto G masculino. Ele existe, está bem localizado, de acordo com comprovação científica. Há homens que não deixam a sua parceira acariciá-lo pela simples razão que temem que o seu Ponto G vire “ponto gay”. Coisas de mentalidade. Já dizia o poeta e compositor português Ary dos Santos para o entrevistador: “Olha, meu filho, não experimentes nem com a ponta do lápis!”. Por mim, eu ainda não experimentei… Quiçá, porque sou filho de um colono açoriano que está vivo com 89 anos e sempre se recusou até a usar supositório e clister, contrariando mesmo as recomendações médicas… Diz-se no Brasil que existe ex-engenheiro, ex-médico,…, etc., mas não existe ex-g… Por isso, alguns homens fogem de sentir o seu Ponto G. Mas, eu não vou morrer na ignorância dos prazeres do meu Ponto G, disso estou absolutamente convicto!
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Para término de conversa, é bom ficar claro que uma pessoa só é considerada homossexual quando sente atração por outra do mesmo sexo e não por permitir a parceira tocar qualquer região do seu corpo. Basta ver que o garanhão Charlie (Charlie Sheen), da série Two and a Half Man faz questão de ressaltar que se beneficia muito dos toques no seu Ponto G, a ponto da sua namorada chegar a comentar em um dos episódios que está com dor no dedo. Então, como diria o presidente do Brasil: Vamos nessa companheiro!
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Portanto, viva o Ponto G masculino que não morrerá nunca e nunca precisará de ressuscitar!
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Um grande abraço do Kabiá-Kabiaka.


terça-feira, dezembro 29, 2009

ANGRA DO HEROÍSMO


Apertada a rua pelo casario
encana carros mais que espaço,
chuva, vento e frio,

corpos arrastados pelo cansaço.

Evoluindo lento
vai o movimento,
ladeira abaixo e acima.

O mosaico da calçada
é um poema sem rima,
a cada pisada,
em cada figura desenhada.

Pedras negras de basalto,

antes lava de vulcão,

irregulares como o mar alto,

ditam cada tropeção.

É Angra do Heroísmo

em cada rua esguia,

nem tempestade, nem sismo,

lhe tiram a eterna magia.


Lúcio Huambo
Angra do Heroísmo, 28/12/2009.

sábado, agosto 01, 2009

DIÁRIO DE VIAGEM

Vivem em nove belas Ilhas no meio do Oceano Atlântico.
Dizem ser o centro do Mundo, os últimos picos da Atlântida - o Continente Perdido, a terra de Neptuno.
Falam de forma diferente.
Cozinham a comida em buracos na terra, com o calor dos vulcões.
Fazem jogos com touros e perdem quase sempre.
Nadam com golfinhos.
Mergulham com baleias que antes caçavam em pequenos barcos e depois gravavam-lhes os dentes.
Há 500 anos que resistem a tremores de terra, a tempestades com ventos de 250 km por hora, a ondas do mar com 20 metros.
Pescam os maiores peixes do Mundo - espadartes e atuns.
Dividem os terrenos com flores, principalmente hortênsias.
Criam vacas e chamam-nas pelo nome próprio.
Comem comida temperada com especiarias vindas das Índias, Áfricas e Américas.
Festejam o "Espírito Santo" que dizem ser seu "Senhor".
Usam uma ave - Milhafre - como seu símbolo mas chamam-se Açorianos.
São uns estranhos e simpáticos loucos!

Texto: José Henrique Azevedo.

segunda-feira, maio 11, 2009

O NOSSO BERÇO

A tese de que a África é o berço da Humanidade não é novidade há muito tempo. Absorvi com especial deleite a leitura da magnífica obra “Uma Breve História do Mundo” de Geoffrey Blainey, que no capítulo 1, sob o título “Vindos da África” e os subtítulos “Um despertar” e “O Colombo Negro” me levou a uma maior identificação com a terra onde sempre me orgulhei de ter nascido e vivido os melhores anos da minha vida.
A novidade mais recente nos foi trazida agora pela maior investigação científica jamais realizada sobre a diversidade genética da África, berço da humanidade há cerca de 200.000 anos. O estudo foi realizado pela Universidade da Pensilvânia, sob a coordenação da antropóloga e geneticista Sarah Tishkoff, durou mais de dez anos, incluindo a coleta de material genético de 3194 integrantes de 113 populações da África. A conclusão mais sonante foi que o homem moderno surgiu numa região situada no sudoeste africano, precisamente, na fronteira entre Angola e a Namíbia.
É ali que vivem hoje aproximadamente 100.000 pessoas do povo San, que se sustentam essencialmente da caça e da coleta. É o povo africano de maior variedade genética, a tal ponto que os pesquisadores da Universidade da Pensilvânia foram levados a concluir que os antepassados dos Sans é que deram origem à humanidade. Outras pesquisas já mostraram que uma distância gradativamente crescente da África leva a uma sucessivamente menor diferenciação de genes das populações do nosso planeta. Portanto, isso também leva à conclusão de ser a África o berço da humanidade, pois a população original teve mais tempo para acumular variações no seu genoma, o que é denominado de "efeito fundador". Efetivamente, as populações mais distantes da África são descendentes de grupos migratórios pequenos e relativamente recentes, o que é traduzido em maior homogeneidade genética.


Sans do Sudoeste Africano (Fonte: Veja, 12/05/2009).

A pesquisa americana concluiu ainda que os antepassados dos Sans viveram a primeira diáspora pela África. Também, que um bando tribal de até 150 integrantes teria deixado a África, há 50.000 anos, cruzando o Mar Vermelho em direção à Ásia e daí conquistou o mundo. Realmente, os africanos colonizaram primeiro o hemisfério norte, bem antes de serem colonizados pelos povos brancos, os seus descendentes. Que ironia do destino!


Por fim, os pesquisadores descobriram que todos os africanos são descendentes de catorze populações. Para obterem esse resultado, eles compararam os padrões genéticos com a etnia, a cultura e a língua dos povos pesquisados. Descobriram fortes relações entre os traços genéticos e a cultura de cada povo, com poucas exceções.


A diáspora dos Sans (Fonte: Veja, 12/05/2009).

O estudo abriu também caminho para curar algumas mazelas do continente africano, com novos tratamentos para a AIDS ou SIDA, malária e tuberculose. Isto porque, segundo Sarah Tishkoff: "os africanos têm sido negligenciados nas pesquisas de mapeamento genético porque o acesso aos grupos com maior diversidade genética é difícil”.
Não é uma satisfação verificar que o Jardim do Éden se situou bem próximo da nossa abençoada terra de Angola?


O médico e artista plástico Richard Neave, da Universidade de Manchester, especializado em reconstituição facial, mostrou há dez anos como era o rosto de Luzia, o fóssil mais antigo de um brasileiro, com 11 500 anos. Recentemente, Neave reconstituiu a face do primeiro europeu, baseado em partes do crânio e da mandíbula de um Homo Sapiens de 35 000 anos encontradas em 2002, na Romênia. A semelhança entre as duas reconstituições ajuda a entender que as diversas etnias humanas provieram de uma população reduzida de seres humanos e que as feições caracteristicamente negras dessas reconstituições confirmam a tese do berço comum da humanidade. Walter Neves, arqueólogo da Universidade de São Paulo, afirma que "o processo de diferenciação que produziu brancos, negros ou japoneses começou há 10.000 anos e acrescenta que "antes desse período, todo mundo possuía rosto semelhante ao dos atuais africanos.  A semelhança entre Luzia e o primeiro europeu se deve também às técnicas de Neave, que sabe como poucos especialistas em reconstituição como os tecidos da face se amoldam a determinados tipos de osso.


O antepassado europeu e a Luzia brasileira (Fonte: Veja, 12/05/2009).

As conclusões das pesquisas genéticas têm sido um duro revés para os racistas, xenófobos e nacionalistas empedernidos, pois têm dado sustentação ao grande ideal proclamado pela frase de Mirza Hussain Ali: “a Terra é um só país e os seres humanos são os seus cidadãos”.
Um grande abraço do Kabiá-Kabiaka.

sexta-feira, maio 01, 2009

FOME COM DATA MARCADA OU SÓ UMA DESCOBERTA PARA PENSAR


Cientistas das Universidades do Arizona e do Texas trouxeram recentemente ao nosso conhecimento que a África Subsaariana tem experimentado, nos últimos três milênios, períodos de grandes secas, que se repetem a intervalos de 30 a 65 anos.
A última destas secas ocorreu precisamente entre 1972 e 1984, responsável por 750 mil pessoas flageladas, com 100 mil mortes, em três países onde foram registradas estatísticas confiáveis: Mali, Níger e Mauritânia. Eu lembro-me que em Angola, de 1972 a 1974, havia notícias sobre seca prolongada nas terras do sul, onde a população ainda se dedica mais à criação de gado.
A nova tragédia está prevista para 2030, aproximadamente, prevendo-se efeitos bastante devastadores, dada a situação de penúria da maioria dos povos em alguns países, onde 70% da população vivem com menos de dois dólares por dia, apesar de certa abundância de recursos naturais. Aliás, o ano de 2030, também, é profetizado como o limiar do esgotamento das jazidas de petróleo, o que será catastrófico para os países exploradores que não têm aproveitado a bênção dessa riqueza para investir no desenvolvimento auto-sustentável através de educação, saúde e segurança para todos.
Os pesquisadores americanos ainda concluíram que algumas secas subsaarianas chegaram a durar séculos, como a que ocorreu entre 1400 e 1750. Por isso, atendendo a esse dado do passado e se as previsões sobre o aquecimento global se confirmarem, os pesquisadores avaliam que a seca estimada para 2030 será mais devastadora do que nunca. O Prof. Jonathan Overpeck, da Universidade do Arizona, um dos chefes da equipe de pesquisa, chegou a dizer à imprensa: "Por causa de uma série de fatores, e um deles é o aquecimento global, não conseguimos predizer a extensão do próximo período de seca, mas sabemos que ela será muito mais severa que as anteriores".
As secas na África Subsaariana costumarem ser particularmente catastróficas porque as populações locais vivem da agricultura de subsistência, para a qual um pequeno atraso nos períodos de chuva já ser indutor de fome certa, por isso, seria bom que os governantes fossem já pensando nas medidas preventivas contra a catástrofe anunciada. Quanto à nossa querida Angola, só nos resta dizer: “depois de uma guerra de mais de 40 anos, só nos faltava esta!”. 

Um grande abraço do Kabiá-Kabiaka.

terça-feira, abril 21, 2009

NAÇÕES AFRICANAS SEM ESTADO


De guerrilheiros da libertação a bandidos e piratas.

As últimas semanas trouxeram notícias sobre dois países africanos onde o Estado organizado – “um governo, um povo, um território” – é apenas uma quimera. Trata-se da Guiné-Bissau e da Somália.

Na Guiné-Bissau, os assassinatos do Chefe das Forças Armadas, no domingo, e do Presidente da República, em retaliação, demonstraram que a ação política se mistura frequentemente em África com a selvageria. Realmente, não houve em Bissau um golpe de estado como algumas notícias chegaram a difundir, antes, um acerto de contas entre duas quadrilhas – a do presidente e a do chefe da tropa.     

Hoje, a Guiné-Bissau é o quinto na lista dos países mais pobres do planeta. Seu principal produto oficial é a castanha-de-caju, mas a verdadeira riqueza está na utilização do país como entreposto para a cocaína que flui da América do Sul para a Europa e também para a heroína que a Ásia exporta para os Estados Unidos. O tráfico de drogas já deu à Guiné-Bissau um título inédito, revelado em relatório de 2009 do Departamento de Estado americano: o de primeiro narcoestado do planeta. Efetivamente, a Guiné-Bissau é somente uma nação ou um país sem Estado, portanto, sob o domínio completo do caos político e social, embora a imprensa portuguesa e angolana se esforce por fazer crer o contrário.

Na outra costa africana, a Somália é a primeira colocada na lista dos países falidos, uma terra miserável, sem lei, nem governo. Em sua maioria, a população é nômade e pastoril, sob a ameaça contínua da fome. Três milhões de somalis – cerca de 40% da população – dependem totalmente da ajuda humanitária internacional para sobreviver. O país tornou-se independente em 1960, bem antes da auto-proclamação da independência da Guiné-Bissau em 1973, todavia desde 1991, não conhece o que é um governo central. O território somaliano foi distribuído por clãs e grupos rivais. Agora, o sul está nas mãos de milícias islâmicas inspiradas no Talibã e duas províncias do norte se declararam estados independentes, embora não sejam reconhecidos por nenhum país. Forças da ONU e da União Africana em missão de paz não se arriscam a ultrapassar os limites da capital, Mogadíscio.

A Somália tem atualmente como sua principal atividade econômica a pirataria, podendo ser classificado como um estado pirata, à semelhança dos antigos estados piratas da costa berbere – Marrocos, Argélia e Tunísia – por três séculos, até 1830, quando a França conquistou a Argélia. O litoral da Somália é a região do mundo mais perigosa para a navegação marítima, concentrando um terço de todos os ataques de piratas efetuados no mundo. No início, os piratas somalis eram pescadores que encontraram na pilhagem ainda incipiente uma oportunidade de riqueza fácil; depois, empresários e políticos locais entraram com o dinheiro para a compra de barcos e armas em troca de uma parcela do lucro; agora, os piratas emprestam dinheiro e financiam os senhores de guerra na Somália.

Eyl e Harardere são as duas principais cidades que servem de base para as operações de pirataria somaliana; nelas, os piratas desfilam em carrões e mandam construir mansões com vista para o mar. O lucro da pirataria é altíssimo. Em 2008, os piratas somalis faturaram 150 milhões de dólares em resgates – dez vezes o total de doações internacionais recebidas pela Somália. Em suma, a ostentação pirata contrasta com a pobreza geral do país.  

A maior ironia sobre a Guiné-Bissau e a Somália é que elas são exemplos acabados das últimas consequências da aplicação do "socialismo científico" em África, com regimes pró-soviéticos que se instalaram nesses países por mais de 20 anos após a tão almejada independência dos seus colonizadores europeus.

Um grande abraço do Kabiá-Kabiaka.

domingo, abril 12, 2009

QUEM TEM RAÇA É CACHORRO!


O Brasil é o país onde a maioria da população, ao ser perguntada sobre a sua cor, responde simplesmente:

"Moreno".

A resposta sugere que o grosso da população brasileira não tem a certeza sobre a cor da sua pele, nem se interessa em sabê-lo, porque não considera isso muito importante; todavia, o atual governo federal esmerou-se em parir uma ideossincrasia com a criação de um órgão ministerial com o título pomposo de "Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial", para gáudio dos amigos a quem arranjou mais uns encostos empregatícios no aparelho estatal, e estupefacção ou apreensão dos opositores, e brasileiros em geral, que têm assistido à criação do racismo por via institucional num dos países menos racistas do mundo, ou, com toda a certeza, muito menos racista do que os países onde o atual governo brasileiro tem buscado inspiração para as suas desastradas medidas de "Ação Afirmativa".

Assim, o chefe do governo na sua costumeira verborragia comicieira, que encanta os seus mais diletos apaniguados, tem culpado genericamente a "elite branca" nacional pelos males do país e a "gente de pele clara e olhos azuis" dos países do norte pela recente crise econômica mundial, esquecendo que os acusados também são os principais agentes do desenvolvimento brasileiro e mundial. 

Enquanto a demagogia corre solta, a sua inútil "Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial", apenas, se destacou pelo uso indevido do cartão de crédito corporativo em compras de "Free-Shop", em aeroportos, ou no "Bar Amarelinho", no Rio de Janeiro, em benefício de uma secretária-ministra já demitida. Também, as leis aprovadas no Congresso Nacional visam objetivos exatamente contrários dos que dizem pretender atingir, isto é, criam "cotas raciais" que conferem a pretensos brasileiros negros - deixando exclusivamente a estes o direito de se definirem como tal - privilégios no mercado de trabalho, universidades e concursos públicos, em detrimento dos brasileiros que se definem como brancos ou ameríndios.

O advogado negro José Roberto Militão chegou a escrever no jornal "O Estado de S. Paulo":

"Os defensores das leis raciais ludibriam a boa fé alegando que cota racial é ação afirmativa. Ação afirmativa, de fato, é outra coisa: é a efetiva atuação da autoridade para coibir a discriminação contra minorias e multiplicar oportunidades, sem criar cotas, exigir reparações pelo passado ou restabelecer diferenças de direitos. Ao Estado cabe atuar para destruir a crença em raças. Leis raciais não servem para a redução das desigualdades entre brancos e pretos, pois atacam os efeitos, mas aprofundam as causas".

Depois do esclarecimento sábio do Dr. José Militão, um dos potenciais beneficiários das leis raciais do atual governo, concluimos que essas iniciativas induzem ao perigo de se passar da "distinção" à "divisão", o que está na contra-mão da integração harmoniosa das múltiplas origens da população brasileira.

Para concluir, nada melhor do que a frase do escritor baiano João Ubaldo Ribeiro: quem tem raça é cachorro!

Um grande abraço do Kabiá-Kabiaka

sábado, abril 11, 2009

DE SETE ORELHAS A MANUEL DAS CURVAS – Parte 2

O Manuel das Curvas ou “Manel das Curvas” era uma das figuras mais castiças da nossa aldeia do Katofe. Digamos que sem ele o Katofe seria uma incompletude iconográfica. Ele certamente era um dos principais responsáveis pela imagem predominante do Katofe que se gravou na mente de um camionista que parava frequentemente num dos bares para almoçar e que atirou a seguinte máxima:

-        Quando se passa durante a semana no Katofe quase não se vêem açorianos, mas no domingo ou durante as Festas do Espírito Santo, principalmente, quando há uma briga com alguém de fora, eles parece que saem do meio do capim como se fossem chineses.

Realmente, o Manel das Curvas era um daqueles que, à semelhança do Sete Orelhas, “pagava um boi para não entrar na briga e uma boiada para não sair”, sobretudo quando vislumbrava alguma oportunidade de atuar como justiceiro, todavia sem chegar ao extremo de arrancar as orelhas dos adversários, pois ele achava que pegar qualquer instrumento além dos próprios punhos para dirimir as desavenças era lutar “à falsa fé”, para usar a sua própria expressão. Outra atitude que ele designava por falsa fé era um dos contendores iniciar a luta de repente sem uma troca de palavras preparatórias ou algum ritual prévio que usava desde as lutas de escola, que era, por exemplo, passar a ponta do indicador na ponta do nariz do outro.

O Manel das Curvas recebera o nome de batismo de Manuel Vitorino Nunes, na sua freguesia do Topo, na Ilha de S. Jorge, Açores. O apelido vinha-lhe dos primeiros tempos de Angola, dado por açorianos e kimbundus, que se divertiam ao vê-lo dar as primeiras andanças de bicicleta em curvas sucessivas, para um lado e para outro, para assegurar o equilíbrio em avanço lento. Quando chovia, as poças que predominavam nas principais ruelas do Katofe, tornavam a observação do Manel da Curvas no domínio da bicicleta ainda mais divertida.  Com o tempo ele se tornou um exímio ciclista como todos os açorianos que na sua chegada ao Katofe adotaram a “chica”, como se dizia em Angola, por parceira preferida de viagem.

O Manel das Curvas tinha um nariz adunco, usava o cabelo apartado com um risco à direita e penteava para cima e para a esquerda as melenas com brilhantina ou bem molhadas e untadas levemente com sabão, para não caírem. Quando a franja secava, então, ficava solta ligeiramente para a esquerda e a encobrir parte da testa. Na frente das orelhas, o cabelo bem aparado crescia para baixo em patilhas ou suíças que certamente acertava frequentemente com o aparelho de barbear. O rosto era assimétrico e contribuía para destacar essa característica o afundamento de uma das maçãs do rosto, relativamente à outra, com certeza, como recordação de uma das suas lutas menos gloriosas. A completar a descrição dos traços mais marcantes que me pairam na memória, resta a boca ligeiramente torta, com um canto mais rebaixado, quiçá pelo hábito de manter ali um cigarro quase sempre aceso. Das suas marcas que mais me comoviam era ouvi-lo falar da sua filha mestiça que procurava proteger com muito carinho e que chegou a levar para Portugal, na sua saída de Angola, em 1975.

O Manuel gostava de recordar algumas das suas lutas e render aos adversários as homenagens que ele achava mais merecidas. Uma das descrições mais divertidas de ouvir era a que ele fazia de uma luta que teve com o Mendonça; estavam a construir uma ponte perto da chitaca do tio, António Vitorino Nunes, quando se travaram de razões, mas considerou a luta empatada porque conseguiu derrubar o adversário no chão, mas ao tentar esmurrar-lhe a cabeça, “o Mendonça driblava os murros como se fosse um melro ou um tintilhão”, os pássaros que ele mais recordava dos tempos de infância, que tremulavam a cabeça para um lado e outro, alternadamente. Disse que no mesmo local lutou com o Velho Ernesto Faustino, mas a batalha teve que ser suspensa porque conseguiu colocar o adversário dentro do riacho e este teve um princípio de “congestão”. Aliás, o Manel das Curvas gostava de afirmar à boca cheia, para quem quisesse ouvir, que não tinha medo de nenhum Pascoal (Faustino), apesar dos Pascoais serem afamados em luta desde os tempos de juventude na Ilha de S. Jorge, porque sempre que lutou com um Pascoal este sempre batia primeiro “à falsa fé”. Esta declaração valeu-lhe depois uma dura punição, como se verá mais adiante.

A luta que assisti por inteiro do Manel das Curvas foi com o Rabaça. À época o Rabaça, um rapaz beirão, chegado há pouco tempo de Portugal, trabalhava na loja nos baixos da casa do Velho Kimbaça, o Sr. Emílio Dias. A loja do meu pai ficava bem ao lado. Acontece que o Manel das Curvas estava na nossa loja e viu que o ajudante do Rabaça conseguiu persuadir uma cliente que já estava a trocar o seu milho na nossa loja a se mudar para a loja do lado. Então, o Manel das Curvas não achou essa atitude do rapaz muito elegante e avisou o Rabaça que iria ajustar as contas com o rapaz no fim do serviço, pois já era fim de tarde. Ocorreu que o ajudante do Rabaça conseguiu escapar para a sanzala no fim do serviço ou antes, sem ser visto pelo Manel das Curvas. No fim do expediente, estava montado o cenário completo para o Manel das Curvas ajustar as contas com o próprio Rabaça que foi acusado de encobrir a fuga do seu ajudante.

O Manel esperou que o Rabaça fechasse a loja e chamou-o para conversar na eira, na frente da casa do Sr. Emílio. No meio da discussão, o Manel começou a passar a ponta do indicador na ponta do nariz do Rabaça e este iniciou a luta atirando-se ao desafiante como se fosse um galo de briga. Após a troca de uns murros e rasteiras, com o Rabaça dominado debaixo do Manel, entrou em ação a turma do deixa disso e o Rabaça acabou com uns leves arranhões e um pequeno hematoma no rosto. Então, com os dois em pé, um de frente para o outro, o Manel disparou a sua sentença final:

-        Isto é só para tu saberes que um estransmontano nunca brinca com um açoriano! Ouviste Lambáça?

Quando recordo essa luta do Manel das Curvas, nunca deixo de rir, principalmente, por causa daquela declaração final que ficou gravada definitivamente na minha memória. Uns meses depois na hora da missa, no bar do Branco, onde o Rabaça foi trabalhar, o Manel fez com ele as pazes.

Em certo baile na Casa do Espírito Santo, o Manel das Curvas resolveu aparar umas arestas com um pessoal de fora da terra... A dado momento, eu vi o Velho João Faustino vir em disparada, o Manel das Curvas tentou fugir por uma das saídas do recinto que dava para um corredor, mas encontrou a porta fechada; o Velho João Faustino disparou no Manel uns canhotos certeiros, até que este se desvencilhou debaixo e conseguiu escapar para a rua, algo contundido. No domingo seguinte, vimos o Manel com o braço direito pendurado com uma faixa branca e alguém lhe disse:

-        Ó Manel, hoje, vieste á missa de gravata?!

-        Nunca nenhum Pascoal me bateu que não fosse à falsa fé – respondeu o Manel das Curvas, que continuou fiel à sua tese sobre a bravura dos Pascoais.

Na continuidade da conversa, o Manuel das Curvas resolveu filosofar como um velho que conhecera no Topo, segundo a sua habitual tirada:

-        O que interessa é acordar com os pés quentes...

A verdade é que numa das minhas visitas aos Açores, bem antes de vir para o Brasil, soube que o Manuel das Curvas abatido pela tristeza do exílio africano na sua freguesia natal, logo após a descolonização, resolveu desistir de acordar com os pés quentes e enforcou-se. Triste sina de um amante da luta que desistiu de lutar pela vida...   

A todos os que me lêem,um grande abraço do Kabiá-Kabiaka.