sábado, março 26, 2016

CARTAS ABERTAS


Prezados(as) Amigos(as) Leitores(as)
Hoje, verifiquei pelas estatísticas deste blog que quando publico algo o interesse por aquilo que é aqui publicado aumenta substancialmente. Assim, após um período sabático de reflexão, muito necessário, resolvo voltar, até instigado pela mola propulsora que se tornou o momento histórico que o nosso Brasil atravessa.
Muito se tem falado de crise no Brasil, todavia eu cheguei aqui em 1987 e nunca deixei de ouvir falar nela. O Brasil está mesmo em crise ou atravessa uma transição entre dois ciclos da grande mutação histórica de que eu sou testemunha viva há 29 anos?
Logo após a minha chegada em fevereiro de 1987, num dia de muito calor, caminhava pela Avenida Assis Brasil, no bairro Passo da Areia, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, e resolvi sentar alguns momentos num bar para comprar uma água mineral e matar a sede. Um gaúcho sexagenário, como eu estou agora, resolveu bater um papo comigo e prontamente verificou pelo sotaque que eu era português. Ele demonizava a situação do Brasil, em plena falência do Plano Cruzado, a primeira tentativa para debelar a hiperinflação, mas sem sucesso. Eu contrapunha uma visão otimista de que se tratava de uma situação temporária, porque o país era rico e com muitas potencialidades, portanto, mais cedo ou mais tarde, encontraria um caminho de estabilidade econômica que levaria inevitavelmente ao crescimento com justiça social. Então, ele procurou saber há quanto tempo eu tinha saído de Portugal. Quando respondi que ainda não tinha feito um mês, ele me fez a pergunta: “Porque é que você saiu agora de Portugal e veio para cá, quando todo o mundo está querendo é ir para lá?”. Eu respondi: “Eu acredito que o Brasil é o país do futuro!”. Ele ripostou, em voz bem alta: “Isso já dizia o meu avô e o futuro nunca chegou!...”. Certamente, o meu interlocutor não vive mais, mas eu vivi já o suficiente para ver o futuro chegar, aos poucos, em ciclos sucessivos, ele vem chegando e continuará a chegar continuamente com dias melhores para todos os brasileiros... Claro, o nascimento do futuro brasileiro tem trazido algumas crises ou dores, todavia cada crise é como um abrir da porta para novas soluções que debelam velhos hábitos negativos, cuja persistência tem sido responsável pelo ranço do atraso que levava o meu interlocutor gaúcho a uma atitude de revolta e descrença no país que mais amava...
Abaixo, transcrevo em itálico o desabafo de um “gringo”, portanto, estrangeiro como eu, que não conseguiu aguentar aqui vinte e nove anos como eu, mas somente quatro ou cinco. Para ele pode ser aplicada a frase irônica: “a esperança não é a última que morre”. Para mim, ao contrário, aplica-se o ditado mais tradicional: “a esperança é a última que morre”. Assim, embora transcreva a carta dele, não estou de acordo com algumas declarações, por isso, após a transcrição faço alguns comentários e ressalvas, sem cair nos complexos ultranacionalistas veiculados na internet por alguns ofendidos.
Então, passemos ao desabafo do “gringo”. 

Uma Carta Aberta ao Brasil, February 11, 2016
Mark Manson
Querido Brasil,
O Carnaval acabou. O “ano novo” finalmente vai começar e eu estou te deixando para voltar para o meu país.
Assim como vários outros gringos, eu também vim para cá pela primeira vez em busca de festas, lindas praias e garotas. O que eu não poderia imaginar é que eu passaria a maior parte dos 4 últimos anos dentro das suas fronteiras. Aprenderia muito sobre a sua cultura, sua língua, seus costumes e que, no final deste ano, eu me casaria com uma de suas garotas.
Não é segredo para ninguém que você está passando por alguns problemas. Existe uma crise política, econômica, problemas constantes em relação à segurança, uma enorme desigualdade social e agora, com uma possível epidemia do Zika vírus, uma crise ainda maior na saúde.
Durante esse tempo em que estive aqui, eu conheci muitos brasileiros que me perguntavam: “Por que? Por que o Brasil é tão ferrado? Por que os países na Europa e América do Norte são prósperos e seguros enquanto o Brasil continua nesses altos e baixos entre crises década sim, década não?”
No passado, eu tinha muitas teorias sobre o sistema de governo, sobre o colonialismo, políticas econômicas, etc. Mas recentemente eu cheguei a uma conclusão. Muita gente provavelmente vai achar essa minha conclusão meio ofensiva, mas depois de trocar várias ideias com alguns dos meus amigos, eles me encorajaram a dividir o que eu acho com todos os outros brasileiros.
Então aí vai: é você.
Você é o problema.
Sim, você mesmo que está lendo esse texto. Você é parte do problema. Eu tenho certeza de não é proposital, mas você não só é parte, como está perpetuando o problema todos os dias.
Não é só culpa da Dilma ou do PT. Não é só culpa dos bancos, da iniciativa privada, do escândalo da Petrobras, do aumento do dólar ou da desvalorização do Real.
O problema é a cultura. São as crenças e a mentalidade que fazem parte da fundação do país e são responsáveis pela forma com que os brasileiros escolhem viver as suas vidas e construir uma sociedade.
O problema é tudo aquilo que você e todo mundo a sua volta decidiu aceitar como parte de “ser brasileiro” mesmo que isso não esteja certo.
Quer um exemplo?
Imagine que você está de carona no carro de um amigo tarde da noite. Vocês passam por uma rua escura e totalmente vazia. O papo está bom e ele não está prestando muita atenção quando, de repente, ele arranca o retrovisor de um carro super caro. Antes que alguém veja, ele acelera e vai embora.
No dia seguinte, você ouve um colega de trabalho que você mal conhece dizendo que deixou o carro estacionado na rua na noite anterior e ele amanheceu sem o retrovisor. Pela descrição, você descobre que é o mesmo carro que seu brother bateu “sem querer”. O que você faz?
A) Fica quieto e finge que não sabe de nada para proteger seu amigo? Ou
B) Diz para o cara que sente muito e força o seu amigo a assumir a responsabilidade pelo erro?
Eu acredito que a maioria dos brasileiros escolheria a alternativa A. Eu também acredito que a maioria dos gringos escolheria a alternativa B.
Nos países mais desenvolvidos o senso de justiça e responsabilidade é mais importante do que qualquer indivíduo. Há uma consciência social onde o todo é mais importante do que o bem-estar de um só. E por ser um dos principais pilares de uma sociedade que funciona, ignorar isso é uma forma de egoísmo.
Eu percebo que vocês brasileiros são solidários, se sacrificam e fazem de tudo por suas famílias e amigos mais próximos e, por isso, não se consideram egoístas.
Mas, infelizmente, eu também acredito que grande parte dos brasileiros seja extremamente egoísta, já que priorizar a família e os amigos mais próximos em detrimento de outros membros da sociedade é uma forma de egoísmo.
Sabe todos aqueles políticos, empresários, policiais e sindicalistas corruptos? Você já parou para pensar por que eles são corruptos? Eu garanto que quase todos eles justificam suas mentiras e falcatruas dizendo: “Eu faço isso pela minha família”. Eles querem dar uma vida melhor para seus parentes, querem que seus filhos estudem em escolas melhores e querem viver com mais segurança.
É curioso ver que quando um brasileiro prejudica outro cidadão para beneficiar sua famílias, ele se acha altruísta. Ele não percebe que altruísmo é abrir mão dos próprios interesses para beneficiar um estranho se for para o bem da sociedade como um todo.
Além disso, seu povo também é muito vaidoso, Brasil. Eu fiquei surpreso quando descobri que dizer que alguém é vaidoso por aqui não é considerado um insulto como é nos Estados Unidos. Esta é uma outra característica particular da sua cultura.
Algumas semanas atrás, eu e minha noiva viajamos para um famoso vilarejo no nordeste. Chegando lá, as praias não eram bonitas como imaginávamos e ainda estavam sujas. Um dos pontos turísticos mais famosos era uma pedra que de perto não tinha nada demais. Foi decepcionante.
Quando contamos para as pessoas sobre a nossa percepção, algumas delas imediatamente disseram: “Ah, pelo menos você pode ver e tirar algumas fotos nos pontos turísticos, né?”
Parece uma frase inocente, mas ela ilustra bem essa questão da vaidade: as pessoas por aqui estão muito mais preocupadas com as aparências do que com quem eles realmente são.
É claro que aqui não é o único lugar no mundo onde isso acontece, mas é muito mais comum do que em qualquer outro país onde eu já estive.
Isso explica porque os brasileiros ricos não se importam em pagar três vezes mais por uma roupa de grife ou uma joia do que deveriam, ou contratam empregadas e babás para fazerem um trabalho que poderia ser feito por eles. É uma forma de se sentirem especiais e parecerem mais ricos. Também é por isso que brasileiros pagam tudo parcelado. Porque eles querem sentir e mostrar que eles podem ter aquela super TV mesmo quando, na realidade, eles não tenham dinheiro para pagar. No fim das contas, esse é o motivo pelo qual um brasileiro que nasceu pobre e sem oportunidades está disposto a matar por causa de uma motocicleta ou sequestrar alguém por algumas centenas de Reais. Eles também querem parecer bem sucedidos, mesmo que não contribuam com a sociedade para merecer isso.
Muitos gringos acham os brasileiros preguiçosos. Eu não concordo. Pelo contrário, os brasileiros tem mais energia do que muita gente em outros lugares do mundo (vide: Carnaval).
O problema é que muitos focam grande parte da sua energia em vaidade em vez de produtividade. A sensação que se tem é que é mais importante parecer popular ou glamouroso do que fazer algo relevante que traga isso como consequência. É mais importante parecer bem sucedido do que ser bem sucedido de fato.
Vaidade não traz felicidade. Vaidade é uma versão “photoshopada” da felicidade. Parece legal vista de fora, mas não é real e definitivamente não dura muito.
Se você precisa pagar por algo muito mais caro do que deveria custar para se sentir especial, então você não é especial. Se você precisa da aprovação de outras pessoas para se sentir importante, então você não é importante. Se você precisa mentir, puxar o tapete ou trair alguém para se sentir bem sucedido, então você não é bem sucedido. Pode acreditar, os atalhos não funcionam aqui.
E sabe o que é pior? Essa vaidade faz com que seu povo evite bater de frente com os outros. Todo mundo quer ser legal com todo mundo e acaba ou ferrando o outro pelas costas, ou indiretamente só para não gerar confronto.
Por aqui, se alguém está 1h atrasado, todo mundo fica esperando essa pessoa chegar para sair. Se alguém decide ir embora e não esperar, é visto como cuzão. Se alguém na família é irresponsável e fica cheio de dívidas, é meio que esperado que outros membros da família com mais dinheiro ajudem a pessoa a se recuperar. Se alguém num grupo de amigos não quer fazer uma coisa específica, é esperado que todo mundo mude os planos para não deixar esse amigo chateado. Se em uma viagem em grupo alguém decide fazer algo sozinho, este é considerado egoísta.
É sempre mais fácil não confrontar e ser boa praça. Só que onde não existe confronto, não existe progresso.
Como um gringo que geralmente não liga a mínima sobre o que as pessoas pensam de mim, eu acho muito difícil não enxergar tudo isso como uma forma de desrespeito e auto-sabotagem. Em diversas circunstâncias eu acabo assistindo os brasileiros recompensarem as “vítimas” e punirem àqueles que são independentes e bem resolvidos.
Por um lado, quando você recompensa uma pessoa que falhou ou está fazendo algo errado, você está dando a ela um incentivo para nunca precisar melhorar. Na verdade, você faz com que ela fique sempre contando com a boa vontade de alguém em vez de ensina-la a ser responsável.
Por outro lado, quando você pune alguém por ser bem resolvido, você desencoraja pessoas talentosas que poderiam criar o progresso e a inovação que esse país tanto precisa. Você impede que o país saia dessa merda que está e cria ainda mais espaço para líderes medíocres e manipuladores se prolongarem no poder.
E assim, você cria uma sociedade que acredita que o único jeito de se dar bem é traindo, mentindo, sendo corrupto, ou nos piores casos, tirando a vida do outro.
As vezes, a melhor coisa que você pode fazer por um amigo que está sempre atrasado é ir embora sem ele. Isso vai fazer com que ele aprenda a gerenciar o próprio tempo e respeitar o tempo dos outros.
Outras vezes, a melhor coisa que você pode fazer com alguém que gastou mais do que devia e se enfiou em dívidas é deixar que ele fique desesperado por um tempo. Esse é o único jeito que fará com que ele aprenda a ser mais responsável com dinheiro no futuro.
Eu não quero parecer o gringo que sabe tudo, até porque eu não sei. E deus bem sabe o quanto o meu país também está na merda (eu já escrevi aqui sobre o que eu acho dos EUA).
Só que em breve, Brasil, você será parte da minha vida para sempre. Você será parte da minha família. Você será meu amigo. Você será metade do meu filho quando eu tiver um.
E é por isso que eu sinto que preciso dividir isso com você de forma aberta, honesta, com o amor que só um amigo pode falar francamente com outro, mesmo quando sabemos que o que temos a dizer vai doer.
E também porque eu tenho uma má notícia: não vai melhorar tão cedo.
Talvez você já saiba disso, mas se não sabe, eu vou ser aquele que vai te dizer: as coisas não vão melhorar nessa década.
O seu governo não vai conseguir pagar todas as dívidas que ele fez a não ser que mude toda a sua constituição. Os grandes negócios do país pegaram dinheiro demais emprestado quando o dólar estava baixo, lá em 2008-2010 e agora não vão conseguir pagar já que as dívidas dobraram de tamanho. Muitos vão falir por causa disso nos próximos anos e isso vai piorar a crise.
O preço das commodities estão extremamente baixos e não apresentam nenhum sinal de aumento num futuro próximo, isso significa menos dinheiro entrando no país. Sua população não é do tipo que poupa e sim, que se endivida. As taxas de desemprego estão aumentando, assim como os impostos que estrangulam a produtividade da classe trabalhadora.
Você está ferrado. Você pode tirar a Dilma de lá, ou todo o PT. Pode (e deveria) refazer a constituição, mas não vai adiantar. Os erros já foram cometidos anos atrás e agora você vai ter que viver com isso por um tempo.
Se prepare para, no mínimo, 5-10 anos de oportunidades perdidas. Se você é um jovem brasileiro, muito do que você cresceu esperando que fosse conquistar, não vai mais estar disponível. Se você é um adulto nos seus 30 ou 40, os melhores anos da economia já fazem parte do seu passado. Se você tem mais de 50, bem, você já viu esse filme antes, não viu?
É a mesma velha história, só muda a década. A democracia não resolveu o problema. Uma moeda forte não resolveu o problema. Tirar milhares de pessoa da pobreza não resolveu o problema. O problema persiste. E persiste porque ele está na mentalidade das pessoas.
O “jeitinho brasileiro” precisa morrer. Essa vaidade, essa mania de dizer que o Brasil sempre foi assim e não tem mais jeito também precisa morrer. E a única forma de acabar com tudo isso é se cada brasileiro decidir matar isso dentro de si mesmo.
Ao contrario de outras revoluções externas que fazem parte da sua história, essa revolução precisa ser interna. Ela precisa ser resultado de uma vontade que invade o seu coração e sua alma.
Você precisa escolher ver as coisas de um jeito novo. Você precisa definir novos padrões e expectativas para você e para os outros. Você precisa exigir que seu tempo seja respeitado. Você deve esperar das pessoas que te cercam que elas sejam responsabilizadas pelas suas ações. Você precisa priorizar uma sociedade forte e segura acima de todo e qualquer interesse pessoal ou da sua família e amigos. Você precisa deixar que cada um lide com os seus próprios problemas, assim como você não deve esperar que ninguém seja obrigado a lidar com os seus.
Essas são escolhas que precisam ser feitas diariamente. Até que essa revolução interna aconteça, eu temo que seu destino seja repetir os mesmos erros por muitas outras gerações que estão por vir.
Você tem uma alegria que é rara e especial, Brasil. Foi isso que me atraiu em você muitos anos atrás e que me faz sempre voltar. Eu só espero que um dia essa alegria tenha a sociedade que merece.
Seu amigo,
Mark
Traduzido por Fernanda Neute

Carta Aberta a Mark Manson:
Não sei se algum dia vai ler esta minha mensagem, porém muitos a quem você se dirigiu, inclusive eu, estão de acordo com o que se segue:
  1. É pena que você e muitos dos seus amigos tenham vindo ao Brasil “em busca de festas, lindas praias e garotas”, porque se tivesse vindo para cá pelas mesmas razões que me trouxeram, então, quiçá teria feito o mesmo diagnóstico das mazelas que enfermam o nosso belo “paraíso tropical”, contudo teria sentido crescer dentro de si o amor que evitaria o seu regresso tão rápido à sua terra e se sentiria mobilizado para participar intrepidamente conosco na busca dos remédios para erradicar os males identificados. Ao fim e ao cabo, você é como a galinha na obra do “bife com ovo a cavalo”; você apenas se envolveu e não se comprometeu; ao contrário da galinha, o boi representa o “comprometimento” porque doou a própria vida para que o prato saísse farto e saboroso, enquanto a galinha só teve “envolvimento”, pois depois de fornecer o ovo saiu feliz e carcarejando. Sabe porque é que você voltou para os EUA, após ter vivido apenas cinco anos no Brasil? Sabe porque é que você não ficou aqui para sempre como muitos “gringos” e “portugas” como eu? Porque você só se envolveu e não se comprometeu com o seu “Querido Brasil”. Você optou por experimentar e não sentir o Brasil! Lamento que o Brasil não possa contar muito com você... Isso é bem tipicamente norte-americano, onde muitos dizem que amam muito os seus pais mas preferem deixá-los mofando e apodrecendo em asilos, onde há profissionais muito bem pagos para cuidar de velhinhos... Até se compreende essa atitude, porque aí, mais do que em qualquer outro país, se aplicam os ditados “money talks” (o dinheiro fala mais alto), “time is money” (tempo é dinheiro), no work, no money” (sem trabalho, sem dinheiro), “every man has a price” (todo o homem tem seu preço), que são de raiz cultural anglo-saxónica como a predominante no seu país.
  2. Você diz que aprendeu muito com a cultura brasileira. Eu também aprendi. Estaríamos mentindo muito se disséssemos o contrário. Até arrisco dizer que ela é muito mais rica do que a cultura dos EUA ou de qualquer país europeu. Aqui, após um período mínimo de dias, você não é “um outro” como na sua terra natal, mas “um de nós”. Aqui você não é relegado a uma comunidade tribal. Você diz que o Brasil tem “uma alegria que é rara e especial”. Realmente, o Brasil é especial e único, mas não é só pela alegria que o fascinou muito. Entenda que alegria é efeito e não causa. Posso asseverar que não há uma cultura brasileira, porque o Brasil é essencialmente multicultural. Deveria ter lido “O Povo Brasileiro: a formação e o sentido do Brasil” de Darcy Ribeiro (1995); “Raízes do Brasil” de Sérgio Buarque de Holanda (1936); “Casa-grande & Senzala” de Gilberto Freyre (1933). É pena que você não tenha estudado profundamente as causas do comportamento cultural brasileiro. Caso o tivesse feito, asseguro que não teria voltado tão rapidamente para os EUA. É verdade! Ainda mais, você não teria se quedado pelo diagnóstico das mazelas do Brasil, pois, além disso, teria avançado com algumas diretrizes consistentes e exequíveis para solucionar os problemas. Aqui, nós precisamos não só de quem saiba muito, mas sobretudo de quem saiba fazer melhor! Em alguns aspectos, a cultura norte-americana também adota muitas crenças em voga atualmente no Brasil, porque usa ditados como “the end justifies the means” (o fim justifica os meios) – veja-se o célebre e paradigmático escândalo Watergate, mais policial do que político, que obrigou o presidente Richard Nixon a renunciar em 1974, para não sofrer impeachment; e, “finders keepers, loosers weepers” (achado não é roubado), que pode muito bem traduzir o que se passou com o vice-presidente de Nixon, isto é, Spiro Agnew, que teve uma ascensão meteórica de prefeito municipal a vice-presidente em apenas seis anos e foi preso por corrupção e evasão fiscal, tendo renunciado em 1973, um ano antes da queda do patrono Nixon. Que mancha escabrosa na história dos EUA! Os sábios americanos escolheram democraticamente uma dupla de criminosos para governá-los. Tiro o chapéu para os norte-americanos que felizmente implantaram mecanismos eficientes para detectar, julgar e punir os crimes dos seus dirigentes. Aqui estamos agora caminhando esperançosamente para isso com a Operação Lava-Jato... Nesse aspecto estamos com mais de meio século de atraso e sinto mesmo que ainda se trabalha, é óbvio, em outro contexto sócio-histórico, o desafio identificado por  José Bonifácio, em 1813, às portas da independência, ocorrida em 7 de setembro de 1822: “... amalgamação muito difícil será a liga de tanto metal heterogêneo, como brancos, mulatos, pretos livres e escravos, índios etc. etc. etc., em um corpo sólido e político”. Essa mescla etnológica causou deslumbramento em Albert Einstein, na sua visita ao Rio de Janeiro, em 1925: Deliciosa mistura étnica nas ruas: português, índio, negro, com todos os cruzamentos. Espontâneos como plantas, subjugados pelo calor. Experiência fantástica! Indescritível abundância de impressões em poucas horas”. Os crentes na superioridade racial dos brancos pregam que a miscigenação é um ponto fraco do Brasil. O que é que você pensa sobre isto? Eu penso que é um ponto forte, porque nenhuma outra nação colonizada por europeus progride tanto nos trópicos. Entre todas as nações de colonização europeia nos trópicos, o Brasil é o mais miscigenado e a maior potência econômica... Isso significa alguma coisa para você?
  3. Estou de acordo, em absoluto, quando diz que o Brasil “está passando por alguns problemas”. Sim, quem os não tem? Os EUA não tem problemas? Você não tem problemas? Eu também tenho alguns problemas para resolver. Problema não é obstáculo ou barreira, é desafio. Todo o problema tem pelo menos uma solução, caso contrário, não seria problema. Então, se tem solução, é continuar tenazmente o trabalho na busca dela, como fez Thomas Edison na invenção da lâmpada incandescente. Um repórter perguntou a Thomas Edison como ele se sentia por ter fracassado 25 mil vezes na sua tentativa de criar uma simples bateria. Ele respondeu: "Não sei por que você acha que foi um fracasso; hoje eu conheço 25 mil maneiras de como não fazer uma bateria; e você, o que sabe?”. Quantos planos e moedas o Brasil teve de 1985 a 1994, no início da democracia pós-ditatorial? Sete planos e cinco novas moedas. A inflação mensal chegou a mais de 80%. Eu vivi essa realidade, já estava cá. Alguém disse que o problema era insolúvel porque a hiperinflação era inercial. Economistas estrangeiros, entre eles havia catedráticos norte-americanos muito ilustres, confessaram todos não ter uma solução. Ela foi encontrada por brasileiros. Assim será com todos os outros problemas...  
  4. Não concordo nada quando diz que o Brasil tem vivido “altos e baixos entre crises, década sim, década não”. A sua assertiva é absolutamente falsa. É só consultar estatísticas que vocês americanos amam tanto. Com a implantação da democracia tem havido ciclos de mutação e desenvolvimento econômico, social e político. O Brasil vive um processo sócio-histórico continuamente ascendente. Na minha vivência e percepção identifico quatro: 1) estabilização econômica anti-inflacionária; 2) fortalecimento das instituições democráticas com independência dos três poderes, executivo, legislativo e judiciário; 3) aprofundamento da governança pela alternância do seu exercício entre tendências partidárias ideologicamente distintas; 4) e, agora, aperfeiçoamento dos mecanismos de fiscalização fiscal e de luta anticorrupção, visando o término da impunidade do crime organizado no aparelhamento do estado por acordos promíscuos entre agentes do capital privado e do poder político. Agora, vive-se o primeiro grande passo na luta contra a impunidade, que certamente se aprofundará com outras de escolarização/educação, saúde pública, rigor fiscal/ contábil, industrialização/ emprego, qualidade/ produtividade, reforma política, segurança pública, etc.          
  5. Importa analisar detidamente esta sua declaração: “Você é o problema. Eu tenho certeza de que não é proposital”. É bom salientar que cada constituinte do povo brasileiro contem em si o problema e a solução. Quando aqui cheguei muitos brasileiros tinha um discurso de “vítimas e coitadinhos”, eles buscavam culpados e, quase sempre, os maiores eram as perdas internacionais impostas pelo imperialismo europeu e norte-americano e o processo de colonização dos portugueses. Hoje, manifestam maior autoestima e maior autoconfiança. Claro que o atraso não é proposital porque o comportamento individual e coletivo resulta de hábitos arraigados. A mudança mais difícil no ser humano é a de hábitos. As pessoas mudam de hábitos quando verificam que eles redundam em grandes prejuízos. O ser humano é biológico, social, psicológico e espiritual. Biologicamente falando, todos os seres humanos são equivalentes. Então, a diferença entre vários povos e nações reside nas dimensões social, psicológica e espiritual, que podem ser evoluídas pela educação. O problema do Brasil é educacional e não o povo, em si, por conseguinte a solução está na educação, conforme foi comprovado na Coreia do Sul.
  6. Você afirma que os problemas do Brasil são “as crenças e a mentalidade que fazem parte da fundação do país e são responsáveis pela forma com que os brasileiros escolhem viver as suas vidas e construir uma sociedade”. O que é que as crenças que sustentaram a fundação do país em 1822 tem a ver com os problemas de hoje? Nada! Já se passaram quase dois séculos depois da independência e os brasileiros tiveram tempo mais do que suficiente para moldar o seu país a seu bel-prazer sem demonizar as origens. A Coreia do Sul fez uma transformação do estado de pobreza secular para a prosperidade em menos de trinta anos, enquanto a Coreia do Norte com a mesmo tipo de povo ainda está num estado de miséria.
  7. Uma profunda mudança de crenças e atitudes só é possível com um processo educacional persistente sob uma liderança esclarecida, o que levaria a aperfeiçoar no subconsciente coletivo da nação brasileira algumas qualidades que lhe faltam – em que estou totalmente de acordo com você – como “senso de justiça”, “responsabilidade” e “consciência social”, assim como a erradicação de debilidades comuns bem nítidas como “egoísmo”, “vaidade”, “desprezo da meritocracia”, “conformismo com o erro” e “impunidade”, que incentivam a corrupção, a traição, a mentira, o homicídio, o latrocínio, o tráfico de drogas, despreocupação com a qualidade e a produtividade, etc.  
  8. Finalmente, discordo também da opinião: “Se prepare para, no mínimo, 5-10 anos de oportunidades perdidas. A democracia não resolveu o problema. Uma moeda forte não resolveu o problema. Tirar milhares de pessoas da pobreza não resolveu o problema. O problema persiste. E persiste porque ele está na mentalidade das pessoas. Você precisa escolher ver as coisas de um jeito novo”. Muitos especialistas já comprovaram que algumas iniciativas da liderança política poderiam colocar novamente e de imediato o país numa rota de crescimento anual contínuo de 4% do PIB com distribuição de renda. A democracia é o ambiente adequado para a contínua resolução dos problemas, como tem sido provado desde 1985. Uma moeda forte e estável já resolveu muitos problemas, embora não todos. Tirar milhões de pessoas da pobreza, como ocorreu na última década, também resolveu muitos problemas, embora seja necessário usar uma estratégia mais apoiada na educação para dar sustentabilidade a essa distribuição de riqueza. Os brasileiros estão progressivamente adotando um “jeito novo” de ver a sua realidade coletiva, por isso, vão agora para as ruas aos milhões para exigir mudanças. Você foi embora e perdeu a oportunidade de presenciar este momento histórico. Eu não, felizmente. CRISE vem do grego KRISIS, que etimologicamente quer dizer ROMPIMENTO. Milhões de brasileiros agem agora energicamente para obrigar os seus líderes, de todos os matizes e quadrantes políticos, a romper com velhos paradigmas e atitudes que levam ao atraso. Só por isso vivemos uma crise, mas é uma crise virtuosa, não se engane! Em conclusão, contudo falta muito para que cada brasileiro cumpra o mandamento de Mahatma Gandhi: “Seja a mudança que você quer ver no mundo”...
Um grande abraço do
Kabiá-Kabiaka